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Roberto Schmidt: Não brigue por ego

Com quase três décadas de atuação no mercado publicitário, ele sobreviveu às transformações do setor sendo resiliente
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Beto Schmidt

Por Cinthia Dias

Era 1989, quando Roberto Schmidt mostrava sua rebeldia da juventude diante da Prova de Habilitação Específica para graduação em Música da Ufrgs. Na época, o regulamento previa que os candidatos apresentassem três peças: um autor brasileiro, um de livre escolha e um minueto de Johann Sebastian Bach. “Este último achei muito estúpido, então, melhorei a ideia. Eles me rodaram, e estavam certos em fazer aquilo, porque não respeitei a regra do jogo”, avalia, aos 44 anos, com maturidade.

Sem a aprovação, acabou indo estudar História, também na instituição de ensino federal, e desprovido de dinheiro resolveu se aventurar em um curso de serigrafia com duração de seis meses. Entretanto, o que era para dar lucro estava dando prejuízo. Os gastos extras com arte final fizeram com que Beto – apelido familiar que se tornou uma marca profissional – passasse ele mesmo a fazê-la. “Quando me dei conta, estava dentro de uma agência”, diz, para mostrar como tudo aconteceu rapidamente em sua carreira.

Ilude-se quem pensa que ele largou a música para trabalhar com Publicidade e Propaganda. Paralelo às atividades que desempenha na agência Moove, como head de Arte, o profissional se divide para integrar a composição de três bandas, sendo duas em Porto Alegre e uma em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Os grupos em que toca baixo abrangem os estilos heavy metal (Gladiator), rock (Eu tenho uma tese sobre isso), e punk (The Predest). “Não viajo para ensaiar, somos modernos. Fazemos tudo a distância”, esclarece, aos risos, e comenta, orgulhoso, que gravou três CDs com os “gringos” sem ter pegado um avião. Como conta, o procedimento foi simples: cada músico gravou sua parte e depois montaram os álbuns.

As roupas escuras, o all star preto e, eventualmente, o suspensório somados à longa barba refletem o estilo musical das bandas que compõe. Entretanto, a imagem descolada do roqueiro esconde as apresentações em festas do Interior, cujos repertórios já foram compostos por sertanejo e axé, como o hit do Verão 2014 Lepo Lepo. “Ouço de tudo. Essa falta de preconceito se encaixa e se aplica para Propaganda.” A prática do golfe aos finais de semana é outra peculiaridade que faz parte da trajetória do único filho homem de Adyl e Yara, bem como o gosto pela pintura. “Essas atividades ninguém imagina”, confessa, às gargalhadas, ao mesmo tempo em que sobe os óculos de grau, cuja armação também é preta, no nariz.

Adapte-se ou morra

“Sempre fui de me movimentar, então não ficava mais de dois anos nas empresas.” Ao todo, foram mais de 12, entre agências e veículos de comunicação, onde o publicitário reconhece ter tido a oportunidade de trabalhar com “bons diretores de Arte (DA)”. Entre eles, recorda, com gratidão, dos colegas André Torreta e Artur Denegri, dos tempos de Duda Mendonça; Beto Callage, do período em que atuou na extinta DCS; e o atual CEO da Publicis, Hugo Rodrigues. Também aproveitou para destacar cinco das companhias em que mais gostou de trabalhar: Competence, DCS, Dez e Moove, em Porto Alegre, e Publicis, em São Paulo. Com esta última, teve o privilégio de viajar para Hamburgo, na Alemanha, para realizar alguns trabalhos.

Devido à grande circulação no mercado gaúcho, paulista e carioca, registra que pode perceber que os profissionais mais legais eram aqueles mais ricos de outros conteúdos que não os publicitários. Defensor convicto da formação diversa nas agências, avalia que, atualmente, o problema é não ter DA que estuda História da Arte e redator que não é de Letras, por exemplo. “Era muito mais rico”, constata, e afirma que ele mesmo veio da História e não conseguiu suportar mais do que três semestres de Publicidade e Propaganda na Unisinos. “Não vai ser a teoria que vai resolver. De que adianta técnica se não houver conteúdo?”, indaga, crítico.

Com mais de 25 anos de atuação, garante que sobreviveu a tantas mudanças no segmento graças à sua capacidade de adaptação e estudo das mais diferentes áreas. Uma das ocasiões em que demonstrou esse talento foi com a chegada do desktop publishing (programa de editoração eletrônica), quando os arte-finalistas precisaram dominar as demandas do computador para prestar assistência aos DA que desconheciam os comandos da ferramenta. O irmão de Ana Lucia, Carolina e Maria Cristina viu profissionais excelentes serem demitidos porque não se permitiram participar da transição como ele. ”Adaptabilidade. Caso contrário, a teimosia já teria me matado.”

Mudança de planos

Decidido a tentar algo novo, em 2005, demitiu-se da RBS TV e TVCom, onde coordenava o departamento de Arte, para integrar a equipe de colaboradores da Rede Globo, no Rio de Janeiro. Conforme relata, a dimensão do que acontece no Projac é muito distinta do Sul do Brasil, pois possui mais autonomia e liberdade. Porém, o encantamento acabou na proporção em que a violência aumentou e o filho Juliano veio ao mundo. “Cansei de ver um cadáver por semana, aí perde toda graça.” Ao lado da então esposa, retornou a Porto Alegre. Sem entrar em detalhes, observa que, tempos mais tarde, divorciou-se da companheira, que acabou ficando na Capital mesmo após a separação.

Ao voltar para sua cidade natal, decidiu empreender e abrir uma agência – a Guerrilha – voltada à área musical. Com ela, conseguiu fazer algumas capas para Orbit Music e outros jobs com bandas, mas a iniciativa não se sustentou diante do período em que a produção de disco estava em queda. “Fui muito suicida de abrir um negócio no meio dessa revolução. Se eu soubesse, não teria feito. Mas é aquilo: erre rápido, conserte mais rápido ainda.”

Ainda que tenha crescido em meio aos sets, estúdios e locações, e seja gremista e baixista como o pai, o Ju – como carinhosamente se refere ao primogênito – não quer uma profissão ligada à Comunicação, quer ganhar os ares como piloto militar. Em relação à escolha, o publicitário brinca que seu herdeiro é mais inteligente que ele e, consequentemente, não brigam. Incentivador do sonho do adolescente, o leva, aos sábados, para aula de Iniciação Aeronáutica no aeroclube, localizado no bairro Belém Novo, na capital gaúcha, para compensar a rotina agitada que ambos têm de segunda a sexta-feira.

A dupla, que mora junto há um ano, também é companheira para assistir ‘The Walking Dead’ e comer temakis e sushis no restaurante japonês Japesca. Em meio a um episódio e outro da série sobre mortos-vivos que faz sucesso mundial, devora algum livro, o que afirma ser “resquício da faculdade”, ou filme – como o clássico Laranja Mecânica. Entre as obras preferidas, está Zen e a arte da manutenção de motocicletas’, de Robert Pirsig.

Dentro e fora do expediente

A terceira geração de uma família de alemães não poderia sair imune à teimosia e insistência, características da nacionalidade. Se, por um lado, o publicitário se define mal-humorado, intolerante a atrasos e torce o nariz para pessoas burras, por outro, é totalmente sensibilizado pelo impacto positivo que sua profissão pode gerar na vida das pessoas. Quando atuou na Global – e, agora, na Moove –, desenvolveu peças para campanhas de conscientização e de prevenção para o Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RS). “Não é só um trabalho criativo. Se, de alguma forma, alguém mudou seus hábitos e salvou alguma vida, valeu a pena. Isso é sério, não é pelo prêmio.”

Dono de duas estrelas do Salão da Propaganda nas Semanas ARP de Comunicação de 1997 e 2016 – Ilustrador e Criativo do Ano, respectivamente –, fala, sem qualquer constrangimento, que, aproximadamente, 30% do que se encontra em seu portfólio foi produzido para ganhar festivais, o que caracteriza como “trabalhos fantasmas”. Segundo o criativo, muitos colegas negam esse tipo de atitude, que resulta em pontos às agências que buscam uma posição no ranking Gunn Report. “Faz parte do negócio. Premiações não tratam de ego, mas de dinheiro. Se engana quem pensa o contrário. Tolinhos”, completa, irônico.

Para evitar o estresse

Sendo um dos fundadores do blog ‘Grêmio Libertador’, o gremista (sócio desde 1983) traduziu sua paixão tricolor na pele – uma tatuagem, hoje, desbotada no braço direito. A intensidade do sentimento pelo clube o fez deixar o estádio e acompanhar as partidas somente via Twitter, ou raramente pela TV, para ser menos estressante. “Cansei da corneta da social, da cadeira e da geral. Muito técnico de arquibancada. Isso me dá um nervoso”, justifica.

O amor pelo time o faz guardar uma lendária fotografia com Renato Portalupi, que sobre a qual os amigos gremistas fazem piada e até montagens como se Beto estivesse sentado no colo do ex-jogador e atual técnico do Grêmio. “Na volta do título mundial, um fotógrafo esperto contratou o atacante e cada guri da escolinha tirava uma foto atrás dele. Foi só isso que aconteceu”, esclarece, aos detalhar os bastidores da relíquia que ainda é alvo de brincadeiras.

Trabalho de abnegação

Sedento por fazer a diferença e transformar positivamente o mercado, envolveu-se com a implantação do Clube de Criação no Rio Grande do Sul (CC-RS), que visa ao resgate da criatividade como centro das ações no segmento. Ele, Alessandro Carlucci, Cado Bottega, Dreyson Queiroz e William Mallet resolveram unir forças e tirar, finalmente, o projeto do papel em julho de 2016. Como conselheiros e não em formato de diretoria, defendem  o aprendizado, não somente dos futuros profissionais que estão em formação nas academia, mas do cliente e do mercado. “Não adianta a gente querer comercializar uma ideia para quem não entende o que isso significa. É como vender um carro para quem não sabe que ele existe”, compara.

Desde então, o coletivo vem promovendo cursos, palestras para empresários, atividades nas universidades e participando de encontros com os demais grupos do mercado. Favorável às propagandas que não ofendam a inteligência das pessoas ou aquelas que são extremamente inteligentes e só iniciados entendam, Beto acredita que publicidade não é arte contemporânea que precisa de alguém do lado para explicá-la. “Propaganda é arte pop, sem explicação.” Advogado ferrenho das ideias, desabafa que chega a ser chato quando elas se perdem nos processos internos das agências. “Nunca briguei por ego, mas muito por ideia. Vou até o fim por isso.”