Andrei Rossetto: Surfando na onda do Jornalismo

Ele é um repórter dedicado e um surfista apaixonado, que mescla a missão de ser jornalista com o prazer de estar no mar

Andrei Rossetto - Divulgação

A voz é característica de quem atua em televisão. Quando começa a falar, com dicção e postura perfeitas, é fácil dizer que Andrei Rossetto nasceu para estar na telinha. Recém-chegado à academia - começou a lecionar em agosto de 2018 na ESPM-Sul - também mostra que é um professor nato, pois ensinar, segundo ele, é uma satisfação. Com duas décadas de experiência, assegura que largar a reportagem está fora de cogitação, pois acredita piamente que a prática é essencial na sala de aula.

O desejo de ser jornalista surgiu ainda na adolescência, quando descobriu com uma ex-colega de Inglês que jornalista poderia escrever sobre cinema, arte da qual é grande admirador. Acabou que nunca escreveu nenhuma resenha sequer sobre a sétima arte. "Todas as situações me levaram para a TV", conta, ao mencionar que, mesmo assim, sente-se realizado por conseguir lidar com a linguagem audiovisual. Formado pela Ulbra, de Canoas, sua primeira experiência foi no Telecentro da instituição de ensino, e da TV nunca mais saiu. Foi lá que teve o primeiro contato com quem chama de 'inspiração': Luiz Artur Ferraretto foi seu mestre e quem o incentivou a investir na área acadêmica.

A cerimônia e o diploma foram seus presentes de aniversário, pois a colação de grau - veja só - foi realizada justamente em 13 de agosto de 1999, 24 anos depois do seu nascimento. Curiosamente, a solenidade caiu em uma sexta-feira (13), mas isso não foi motivo de azar. Muito pelo contrário. Foi, inclusive, orador da turma e até ganhou um 'Parabéns' entre um discurso e outro. 

Uma cara nova

Seu primeiro emprego no mercado de Comunicação foi na RBS TV, ao ser selecionado no antigo programa Caras Novas. "Tenho um carinho especial pela emissora, pois foi o que me deu a base de início de carreira", relembra, ao citar que, durante o período de três meses, passou pela produção e edição, teve palestras com profissionais da empresa, como Raul Costa Júnior e Alice Urbim, por exemplo, e acompanhava repórteres experientes e montagem de espelhos de telejornais.

A experiência lhe rendeu um contrato temporário de seis meses para cobrir férias de profissionais na praça de Pelotas. Quando voltou para a Capital, virou editor de finalização e, depois, foi chamado pelo então editor de Esportes Flávio Dutra para trabalhar na produção. "Fiz muita coisa em pouco tempo", analisa. Deixou a empresa ao ser aprovado em um concurso para a TVE, na qual ficou pelos cinco anos e meio seguintes, também como repórter. Lembra que aquela foi outra experiência rica em conhecimento, onde, acredita, consolidou mais ainda sua história profissional.

Sua relação com a emissora pública findou quando veio o convite de Marcos Martinelli para trabalhar na Record TV RS, recém-instalada no Rio Grande do Sul pela compra da antiga TV Guaíba. Como pensava que a carreira não iria mais avançar na TVE, o chamado veio em um bom momento e pediu sua exoneração do Estado. Dois anos foram o suficiente para aprender mais e ter a certeza de que estava trilhando o caminho certo. Até que abriu uma vaga de repórter de rede no SBT RS. "Soube do processo seletivo, mandei meu material para São Paulo e me chamaram. Vai fazer 10 anos agora em maio próximo", contabiliza, lembrando que se preparou para a oportunidade.

À emissora de Sílvio Santos, é todo elogios: "É a melhor empresa em termos de contexto que eu já trabalhei". E logo avisa que não é porque está lá, mas por se sentir à vontade para contribuir e, especialmente, ser acolhido pelos gestores e diretores. Menciona, ainda, oportunidades que lhe foram dadas, como um MBA em Jornalismo com ênfase em Gestão de Novas Mídias e um mestrado, além de cursos e seminários. "É um lugar onde posso externar o que penso e isso é muito importante. Aqui, nos sentimos parte de um todo."

Prática e teoria

Além de inspiração, Ferraretto foi seu mentor. A relação, que se iniciou lá na época da Ulbra, segue firme e forte, tanto é que a tese de mestrado de Andrei teve sua orientação. "Foi ele que plantou aquela semente e me fez investir e planejar a carreira acadêmica", diz, ao adiantar que já planeja um doutorado. O professor, por sua vez, sente-se lisonjeado por ser lembrado com carinho pelo jornalista. "Na época de estudante, Andrei já era essa pessoa dedicada que é hoje. Correto e preocupado com a profissão. É um dos profissionais mais humildes que eu conheço. Sinto-me gratificado e tenho a sensação de estar passando o bastão adiante", avalia Ferraretto, notavelmente admirado.

Somado ao incentivo do mestre, Andrei teve exemplos na família. A mãe, Lenita, já falecida, era professora no Estado, assim como a madrinha e uma tia, em Santa Catarina. Para ele, ser docente lhe abriu um leque de possibilidades para poder criar em sala de aula e transmitir seus conhecimentos aos jovens. "Se eu conseguir engajar uma parte da turma, já é o suficiente", vibra, e acrescenta que busca transmitir o máximo do que entende como o bom Jornalismo. "Sou um produtor da realidade cotidiana e trabalho para que a sociedade seja mais livre. Sou ciente de que não estou aqui para mudar o mundo, mas ajudo a engrossar o caldo."

Com 20 anos de carreira, nunca pensou em deixar a função de repórter para assumir a bancada e define essa escolha pelo simples fato de "gostar de gente". "O trabalho do repórter é fascinante, pois quem conta as histórias é quem está na rua, gastando sola de sapato", afirma, ao listar algumas situações as quais cobriu, como as tragédias da Boate Kiss, em Santa Maria, e da Chapecoense, na Colômbia, além das manifestações de Julho, em 2013, em Porto Alegre, e o julgamento do ex-presidente Lula e seus desdobramentos.

Já foi convidado para ir para o SBT em São Paulo em duas oportunidades; no entanto, em ambas, fatores externos não permitiram a mudança. A primeira foi em 2010, quando ficou um mês por lá cobrindo férias. "Não pude ficar porque estava de casamento marcado", recorda, ao se referir ao primeiro matrimônio. Três anos depois, em 2013, veio a segunda chance, porém, estava iniciando o MBA na ESPM-Sul e estava começando outro relacionamento, com a atual esposa, a também jornalista Patrícia Trevisan, com quem é casado há quase dois anos. Das escolhas não se arrepende, pois entende que é possível fazer o bom Jornalismo na praça gaúcha com toda sua estrutura.

Andrei e o mar

Na juventude, chegou a cogitar ser surfista profissional. Bodyboarder - um tipo de surfe - desde os 13 anos de idade, encontra no mar sua terapia. Confessa, entretanto, que, hoje, pratica menos do que gostaria, devido à falta de tempo, mas a prancha nunca deixou de ser sua companheira de vida. Sempre acompanha notícias, compra materiais, incentiva a prática e se diz um verdadeiro ativista e entusiasta do esporte. "O contato com o mar é único, porque aquele momento é tu e a água. E só", relata e continua: "A melhor coisa é quando o mar está bom, quando tem onda e está clássico. A energia é vibrante. Só quem surfa, quem está lá dentro sentado na prancha sabe". O fato de os sogros morarem na praia de Imbé ajuda bastante a manter a tradição.

Chegou a jogar basquete e fez Krav Maga (defesa pessoal), mas parou em função das lesões. Atualmente, além do surfe, faz treinamento funcional ao menos três vezes por semana na academia. O irmão mais velho de Diogo aproveita os poucos momentos de folga para ler e, sem pestanejar, lista uma série de obras. Tem preferência por livros de histórias e, em razão da profissão, tem na cabeceira títulos técnicos sobre jornalismo e gestão. 'Brasil, uma Biografia', 'Coronelismo, enxada e voto', 'A construção da notícia' e 'A apuração da notícia' são alguns deles.

Periódicos e revistas também fazem parte do seu repertório. Sua rotina diária começa com a leitura de diversos jornais locais, nacionais e internacionais para se atualizar. O cinema - aquele que o fez escolher o curso de Jornalismo - segue fazendo parte de sua vida. Como tem sido comum ultimamente, trocou a ida às grandes salas para assistir a filmes, séries e documentários em casa, sob demanda. Denomina-se eclético e garante gostar de tudo, desde drama até comédia. "Filme bom é comigo mesmo", avisa, mas, se for para citar um preferido, este é 'Apocalipse Now', além da série 'O Demolidor'.

No quesito música, segue a mesma linha, "mas tudo tem um limite", brinca, ao afirmar que não escuta sertanejo. Bandas de rock como Iron Maden, Black Sabath, Beatles, Rolling Stones e Ramones estão na sua playlist, assim como Bob Marley, Jack Johnson e Donovan Frankenheiten, como todo surfista. Tem, também, um lado punk rock e gosta de NoFx e MxPx.

Assegura que não vê o menor problema em revelar seu time do coração, pois, "antes de ser gremista, sou profissional. Por isso, busco a lisura total. Tanto é que acho que as minhas melhores reportagens de esporte foram do Internacional", informa. Embora não se considere fanático, o Grêmio faz parte da sua vida e, inclusive, carrega consigo a carteira de sócio do clube, do qual se tornou membro em 2010.

Pela distância da Arena - ele mora no bairro Tristeza, na Zona Sul de Porto Alegre -, acompanha as partidas do Tricolor com um grupo de amigos, intitulado Gremismo. A farra é sempre regada a churrasco, que, aliás, é sua especialidade no que se refere à culinária. Assado de tiras é seu preferido, que também pode ser um vazio. É, também, apreciador de vinhos, mas não se considera um 'enochato', e, aos finais de semana, degusta cervejas artesanais e espumantes.

Pitada de sorte

Os momentos em casa são divididos com Patrícia, a quem conheceu no SBT RS, quando ela era produtora e, depois, editora de texto da rede. Como ela é jornalista, Andrei conta que a amada entende as características da profissão, mas o casal tem que se policiar para não falar muito sobre a função em casa. "Ela é um dos meus tripés e me aguenta, o que não é uma tarefa fácil. É uma pessoa culta e ligada ao mesmo propósito que eu", declara-se.

A dupla não tem filhos, porém a ideia não está descartada. Enquanto isso, compartilham a casa com quatro gatos: Otto, Brigite, Margot e Benjamin. Um deles foi resgatado por Andrei em São José dos Ausentes durante uma pauta. "Peguei ele filhote, em um terreno baldio. Levei para o hotel, depois esperou no carro enquanto a gente trabalhava e o trouxe comigo", lembra.

É de família católica, mas não vai à igreja. Por outro lado, há anos, passou a frequentar centros espíritas, doutrina que preza muito e que tem como âncora. Crê em energias e entende que é necessário estar sempre em harmonia, por isso, faz terapias holísticas. "Nosso trabalho não é fácil. A redação, muitas vezes, é um lugar pesado, especialmente para quem trabalha na TV. Tem muita carga de inveja", acredita o filho de Juarez, também falecido.

Considera-se, acima de tudo, uma pessoa engajada no que faz e muito determinado. "Quando traço uma missão, baixo a cabeça e sigo adiante para conseguir. Se não der, OK, mas, ao menos, sei que tentei", pontua. Para equilibrar a vida, busca levar como lema a frase do escritor norte-americano William Faulkner, que diz: "Para ter sucesso, é preciso ter 99% de talento, 99% de vontade e 99% de trabalho". "Somo tudo isso, ainda, a uma pitada de sorte. É no que acredito."

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