Beatriz Lopes: Uma trajetória e tanto

Com vasta experiência em redação, ela destaca os 17 anos dedicados à Zero Hora e o tempo que destinou à comunicação pública como assessora

Bia Lopes - Divulgação/Coletiva.net

Beatriz Lopes se denomina uma operária do Jornalismo e sustenta que é uma profissional 'mediana'. Pode soar estranho, mas ela logo explica: "Mediana não é medíocre". Com voz calma e jeito tranquilo, conta, divertida, sobre sua vasta trajetória no Jornalismo, desde o início, quando, em 1974, deixou uma vaga de emprego para ser estagiária na redação de Zero Hora. "Era o que eu mais queria", declara.

Foram 17 anos dedicados ao jornal do Grupo RBS, tempo suficiente para vivenciar transformações tecnológicas e transitar por diversas editorias, sem comentar que começou a carreira em plena ditadura militar. "Entrei na efervescência dos anos 1970. Tinha censura e autocensura, além de jogo de corpo para saber o que dava para vender nas entrelinhas. Ah, claro, e muita resistência das redações, que eram bem fortes naquela época", explica.

Formou-se em 74, na última turma com diploma polivalente - Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas - da Famecos. E quando teve que escolher o curso para prestar vestibular, confessa que, inicialmente, optou pela graduação por achar que queria seguir na Publicidade. "Pensava que não levava jeito para o Jornalismo, porque era muito tímida." Porém, mudou de ideia no segundo ano de curso, pois percebeu que sua praia era mesmo o Jornalismo.

Cheia de experiências

Aos 71 anos de idade, está aposentada, e acha que, dessa vez, vai realmente dar um tempo para a comunicação, pois pretende descansar e viver mais tranquilamente. "Cheguei a uma idade em que preciso pensar em que tempo tenho e para fazer o quê", define. Algumas foram as tentativas de parar de vez, mas, logo que se aposentou, recebeu um convite um tanto quanto irrecusável, para fazer parte de um projeto inovador no mercado gaúcho. Assim, tornou-se a primeira editora do portal de notícias Coletiva.net, que surgia no setor sob o comando de José Antonio Vieira da Cunha, José Luis Fuscaldo e Luiz Fernando Moraes. "Para mim, era uma grande novidade, principalmente por ser no ambiente online", lembra.

A experiência, que durou cerca de dois anos, marcou a vida da jornalista, que recorda com carinho de alguns episódios, como em uma noite de sexta-feira, dia de baixar a edição semanal do então Guia da Imprensa - precursor do portal de notícias. "Apertei uma tecla errada e deletei o conteúdo de toda aquela semana. Tive que refazer tudo. Eu suava de desespero, os dedos caíam do teclado. Finalizei perto das 23h e o Marcelo ficou lá, me acalmando e ajudando", relata, mencionando o colega Marcelo Oliveira, que era o responsável pela web na época.

A passagem pelo portal de notícias sucedeu sua trajetória na comunicação pública, quando atuou como chefe de redação em três gestões seguidas do governo do Rio Grande do Sul - Pedro Simon, Alceu Collares e Antonio Britto. A prática, além de agregar no que tange ao lado profissional, foi um grande aprendizado também para o lado pessoal. "Sempre fui mais fechada e individualista, e, lá, tive que coordenar uma equipe de umas 60 pessoas, o que exigia mais de mim. Isso mostra que a gente vive aprendendo", analisa.

Mais tarde, trabalhou, ainda, no governo Yeda Crusius, quando, mais uma vez, quis parar. O motivo foi a descoberta de um câncer de mama. Mesmo não sendo grave, pois teve o diagnóstico precoce, e, consequentemente, conseguiu tratar, resolveu olhar para si e se cuidar. "É impossível ter um câncer e não repensar a vida", sentencia. No entanto, alguns anos depois, recebeu outra oferta, também irrecusável, de uma amiga por quem tem muito apreço. Eliane Brum a chamou para ajudar na produção de sua carreira, com agendamento de viagens, palestras, livros, etc. "Fiz de tudo um pouco", comenta, explicando que a amizade começou ainda nos tempos de ZH, quando ela era veterana e, Eliane, foca.

Boas lembranças

As quase duas décadas que dedicou à Zero Hora são lembradas com estima e precisão. Lá, ao longo deste período, foi repórter e redatora, começando pela Geral, passando pelo que era Variedades, e que virou o Segundo Caderno, e pela Pesquisa. "Foi onde eu realmente fui redatora e tive a oportunidade de escrever", afirma. Ainda, trabalhou na antiga Central do Interior, contribuindo, também, para o extinto jornal vespertino Hoje.

Um brilho no olhar surge quando lembra os tempos em que ficou na Pesquisa. Foi quando engravidou do segundo filho, Vinícius, hoje com 38 anos. "Eles [a empresa] achavam que estavam me escanteando, mas eu adorava e tive a oportunidade de criar meus filhos com muito mais facilidade do que se estivesse na reportagem", declara, lembrando que dividia o setor com João Aveline, a quem chama carinhosamente, de Velho Aveline. "Ele dizia que a gente estava lá para não incomodar, pois eu estava barriguda e ele era comunista. Aprendi muito com ele, que tinha lições de jornalismo e de vida incríveis", diverte-se ao recordar dos saudosos seis anos dedicados ao serviço.   

Voltou para a reportagem em uma editoria que lhe deu muito prazer em trabalhar, a de Ensino. Foi, de certa forma, um retorno às origens, visto que sua formação inicial foi no Magistério. "Tenho muito apreço por essa área e conheci muita gente, principalmente a academia." Mais adiante, também pôde atuar mais de perto com isso, quando, no governo Rigotto, trabalhou na Comunicação da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), por pouco mais de dois anos.

Outra boa lembrança é do ex-marido, que conheceu quando estava no jornal. Renato Pinto da Silva também era jornalista e, como relembra, um excelente repórter, tendo ocupado cargo de correspondente em diversas sucursais no Rio Grande do Sul. Embora fosse apenas quatro anos mais velho que ela, confessa que foi a experiência que a atraiu. "Eu era foca e ele já era reconhecido no mercado, estava na Folha da Manhã", revela. O casamento aconteceu quando o caçula do casal já estava com nove anos e, conforme conta, foi sem cerimônia, apenas a assinatura da certidão no cartório. Mais tarde, separaram-se, mas seguiram em contato, por isso brinca que não sabe se é viúva, pois ele faleceu em 2015.

Mesmo com tantas recordações, revela que, até hoje, arrepia-se ao passar em frente ao prédio da RBS, na Avenida Ipiranga, aos domingos. "Churrasco de família eu só conseguia comer o salsichão. Quando chegava a carne, já tinha saído para a redação", conta, aos risos, sobre a época de repórter.

Um sonho ambicioso

Feminista assumida, orgulha-se do que que considera um sonho ambicioso. Quando estava grávida da primeira filha, Mariana, atualmente com 40 anos, uniu-se a um grupo de jornalistas mulheres, todas com o mesmo objetivo: ter um lugar para deixar as crianças enquanto trabalhavam. Assim, surgiu a Associação dos Amigos da Pé de Pilão, uma creche que teve a entidade como mantenedora por alguns anos. Na primeira assembleia, ela foi eleita presidente, tendo como vice Eliete Cheuiche Vieira da Cunha, além de outros nomes na diretoria, como Rosvita Saueressig, Julieta Nunes, Nelcira Nascimento e Rita Daudt, entre outras.

Alegra-se ao falar que a associação se manteve por um tempo e, inclusive, angariou fundos para comprar um prédio próprio para instalar a creche. "Olha o sonho maluco que a gente teve", espanta-se ao perceber a ideia. A proposta era ter um espaço para receber filhos de jornalistas com horário elástico de atendimento. Depois, acrescenta que os maridos das jornalistas se uniram à causa que até advogado tinha para cuidar das questões legais e dos estatutos. 

Preenchendo a vida

Estar aposentada para Bia não é sinônimo de estar parada. Animada, diz que preenche a vida com diversas atividades, como pilates, cinema e encontro com amigos. Independente, autônoma e muito ativa, a porto-alegrense vive à base de café e não dispensa um bom papo e uma ótima leitura. A sala de casa, aliás, é uma minibiblioteca, repleta de obras. "Estou, também, aproveitando esse momento para organizar isso, pois quero doar alguns livros", revela.

A prateleira, contudo, não abriga um objeto tradicional nas salas de estar das casas: a televisão. O aparelho está no quarto de Bia, que confessa, porém, não assistir à TV aberta, dando preferência a filmes e séries. Além disso, apenas três canais fechados detêm sua atenção, Arte 1, Canal Brasil e Telecine Cult, pois se diz fiel aos programas culturais. Para se informar, tem a internet, por meio da qual lê sites de jornais internacionais e é categórica: "Sem essa de ver notícia no Facebook".

É ateia declarada, embora tenha sido batizada na Igreja Católica e toda sua família seja religiosa. O que a fez mudar foi que, "ao longo da vida, fui vendo que é muito difícil acreditar em Deus nesse mundo". Chegou a buscar respostas no Espiritismo e frequentou centros espíritas, mas não seguiu a doutrina. "À medida que fui me alertando politicamente, foi ficando cada vez mais complicado pensar em religião", elucida.

Dos filhos, fala com um orgulho que quase não cabe no peito. Mariana seguiu os passos da mãe e é docente na Uergs. Não de Jornalismo, e sim, de Artes Visuais. "É uma professora de mão cheia. Nasceu para isso", derrete-se. Já Vinicius, passou no vestibular para Comunicação na PUC, mas optou pela Educação Física na Ufrgs. Hoje, é preparador físico de um time de futebol na China.

Bia conta que a paixão do filho pelo esporte não veio da família, pois o pai, mesmo gremista, não frequentava jogos, e ela pouco entende. "Nunca tive um time. Torço em Copa do Mundo, mas só sei a diferença de equipe porque tem camiseta de cor distinta", confessa. Com a carreira de Vinicius, que foi influenciado por um ex-vizinho colorado que o levava ao Beira-Rio, até lê notícias esportivas no jornal, apenas para buscar informações sobre ele, caso seja fonte em alguma matéria.

Todos estes anos de Jornalismo e de reconhecimento na área não fizeram de Bia Lopes uma pessoa vaidosa e iludida com a profissão. Pelo contrário, entende que é uma carreira difícil e competitiva, porem, diz-se muito grata a tudo que viveu, mesmo com todos os conselhos que lhe deram para não seguir na área. "Fui muito feliz na escolha, pois tive uma profissão que me deu satisfação. Não é da boca para fora. Não sou uma celebridade, mas me realizei. Lutei bastante. Não fiquei rica, mas não tenho problema para dormir."

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