Andiara Petterle: Vontade de fazer

Agora no Grupo RBS, Andiara Petterle começou aos 14 anos uma trajetória que a fez empreendedora, investidora e executiva

Andiara Petterle | Crédito: Jorge Rosenberg
Da infância campeira ao mercado da comunicação, a vice-presidente de Jornais e Mídias Digitais do Grupo RBS, Andiara Petterle, traz consigo desde cedo uma das principais características para liderar e empreender: iniciativa. Natural de Alegrete, aos 14 anos mudou-se para Mato Grosso com os pais, que eram fazendeiros, sem imaginar que em Cuiabá encontraria as primeiras oportunidades para traçar uma carreira como empreendedora, investidora e executiva. A origem dessa história foi com o digital, mas a paixão pelo jornalismo, ela assegura, é ainda maior.
Na década de 1990, prestes a completar 15 anos, foi questionada pelo pai sobre o que gostaria para o aniversário. As opções eram uma festa, uma viagem ou, desde que esperasse até completar 18, um carro. A escolha, no entanto, foi diferente de todas essas: um computador, equipamento que já revolucionava processos pelo mundo. A máquina veio dos Estados Unidos junto com um scanner e uma impressora preto e branco. Ali, em 1994, começava a se desenhar a trajetória de Andiara no mundo digital.
A internet ainda engatinhava no Brasil, mas ela logo descobriu que o computador poderia servir a muitos fins - e um deles era a editoração. Foi assim que criou um jornal em formato tabloide para o colégio em que estudava, em Cuiabá, para o qual produzia o conteúdo e diagramava. Com apoio e investimento da instituição de ensino, a publicação cresceu e, logo, se tornou uma revista em quatro cores.
O mundo novo
Com a abertura da internet, a jovem já trabalhava para agências de publicidade, fazendo a finalização de artes, tinha o seu jornal na escola, conquistava o próprio dinheiro e acumulava um conhecimento com a máquina que poucos tinham. "Estava em comunicação, flertando entre a publicidade e o jornalismo, que mal sabia na época que eram coisas diferentes. E com a internet, um mundo novo que se abria", pontua.
Como a experiência já indicava a vocação, Comunicação Social foi a graduação escolhida no vestibular, prestado para a Ufrgs e a PUC do Rio de Janeiro. Decidiu pela última, cujo curso já era todo informatizado, e partiu para o Rio de Janeiro, onde encontrou a vantagem de ser uma das poucas alunas que sabia lidar com o computador. Vivendo sozinha em uma nova cidade, não encontrou dificuldades no mercado de trabalho. Em 1997, começou a trabalhar no Cadê, um dos primeiros buscadores de internet do País. "O Cadê não tinha um desafio, ele não tinha o que buscar, porque não havia conteúdo na época", lembra. Lá, ajudou a criar a primeira revista digital brasileira, chamada Aqui, para a qual produzia conteúdo jornalístico.
O desenvolvimento tecnológico no País fomentou o mercado de Jornalismo e também estimulou Andiara a empreender em diversas startups. Uma delas, lembra com carinho, chamava-se Wideo e tinha proposta muito semelhante à oferecida hoje pelo YouTube. O projeto, entretanto, encontrou dificuldades para se popularizar. "Naquela época, não tinha nem webcam, as pessoas nem filmavam ainda. Mas eu sonhava com o dia em que conseguiria juntar cinema, que é uma paixão, com internet e passei anos buscando isso", conta.
TV, jornal, digital
Com a venda do Cadê para a Starmedia, Andiara foi para a TV Globo, onde trabalhou com jornalismo e digital. Nessa época, começou o Mestrado em Comunicação Social na PUC-RJ e, em seguida, ganhou uma bolsa de estudos para a Brown University. Em território norte-americano, após a bolha de internet, em 2004, o mercado digital voltava a se aquecer, alimentando os planos para a volta ao Brasil. Encantada pela ideia de trabalhar com público feminino, encontrou um nicho ainda inexplorado no mercado brasileiro. "Pensei: é isso que quero fazer, quero construir a maior empresa de jornalismo para mulheres do Brasil, e vai ser puramente digital."
Com essa ambição, fundou em 2005 o portal Bolsa de Mulher, que em pouco tempo evoluiu para uma holding, com 12 empresas e foco na América Latina, presente em países como Colômbia, México e Venezuela. "Começamos com quatro pessoas. A gente escrevia, subia a matéria e ia lá vender na agência. Ainda não se falava assim, mas era jornalismo sem ?mimimi?. Sem ser bolsa, cabelo e maquiagem. Ali, eu realmente experimentei o empreendedorismo", declara.
A aproximação com o Grupo RBS aconteceu em 2011, após a venda do Bolsa de Mulher para um grupo norte-americano. Foi quando conheceu o presidente da organização, Eduardo Sirotsky Melzer, que então estruturava a e.Bricks, empresa de investimento em digital do grupo, e a convidou para integrar o projeto. "Meu trabalho era de estratégia, era garantir que a gente estava investindo nos setores certos, e acompanhar os empreendedores no desenvolvimento de suas companhias", relata. Ainda ocupou por cerca de um ano o posto de CEO da Predicta, empresa de alta tecnologia em publicidade e mídia programática, antes de assumir a área de Jornais do Grupo RBS. O principal objetivo, ela explica: "Focar no que a gente faz de melhor, que é conteúdo, e garantir que se adapte isso ao digital da melhor forma".
E o novo cargo trouxe também o desafio de trabalhar com mídia tradicional, pois, mesmo na passagem pela Globo, sua atividade se concentrava na convergência de mídias. "Tinha muita dúvida se ia conseguir trabalhar com isso, mas o mais legal é que jornal é só a plataforma, o meio, e o que importa é o conteúdo e como a gente distribui esse conteúdo. No desafio do digital, o jornal talvez seja o meio mais pressionado para mudar e isso é algo que posso ajudar", analisa.
De volta ao Sul
Do tempo de criança em Alegrete, no Oeste gaúcho, à ida da família para Mato Grosso, Andiara se define como a típica menina da fazenda. Na mudança de estado, enquanto os pais viviam na fazenda, ela morava em Cuiabá, onde cursava o segundo grau escolar. A distância da família levou à independência bastante cedo e também coincidiu com as primeiras descobertas profissionais, um tempo sobre o qual se mostra agradecida pelo apoio recebido. "Tive bons investidores ao longo da vida. Em uma época, coloquei na cabeça que queria ser cineasta. O colégio pagava câmera, edição e a gente colocava em festival de cinema. Meus vídeos, de menina de 15 anos, iam para festivais", recorda, ainda admirada.
Andiara é a primogênita de Marta e Izan Petterle, família que se completa com o irmão Diego, hoje advogado, que vive no Rio de Janeiro. O pai, aos 40 anos, decidiu mudar o rumo da vida de fazendeiro e se dedicar à fotografia. "Ele é tão dedicado e competente que virou rapidamente um dos melhores fotógrafos brasileiros", diz, orgulhosa.
Há um ano, está casada com Guilherme Camargo, economista e investidor, a quem conheceu durante um evento em São Paulo. Ela participava como palestrante, ele como mestre de cerimônia, quando uma amiga em comum logo constatou um potencial casal e tratou de aproximá-los. Do relacionamento, nasceu Olívia. "Ela é muito esperta e já adora jornalismo", comenta, antes de mostrar em vídeo que a pequena assiste concentrada ao telejornal.
E a volta ao Rio Grande do Sul também favorece a filha, que nasceu em São Paulo e agora cresce mais próximo da família, em contato com a bisavó, tios e primos. "Adoro São Paulo, mas a nossa família estava longe - a do Guilherme está em Minas. Ter essa estrutura familiar é importante." Em casa, Andiara é bastante caseira. Adoradora da arte de cozinhar, é nos fins de semana que estreia as receitas, recebe amigos e família. "Nossos fins de semana são em torno de familiares e comilança", resume.
Outro gosto especial está nos estudos, o que a faz afirmar que, se não tivesse escolhido empreender, estaria certamente em uma sala de aula. "Quando retornei dos Estados Unidos, pensei: será que faço Doutorado ou abro empresa? Acabei abrindo uma empresa. Mas ainda planos sinceros de fazer Doutorado, for fun, vou ter um prazer enorme."
As preferências
"Gosto de temas absolutamente inúteis", brinca, em referência às leituras que não requerem aplicações práticas. Antropologia e estudos etnográficos são algumas temáticas preferidas para os estudos. Enquanto alguns utilizam o exercício físico para abstrair, essa foi a forma que encontrou para descansar a mente. "Se eu puder ter um exercício intelectual, descanso totalmente", afirma, ao revelar o interesse pela linha estruturalista e pela obra de Michel Foucault. A filosofia da linguagem também é uma paixão quando se trata de leituras.
Apreciadora do cinema, conta que, quando o casal morava em São Paulo, era uma meta assistir a todos os filmes em cartaz e também às peças de teatro - segmento este que, assume, agrada mais ao marido. "Íamos a tudo, ratos de cinema e teatro", simplifica. Ainda que se declare não ser uma grande consumidora de música, frequentando poucos shows, gosta bastante de música clássica.
Com vivências em diversos estados brasileiros e ainda temporadas no Canadá e nos Estados Unidos, Andiara valoriza o aprendizado proporcionado pelas viagens. Acredita que assim pode conhecer outras culturas, pessoas e valores. "Viagem te dá repertório estético e ético, te dá capacidade de experimentar melhor o teu mundo e contribuir com ele. Ampliar a perspectiva é a coisa mais importante para qualquer ser humano e viajar te entrega isso", avalia. E acrescenta: "Quero dar isso para a Olívia como meus pais me deram".
Para absorver e compartilhar
Como na Antropologia, defende a importância de olhar as pessoas e os povos como são, eximindo-se de conceitos próprios, e crê que tem na empatia uma qualidade que carrega. "Realmente consigo me colocar no lugar das pessoas. Isso te faz ser flexível na medida que tem que ser", explica. Ainda assim, reconhece que, por vezes, é exigente demais consigo mesma e com as pessoas. "Parecem coisas antagônicas (qualidade e defeito), mas, às vezes, perco a mão e sou dura demais."
Com 36 anos, ao falar sobre o futuro, Andiara diz que ainda pretende voltar a estudar, fazer Doutorado e, quem sabe, quando estiver perto de se aposentar, voltar à sala de aula como professora. "Muita gente fez a diferença na minha vida quando eu estava na sala de aula. Lembro de todos os professores que tive, são pessoas muito importantes pra mim", ressalta. Construir um legado que tenha importância, seja para quem está do lado ou mais distante, é um objetivo, quase uma missão. "Tu só é relevante quando faz coisas relevantes para outras pessoas", reflete. No campo pessoal, os planos são modestos. "Tenho uma família que está começando, muita viagem pra fazer, muito livro pra ler e comida para se alimentar", brinca.

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