Carlos Saul Ritta Duque: Gosto pela experimentação

Ele decidiu-se pela Publicidade depois de experimentar Arquitetura e Educação Física. Curioso, procura saber de tudo um pouco. É como se sente seguro para tocar a Criação da Dez.

Um publicitário "rapa de tacho" é o que Carlos Saul Ritta Duque diz ser. "Só fui me decidir pela publicidade lá pelos vinte e tantos anos", explica. Tarde ou não, tudo indica que a escolha foi certa. Hoje, aos 43 anos, ele é um dos sócios e diretor de Criação da Dez Propaganda. Nascido em 5 de agosto de 1962 em Porto Alegre, filho do professor Carlos e da contabilista Zorca e irmão de Letícia e Luiz Guilherme, Saul conta que veio de uma família de imigrantes. "Meu pai é catarinense, minha mãe é de Bagé, meu avô do Uruguai e minha avó da Argentina, sou um bugre puro", diz ele.


Da infância que define como privilegiada, recorda as brincadeiras de rua e os jogos de futebol nos campinhos da praça em frente à casa onde morava, no Bairro Cristal. "Andava de bicicleta, jogava bola e até pescava no Rio Guaíba, embora eu só tenha 43 anos, não tenho mais que isso", garante. Destaca ainda a boa educação que recebeu: "Convivi com gente de tudo que é lugar e classe social, tive uma educação muito humanitária, que me garantiu uma noção muito boa de justiça".Também ficaram na memória do publicitário a casa com pátio, o cachorro e as doenças de criança. "Tive todas, catapora, sarampo, cachumba?", recorda.


Escolhendo a profissão


O caminho profissional de Saul começou na Arquitetura. Depois de dois anos no curso, percebeu que não era aquilo que queria quando começaram as disciplinas com cálculos matemáticos. "Optei então pela Educação Física, mas quando estava quase me formando ingressei na Comunicação para acalmar meus pais, que achavam que eu ia morrer de fome", conta. Depois de concluir o curso de Educação Física, ele decidiu se aventurar pela Europa. "Tranquei a faculdade de Comunicação na UFRGS, vendi o pouco que tinha e fui para Londres. Fiz o que eu acho que todo mundo deveria fazer: dormi em convés de navio, lavei prato e fiz carreira na Pizza Hut. Cheguei a assistente de chefe de cozinha", conta ele.


Depois de um ano, voltou ao Brasil e retomou o curso de Comunicação. O primeiro estágio foi na agência Publivar. "Foi lá que conheci meu grande mestre, o Ricardo Lima, que me deu as primeiras letras na comunicação", revela. Também passou pela TV, foi redator e produtor do programa do Clóvis Duarte, uma experiência que define como um "aprendizado maravilhoso". Passou por grandes agências como Escala, Símbolo, Centro, Escala de novo. "Acho que fiz uma boa figura porque sempre me recontratavam", constata.


Na Agência Centro ele conheceu Mauro Dorfman, atualmente um de seus sócios. "Ele é minha alma gêmea profissional", revela. Trabalharam juntos na Escala e se separaram quando Mauro decidiu, com outros publicitários, formar a Dez Propaganda. "Perdi meu parceiro de criação e outros dois colegas, o Vitor Knijnik e o Paulo Guerchfeld, que foram montar um projeto do qual eu gostaria de fazer parte, mas não havia lugar para mais um. Isso me deprimiu muito", confessa. Mas a vida dá voltas e um ano depois Saul deu o que se chama de "o pulo do gato". Veio o convite para a Direção de Criação da Dez e, embora ele se diga indeciso, desta vez sabia muito bem o que queria. "Foi a retomada de uma frustração. Pedi garantia de uma ascensão rápida para ser um dos sócios, porque já havia cansado de bater perna, e um ano depois estava na sociedade", explica.


Pé na estrada


Como todo mundo que trabalha muito, férias são sempre uma expectativa. Para Saul, a expectativa pode ser considerada ainda maior, levando em consideração que ele sempre aproveita a folga para embarcar em viagens com "destinos malucos". "Sempre que posso estou com o pé na estrada. Em janeiro, embarco numa maluquice que passará por Bogotá, Caracas, Quito e República Dominicana. Procuro encontrar um cheiro diferente nas viagens, mesmo que o destino seja tradicional. Se vou para a França, procuro um lugar diferente no interior do país, por exemplo", explica. Um passeio que vai dividir, é claro, com a noiva. Há dois anos e meio ele mora com a ex-publicitária e estudante de design de moda Greice Antes. "Fui casado duas vezes e sou noivo até data não definida", diz entre risos. Mas garante que o casamento e filhos estão nos planos do casal, além de, em médio prazo, voltar a morar em uma casa.


Dos países que visita traz também idéias culinárias. O publicitário conta que quando criança só comia bife, arroz, feijão, batata frita e queijo derretido. A curiosidade pela variedade gastronômica surgiu durante sua estada em Londres. "Na Pizza Hut recebíamos cargas de alimentos frescos como tomates e frutas das Canárias, molhos da Espanha, especiarias gregas, era uma festa para os olhos. Tinha colega Srilanka, italiano, espanhol, paquistanês, sul-africano, então, ao invés de comer pizza, cada um preparava um prato diferente. Era uma mistura de línguas e sabores, engordei dez quilos enquanto trabalhei lá", revela.


A partir daí Saul se arriscou a preparar alguns pratos e o primeiro, recorda ele, foi camarão com milho verde e brigadeiro de sobremesa. "Acho que os livros de culinária são muito bonitos. Gosto de tropicalizar as receitas, trocar ingredientes, misturar. Dizem que cozinho bem, mas acho que cozinho menos do que acham, engano bem". Revela que gosta de saborear bons frutos do mar, vinho e pizza, e se sente frustrado por não suportar comer mondongo. "Meu pai adora, manda buscar mondongo todo o sábado, mas eu não consigo nem sentir o cheiro", diz ele.


Nos fins de semana, Saul aproveita para cuidar das plantas que mantém em seu apartamento. Anda de bicicleta, vai ao cinema, mas foge de "filmes burros", como diz. "Gosto de filmes que saem do lugar-comum, filmes inteligentes e com qualidade". Também é fã de música brasileira: "Gosto de toda música boa, mas consumo muita música brasileira, furungo coisas antigas da MPB, Elizete Cardoso, Jair Rodrigues, Jorge Ben. Também tenho discos maravilhosos de cantoras da década de 50 e 60 como Hebe Camargo e Maísa". Outro investimento do publicitário são os livros. "Compro muito livro e leio sempre que posso. Agora estou lendo Complô contra a América, do escritor judeu Philip Roth. "Sou muito fã dele", conta, mostrando o livro que estava em sua pasta. Outra paixão é pelo Internacional, time do coração. "Dizem que sou um colorado doente, mas me considero um colorado amoroso. Sou sócio, vou ao estádio, tenho box para o meu carro e compro as camisas para guardar", sorri entusiasmado.


Trabalho reconhecido


Para Saul, só se chega ao sucesso trabalhando, não existe fórmula. "O jeito é tentar e tentar, e se por algum momento tu sentires que aquilo que tu estás fazendo não vai te dar satisfação nem dinheiro, dá uma guinada de 90 graus e vai pra outro lado porque a vida é muito curta para ficar com os dois pés fincados em uma coisa que não te dá nem dinheiro nem satisfação", recomenda, com a segurança de quem se diz indeciso e influenciável. "Minha filosofia de vida muda muito. Gosto da experimentação. O Ruy Carlos Ostermann disse que o autodidata descobre a América todos os dias. Tento ouvir a experiência dos outros para não ter que descobrir a América, já que ela já foi descoberta". Das qualidades ele destaca a humildade e o senso de justiça; dos defeitos, a cara fechada e séria, "conseqüência da minha timidez, quem me conhece sabe que não sou assim", revela.


Como publicitário, Saul diz que todos devem seguir o que diz Paula Toller, a vocalista do Kid Abelha: "Sei de quase tudo um pouco e quase tudo mal". "O publicitário tem que saber de tudo um pouco e a profundidade que se vai dar para os conhecimentos depende do tempo e da vontade de cada um. Eu sou muito curioso e tento embutir isso na forma de conduzir a criação da Dez", afirma.


Uma forma que se destaca no mundo publicitário. Há alguns dias, Saul recebeu uma notícia que o deixou surpreso e com medo. Ele foi indicado ao prêmio de Publicitário do Ano. "Na minha opinião, o vencedor do prêmio deve ter feito muito pela publicidade naquele ano, acho que ainda não é minha vez", conclui. Mas para o Clube dos Jovens Criativos, a hora chegou, sim. Eles fizeram a indicação, e agora é esperar para ver.

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