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Nilson Souza: À base de desafios

Seja na aeronáutica, no futebol ou nas redações, o jornalista está sempre disposto a persistir. E ele vai lá e faz
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Nilson Souza | Divulgação/Coletiva.net

Por Gabriela Boesel

Com um sonoro “soldado Nilson, Senhor”, S1-67-188 batia continência e se apresentava com o nome de guerra, em 1967, no auge dos seus 19 anos. Naquela época, morava no bairro Sarandi, na Zona Norte de Porto Alegre e, de bicicleta, chegava à base aérea da Aeronáutica em Canoas a tempo de filar o mingau do café da manhã. Foi nesse tempo que Nilson Souza perdeu a frescura para comer. Hoje, mesmo sem saber cozinhar, limita-se a dizer que seu prato favorito é o cheio.

Também foi nessa fase que andou pela primeira vez de avião, uma prática incomum para soldados rasos como ele. Encarou o desafio e subiu num antigo Douglas que não tinha portas para participar do teste de paraquedas. Não saltou – seria demais para o jornalista –, mas ajudou a verificar a eficácia dos equipamentos em bonecos de ferros que eram alçados da aeronave para o ar.

Embora tenha sido uma experiência marcante, Nilson não serviu mais do que o ano obrigatório nas Forças Armadas. Avesso a armas, diz que a vida militar não lhe agrada. “Atirei até com metralhadora capaz de derrubar avião. Nunca mais botei uma arma na mão”, diz, enfático. E é em meio a uma infinidade de livros de uma livraria no Centro da Capital – cenário ideal para a entrevista – que ele declara: “Prefiro empunhar uma caneta”.

Jornal, leite e pão

Escrever é uma paixão. Mais até do que ler. Essa é a definição dele quanto à arte da escrita. E a escolha do local da entrevista diz muito sobre o entrevistado. Tida quase como um santuário, a livraria Erico Veríssimo é um dos recantos preferidos do jornalista, que se refugia em meio às obras literárias, mescladas com objetos antigos que dão um ar nostálgico ao espaço. Antes mesmo de sentar para a conversa, Nilson fez questão de mostrar cada detalhe da livraria, evidenciando o carinho que tem por ali.

Na juventude, o estudante de Técnica em Contabilidade não sabia ao certo a carreira que iria seguir. Foi em uma conversa com o então professor de História do Ensino Médio, por quem tinha uma admiração muito grande, que decidiu pelo Jornalismo. “Ele me disse que eu não podia fazer esse curso porque era muito tímido e não tinha nenhuma vocação para tal profissão”, relembra o diálogo. “Tomei isso como um desafio: vamos ver se eu realmente não posso.” Tanto pode quanto o fez. E foi este mesmo professor que pagou a inscrição no vestibular da Ufrgs, onde se formou em 1971, na última turma na qual a duração da graduação era de três anos.

Nascido e criado na capital gaúcha, Nilson não esconde a origem humilde e recorda da infância com carinho e nostalgia. Aos 68 anos, começou a trabalhar com 16, quando ajudava o pai, o já falecido Sebastião Valentin de Souza, a entregar leite e pão nas casas da vizinhança. “Eu tinha certo constrangimento, pois, nessa época, já estava querendo entrar na faculdade e ficava preocupado se meus colegas me vissem. Mas foi isso que me garantiu a vida.”

Nada o atrapalhou. Cursou Jornalismo e, mesmo antes de se formar, ingressou como estagiário no que viria a ser a primeira experiência profissional na área. E a extinta ‘Folha da Tarde’, da Caldas Júnior, foi sua casa pelos 14 anos seguintes, onde trabalhou como repórter de Esportes e, depois, foi subeditor da editoria. Nenhuma surpresa. Inclusive, um grande alívio, visto que no mesmo patamar da escrita está o futebol, esporte este que embalou a infância e quase o desviou do Jornalismo.

De esportivo e de opinião ele entende

Com uma infância dividida entre a escola e os campos de futebol do bairro, chegou a treinar na categoria de base do Grêmio na adolescência, outra atividade que, assim como a Aeronáutica, não durou muito. “Era cansativo e longe de casa, então desisti. E, além da dificuldade de deslocamento, tínhamos um tratamento complicado. Nunca tinha sido xingado em casa, não era fora que isso iria acontecer”, explica. Não seguiu no esporte de forma profissional, mas o pratica até hoje, no sagrado jogo semanal. “Hoje, grito mais do que corro”, brinca.

Engana-se quem associa a ligação que teve com o Tricolor com seu time do coração. Aliás, tal informação não foi e jamais será concedida nem por decreto. “Jornalista não tem time de futebol. Considero isso um dos motivos de independência da profissão”, defende e enfatiza que ninguém sabe para qual clube torce. Inclusive, para deixar a dúvida no ar, diz que a família é gremista, mas, como foi repórter setorista do Internacional, tem mais afinidade com o Colorado. “Não torcer é uma bandeira irrenunciável. Nosso dever é com o público e isso está acima de tudo.”

A fim de ter mais propriedade sobre o assunto esporte, que tratava na editoria do jornal ‘Folha da Tarde’, ingressou na Escola Superior de Educação Física da Ufrgs (Esef). Na mesma época, trabalhava na sucursal do ‘Jornal do Brasil’ em Porto Alegre – onde ficou por seis anos –, de forma que completava os três turnos de atividades: aulas pela manhã, JB à tarde e Caldas Júnior à noite. Pelos impressos, teve a oportunidade de cobrir as Copas do Mundo da Argentina, em 1978, pelo JB, e da Espanha, em 1982, pela Folha.

Também teve uma breve passagem pela sucursal da revista Veja, na Capital, depois de deixar a Caldas Júnior.  Embora a publicação oferecesse a melhor remuneração por aqui, não tem boas recordações do ano em que atuou no veículo. “Era um trabalho frustrante”, resume, sem entrar em detalhes . Com uma semana de intervalo, foi chamado para onde seria sua casa pelos 32 anos seguintes, o jornal ‘Zero Hora’.

De preguiçoso ele não tem nada

Com estatura mediana, corpo esguio, cabelos brancos e timbre oscilante, ele é um gigante na redação. Enche o peito ao dizer que nunca deixou de trabalhar desde os 16. Mais um desafio que encarou na juventude, quando a mãe, Terezinha Fialho de Souza, hoje com 93 anos, dizia que ele era o mais preguiçoso dos quatro filhos. “Aquilo deve ter me marcado, porque comecei a trabalhar e nunca mais parei”, analisa.

E o fez tão bem que o irmão mais velho, Milton, seguiu seu exemplo e o mesmo caminho. Na família, outras duas integrantes o tiveram como inspiração: a afilhada Daniele e a sobrinha Eliane, ambas graduadas pela Famecos, da PUC. Casado e sem filhos, ele e a esposa, Maria Zita Zamprogna, bibliotecária aposentada, nunca tiveram interesse na maternidade, falta que foi suprida com os diversos sobrinhos do casal.

A história da dupla de eternos namorados merece destaque. Foi um casaco de veludo amarelo-ouro que uniu Nilson e Maria Zita ainda na faculdade, quando ambos cursavam as disciplinas básicas comuns a todos os cursos da Federal. “Era o único que eu tinha, e usava o inverno inteiro”, justifica. Um dia, quando chegou atrasado na aula, sentou no único lugar que estava vago. Coincidentemente, era ao lado daquela que seria sua companheira. “Quando vi, do meu lado tinha uma menina com um casaco igual o meu. Isso marcou. Era ela. Foi há mais de 40 anos”, recorda, com um doce brilho no olhar. E completa, aos risos: “Depois daquilo, nunca mais usei o tal casaco. Foi constrangedor e curioso”.

Em casa também tem histórias curiosas, como ele mesmo as denomina. Terceiro de quatro filhos, dividiu a infância com os irmãos Milton, Nilton e Ilson. Uma verdadeira confusão de nomes. Quando chamava um, todos atendiam. Para se diferenciar, ganhou um apelido, que foi reticente ao revelar. Era chamado de Nenzinho, que vem de ‘nenezinho’. Na faculdade de Educação Física, era mais conhecido por Geada, resultado dos cabelos brancos que adquiriu no auge dos 18 anos. No futebol, atende por ‘Neizinho’ ou ‘Nei’. “Tenho vários heterônimos”, diverte-se.

Gabriel García Marquez já dizia…

“Jornalismo é a melhor profissão do mundo.” Nilson compartilha da mesma ideia do autor colombiano que figura na sua lista dos preferidos, ao lado da chilena Isabel Allende e dos brasileiros Erico e Luis Fernando Veríssimo, Jorge Amado e o amigo Moacyr Scliar. Também aprecia as obras do alemão Hermann Hesse e da italiana Elena Ferrante, livros que, inclusive, recomendou como “uma bela leitura feminina”.

A profissão, para ele, é tão apaixonante que ousa dizer que não conhece um ex-jornalista. Dentre suas inspirações, destaca-se a ex-colega de ‘Zero Hora’, a colunista Rosane de Oliveira, para a qual dedica belas palavras: “A Rosane é a melhor jornalista que conheci na vida. É a profissional que mais respeito, pois ela é um resumo de tudo: é humilde e ética e tem consciência do social. É um modelo de Jornalismo”.

Na empresa onde dedicou seus últimos 32 anos, entrou como editor de Justiça, e passou para a editoria de Esportes. Mais tarde, em 2007, assumiu a editoria de Opinião. Mesmo com uma trajetória memorável, não se considera realizado, pois, para ele, realização é para a pessoa que para, o que ele não fez. “O que eu já fiz me deu satisfação e prazer, e me senti reconhecido. Mas não acho que fiz uma obra-prima.”

Aposentado desde que deixou a redação de Zero Hora agora em abril, segue executando alguns trabalhos pontuais. Já mais tranquilo, sem a rotina da redação, quando não está no ofício, aprecia trabalhos manuais, como trocar uma fechadura ou consertar uma tomada em casa. “É uma coisa que me desencana a cabeça e, quando tenho tempo, em vez de contratar alguém, faço eu mesmo”, declara.

Gosta de cinema, mas não tem frequentado a sétima arte, tanto que não sabe dizer um filme, nem um autor preferido, apenas relata que gosta de histórias leves e divertidas. No campo da música, já começa justificando que tem gostos estranhos. Na lista, estão o uruguaio Jorge Drexler e a francesa Zaz, além dos nacionais Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa, Gilberto Gil, e a favorita Elis Regina. Também ocupa o dia com caminhadas diárias no calçadão de Ipanema, na Zona Sul, afinal, para ele, “atividade física é imprescindível, uma questão de sobrevivência”.

Esforçado para fazer o que gosta e que acha que vale a pena, Nilson Souza é um misto de simplicidade e simpatia, que, com uma fala mansa, coloca no papel aquilo que merece ser dito. “Tudo o que fiz coloquei a persistência como guia.” E, se puder deixar um recado para os colegas e futuros profissionais, recomenda: “Descubra o que você gosta e insista. Porque é assim que a gente chega onde quer”.