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Caco da Motta: Isso vai passar

Da infância à maturidade, o lado esportivo do jornalista sempre foi cultivado
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Caco da Motta | Digital Band RS

Por Cinthia Dias

Quando criança, na sacada de um dos prédios mais tradicionais de Capão da Canoa, localizado à beira-mar no litoral gaúcho, próximo ao extinto Baronda, Carlos Henrique da Motta Martins acompanhava a movimentação dos carros e dos pedestres na avenida Paraguassu e no centro da praia no período das férias escolares. Diretamente do edifício Aymoré, o garoto presenciava fatos frequentes da época de veraneio, como brigas em fliperamas e grupos de jovens que aproveitavam a estação mais quente do ano. Aos 15 anos, pulava a janela do apartamento no térreo para conferir em detalhes o que havia acontecido.

Antes, já ouvia atento as histórias de seus avôs materno, Carlos Frederico, e paterno, João Menezes, que narravam a rotina rural e como era a convivência com os animais no campo. O primeiro contava da caça de marrecos, que resultava no prato principal de algumas refeições; o outro, por sua vez, compartilhava as experiências da vida no interior do Estado e da aventura de sair de São Pedro do Sul – registrada no livro ‘O menino que veio de longe’ – para morar na cidade grande. Ao lado deles, não via o tempo passar.

E o que há em comum entre o comportamento no Litoral Norte e a afinidade com o perfil dos avôs? O caçula da família Martins descobriu a relação entre eles quando ingressou na Unisinos, em São Leopoldo, para cursar Jornalismo e Publicidade e Propaganda. Cogitando seguir os passos do pai, Pedro Martins, o plano inicial era fazer um ano de curso pré-vestibular no Unificado, no Centro de Porto Alegre, para ser aprovado em Medicina como seu irmão, Pedro Alexandre. “Na faculdade, identifiquei que aquilo que fazia na praia nada mais era do que ser repórter. Apurava, curioso, desde pequeno”, constata, assegurando que o lado contador de histórias é graças aos seus antepassados. Antes mesmo do diploma, Carlos Henrique já era o Caco da Motta, apelido carinhoso que lhe foi concedido pelos irmãos Pedro e Marjory, que é formada em Letras. Ele conta que a dupla se inspirou na personagem de história em quadrinhos Caco Milico, que era careca como ele.

Profissão: diversão

Durante a cobertura de um jogo do Grêmio no estádio Orlando Scarpelli do Figueirense, em Santa Catarina, para o jornal Zero Hora, um editor do Diário Catarinense (DC) lhe convidou para ocupar uma vaga de repórter no impresso. Não pensou duas vezes: aceitou a proposta, que viabilizaria trabalhar próximo ao mar, ainda que a questão financeira não fosse vantajosa. Tentou negociar sua transferência para Florianópolis e, sem sucesso, pediu demissão. A namorada Carla abraçou a mudança, pois, na época, era concursada do Bradesco. “Em Santa, tive a vida que sempre sonhei”, declara, satisfeito.

Começou no turno vespertino do DC, deixando as manhãs livres para realizar caminhadas de frente para o Oceano Atlântico. Porém, em uma sexta-feira, começaram a gravar as chamadas do Esporte para televisão, das quais ele participou. Em seguida, acumulou as funções de repórter na rádio CBN no mesmo segmento do impresso e, de Geral, na RBS TV. Com os três cargos se sentiu completo. O sonho de se tornar um profissional multimídia como Lauro Quadros, finalmente, se concretizou. Os três contracheques eram um motivo a mais para exercitar a arte da reportagem, pela qual era apaixonado, porém a rotina na empresa era desgastante. Chegava depois das 21h em casa, muitas vezes acordava às 5h para o telejornal matinal da emissora. “Tive frio na barriga, tomei mijada, errei muito, mas me diverti.”

Quando pensou que não poderia ficar melhor, tornou-se editor-chefe de Esportes na RBS TV. O chamado aconteceu ao acompanhar o tenista Guga Kuerten em um dos muitos campeonatos do atleta. Entretanto, para dar conta das demandas da emissora, deixou a reportagem em 1997. À frente da editoria, ficou uma década. “Foi um processo dolorido para mim”, confessa. Para matar a saudade, fazia comentários esportivos de até quatro minutos no Jornal do Almoço e colocava, junto à equipe técnica, o Globo Esporte no ar. Não foi suficiente. Em 2006, largou tudo. “Sem dúvida, a decisão mais corajosa e maluca que tomei na minha vida.”

Jogada de mestre

Natural de Porto Alegre, o típico gaúcho da música ‘Horizontes’, de Kleiton e Kledir, nasceu no Hospital Moinhos de Vento. A infância e educação de Caco se deram na Zona Norte da Capital, no Colégio Anchieta. Entre as aulas de Matemática, Química e Física, preferia atividades esportivas e acredita que esta tenha sido a razão pela qual repetiu a sétima série. “Não ia tão mal nas matérias, mas era imaturo, matava aula para jogar bola.” Praticou futebol, judô, ginástica olímpica, além de natação, desde os cinco anos, no Grêmio Náutico União. Aos 15, começou a surfar. Segundo ele, só não participou do coral da escola porque não tinha disciplina. Não somente a prática prendia sua atenção, como adorava acompanhar tudo sobre o universo esportivo na TV e nas rádios.

Como telespectador, lembra-se de momentos importantes, como a medalha do Panamericano de 1987 da equipe do basquete masculino, e as narrações do paulista Luciano do Valle. Quando ingressou, em 1988, na universidade seguiu dando audiência para a editoria de Esportes. Do período da faculdade, ressalta, de imediato, a cadeira de Antoninho Gonzalez – o professor que, entre uma tragada e outra do cigarro Minister, contava suas histórias da extinta Caldas Junior. “Ele deu aula de Introdução ao Jornalismo na Unisinos. De forma muito didática, me ensinou o que era a profissão. Encantei-me.”

No segundo ano de graduação, sua irmã lhe mostrou um anúncio em ZH sobre vagas em aberto na Gaúcha. Após conversar com o chefe de Esportes da emissora na época, Flávio Dutra, foi chamado para ser assistente de Produção. Na função, teve a oportunidade de fazer texto para o ‘Bola na Rede’ e, principalmente, conviver com Armindo Antônio Ranzolin, Alexandre Praetzel, Antônio Carlos Macedo, Eric Sauer, Diego Casagrande, Farid Germano Filho, Felipe Vieira, Haroldo de Souza, José Alberto Andrade, Pedro Ernesto Denardin, Renato Martins e Sérgio Boaz. De quebra, recebeu a missão de pegar os arquivos da rádio, que estavam em rolos, e passá-los para fita. Ouviu décadas de gravações da emissora, realizou a decupagem batida na máquina, dobrava-a em quatro partes e guardava no armário. Deduz que foram mais de 150 fitas, o que equivale a mais de 200 horas.

A vida de produtor não lhe chamava mais tanto a atenção como a de repórter. Na busca pelo sonho, negou o convite de Macedo para fazer a produção de seu programa. Decidido, em 1990, desligou-se da RBS para ser redator da Guaíba, com carteira assinada, onde também conheceu outros profissionais que ouvia na rádio, como Cléber Grabauska, Luiz Carlos Reche, Marco Antônio Pereira e Milton Ferreti. Desiludiu-se, ficou três meses e cansou de redigir material. Em 1992, com a chegada de Augusto Nunes a ZH, o impresso passou por mudanças organizacionais e foi contratado como setorista do Grêmio.

De fora da área

Há 30 anos juntos, o jornalista e a, hoje, esposa Carla se conheceram em um feriado de Carnaval na Sociedade dos Amigos do Capão da Canoa (Saac). A relação, que só andou depois da festividade e se consolidou com uma ida ao cinema, é como um filme. “Nossa vida é assim com quase todos os gêneros que gostamos – Ação, Aventura, Comédia, Drama, Romance e Suspense. Só não tem Terror e Polícia”, garante, bem-humorado. Da união, nasceu Mariana, que, diferentemente do casal, é catarinense.

Tão comum quanto escutá-lo falando de futebol é vê-lo correr pelo bairro Jardim Europa com a cônjuge e encontrá-lo, aos sábados, na feira de frutas e verduras orgânicas do Parque da Redenção. Mas a terapia mesmo está nas panelas. Recentemente, o espaço da cozinha, aos finais de semana, passou a ser concorrido entre ele e Mari. Apesar do prato favorito ser churrasco, as massas são sua especialidade.

Quando não rola uma sessão de cinema, a família assiste à série médica Grey’s Anatomy, na Netflix, em função do gosto pela Medicina e da filha, que estuda Nutrição. Sozinho, não dispensa a série norte-americana House of Cards e um bom livro. Atualmente, em sua cabeceira, estão Travessia, de Charles Zimmermann; Nocaute – Como contar sua história no disputado ringue das redes sociais, Gary Vaynerchuk; e a biografia Astor Piazzolla, de Maria Susana Azzi e Simon Collier.

Reencontro profissional

Em 2006, trocou o contrato CLT por pessoa jurídica, Esporte por Jornalismo, Florianópolis por Porto Alegre e RBS Santa Catarina pela Band RS. Ao pousar em solo gaúcho, assumiu a coordenação das equipes das rádios Bandeirantes e BandNews FM. A decisão foi digerida por sua companheira com indignação, o que tornou a adaptação do casal e da filha ainda mais difícil. “Existem decisões que não têm volta. É como um jogo de xadrez, onde cada peça dá reflexo em outra.”

Insatisfeito com a distância dos microfones e sem ter como voltar atrás, passou a fazer trabalhos temporários para RBS TV até 2010, quando o veículo de comunicação o contratou para integrar a chefia de Esportes e, na sequência, foi deslocado para gerir a área na extinta TVCom. Dentro do canal multiplataforma, vivenciou sua mudança para o também extinto Octo. Entretanto, seu sexto sentido pressentiu o fim das operações do canal e a demissão de colaboradores em setembro de 2016.

Dois meses depois, a convite de Renato Martins, retornou ao Grupo Bandeirantes, mais maduro, para ser coordenador das rádios. Em pouco tempo, sob a gestão de Sérgio Cóssio, assumiu os Esportes na TV e nas emissoras Bandeirantes e BandNews FM. “Eventualmente, quando alguém está doente ou em férias, participo do ‘Donos da Bola’, por exemplo. Isso, sem dúvida, está melhor resolvido em mim”, assegura.

Também afirma que há, ainda, muitos desafios para enfrentar, como a presença nas mídias sociais e a interatividade com os espectadores, e que, impreterivelmente, os momentos são passageiros e precisam ser aproveitados em sua essência. “Três palavras são mágicas, que valem para qualquer situação: isso vai passar.”