Marcelo Nepomuceno: Com disposição e serenidade

Após 10 anos de atuação na comunicação pública, o jornalista acumula desafios cada vez maiores

Por Karine Viana, em 11.07.2014
Um dia após a derrota da seleção brasileira que resultou na eliminação da equipe na Copa do Mundo, Marcelo Roberto Model Nepomuceno fez questão de frisar a origem do sobrenome materno: alemão. E é entre um relato e outro sobre as histórias que moldam sua trajetória que fica possível perceber o quanto o jornalista orgulha-se de suas origens, de sua base familiar e da própria serenidade, adjetivo herdado da mãe, e o qual julga uma de suas características primordiais.
A influência do pai na vida do jornalista, aquariano nascido em 18 de fevereiro de 1978, começou pela escolha do segundo nome, Roberto. Na sequência, aparecem as características físicas. Nepomuceno, assim como o pai, tem a pele morena e é alto. O terceiro e não menos importante legado do pai é a disposição pelos desafios. Este, combinado à serenidade da mãe, uma "alemoa de olhos claros" de quem Nepomuceno praticamente não herdou nenhum traço físico, é o que se sobressai no perfil do jornalista.
Neste ano, quando completa uma década de comunicação no poder público, Marcelo Nepomuceno chega àquele que talvez seja o ápice de sua trajetória profissional até o momento, que é assumir a Secretaria de Comunicação Social do Governo do Estado. "Fazer comunicação no governo é um grande desafio. E minha atual tarefa seja talvez a mais desafiadora", confessa.
O desafio é constante
É neste e em outros casos que o esforço para não se abalar frente às adversidades, entra em ação a serenidade que tanto preza. Com desafios constantes, foi crescendo também sua habilidade em encontrar a melhor forma de enfrentá-los. Em 2005, já formado em Jornalismo pela Unisinos, Nepomuceno foi assessor do então deputado estadual Fabiano Pereira. Três anos depois, o parlamentar presidiu a chamada CPI do Detran, momento em que o jornalista precisou desenvolver um jogo de cintura para praticar seu trabalho.
Este trabalho foi, de certa forma, facilitado por seu porte físico. A substituição dos trajes mais informais pelo uso de terno e gravata aliada aos 1,92 metro de altura facilitaram seu ingresso nas reuniões da CPI nas quais era proibida a presença de jornalistas. Na realidade, Nepomuceno era confundido como segurança do deputado. A confusão só era desfeita quando sacava a câmera para fotografar.
Foco e persistência
Criado num condomínio da periferia em que moravam mais de 400 pessoas, Marcelo Nepomuceno teve uma infância simples. E para chegar onde está, precisou de uma boa dose de disposição. Como todo jornalista, sempre gostou de ler, hábito que iniciou muito cedo, aos cinco anos. Os pais, que na época trabalhavam no aeroporto, ele como gerente do estacionamento e ela como atendente de uma lancheria, levavam para casa revistinhas em português e inglês da extinta Varig. Juntar as sílabas e montar as palavras era uma espécie de diversão para o menino.
Prestes a terminar o ensino médio, abandonou o basquete, esporte que praticava com afinco, por achar que não tinha futuro na modalidade e para se dedicar para o vestibular de Jornalismo na Ufrgs. A vaga não veio. A alternativa foi aproveitar as férias escolares e partir para o litoral. Um comercial na televisão, no entanto, levou-o a se interessar por um dos cursos citados na propaganda: Ciência da Computação. O resultado foi o período de dois anos estudando no Unilasalle.
Hoje, é categórico ao dizer que não se imagina em outra profissão. "No máximo algo ligado à gestão, até pela experiência nos cargos de chefia, mas não tenho segurança em te afirmar isso", confessa. Não foi fácil chegar lá, pois até o ingresso no curso de Jornalismo da Unisinos foram 12 meses sem estudar, apenas trabalhando e aprendendo italiano.
Na busca pelo mercado
Depois de passar por um estágio numa imobiliária, enquanto seu foco de estudo ainda era a informática, Nepomuceno foi efetivado. A renda o possibilitou, posteriormente, pagar a faculdade de Jornalismo. O primeiro estágio em Comunicação surgiu em 2001. Para o ainda estudante, se colocar no mercado de trabalho mesmo como estagiário era um fator importante para crescer na profissão.
A percepção do que de fato é a Comunicação veio, segundo ele mesmo, com o estágio na Epicom, oportunizado pelo professor Pedro Osório, hoje presidente da TVE. O trabalho desenvolvido, diz, foi fundamental para seu crescimento e amadurecimento. "A empresa fazia uma espécie de análise da mídia, era um serviço inédito, afinal, estamos falando de 2001", lembra.
Ainda enquanto estudava, Nepomuceno passou pela Assembleia Legislativa e pela Revista Voto. Em 2005, já formado, foi assessor de imprensa do deputado Fabiano Pereira. De lá pra cá, não faltaram oportunidades que vieram atreladas a desafios. Três anos depois, se viu num período de trabalho e comprometimento ao assessorar o presidente da CPI do Detran, num momento em que toda a imprensa se voltava para os acontecimentos estaduais. Talvez por isso que, durante a troca da presidência do Parlamento Gaúcho, foi convidado a dirigir o setor de Jornalismo da Assembleia Legislativa.
Escada de oportunidades
Os desafios não cessaram. E se cabe aqui a utilização de uma metáfora, pode ser a de uma 'escada de oportunidades'. Conforme falou no início da entrevista, Marcelo Nepomuceno tem disposição para enfrentar as tais oportunidades que aparecem de repente. Depois de passar ainda pelo cargo de assessor de imprensa do PT na Assembleia e assessorar diretamente o governador Tarso Genro, entre 2011 e 2013, foi convidado a subir mais um degrau na carreira, que foi dirigir o Jornalismo da Secretaria da Comunicação. "Posso dizer que os desafios só foram crescendo ou se reformulando. As experiências diversas que tenho acumulado têm mostrado isso", revela.
O convite para assumir, recentemente, o cargo deixado pelo jornalista João Ferrer, como secretário de Comunicação do Governo, foi, de certa forma, uma surpresa. "Quando entramos aqui e o João assumiu, o objetivo era ir até o final da gestão. Quando começou a se configurar a ideia de assumir aqui, minha maior preocupação era de como manter um trabalho em período pré-eleitoral", justifica.  Assumiu a Secretaria de Comunicação num período em que a comunicação dos governos é contingenciada, trabalhar de forma transparente é, segundo ele, uma das maiores preocupações.
Ligações entre passado e presente
Hoje, a rotina de Marcelo Nopomuceno é dividida entre as atividades da Secretaria e os momentos de lazer ao lado do filho Guilherme, de oito anos, e da atual namorada, que está grávida. Colorado fanático, a ida ao Beira-Rio remonta à velha prática que costumava realizar com o pai, ainda nos anos 80. A diferença é que agora Marcelo reside no Menino Deus, área escolhida principalmente por ficar próxima ao estádio do Internacional. "Se tiver um jogo numa quarta-feira à noite com dois mil espectadores, pode ter certeza que sou um deles", brinca.
No esporte, além do futebol, ainda nutre um carinho pelo basquete, esporte que tenta praticar com regularidade. Guilherme, no entanto, treina para ser goleiro. Numa foto mostrada por Marcelo e tirada há poucos dias, pai e filho aparecem vestindo a camiseta da Alemanha. Assim, fica mais fácil compreender a tranquilidade do jornalista frente aos últimos acontecimentos que deixaram os brasileiros consternados.
Uma das referências profissionais de Marcelo, com quem pode se dizer que tem uma espécie de dívida devido a sua introdução no mercado de trabalho, é o professor e jornalista Pedro Osório. Por coincidência, um dos desejos do jornalista a longo prazo é lecionar. Para ele, há uma lacuna faltando nas universidades no que se refere à comunicação na área pública, segmento para o qual acredita ter muito a colaborar. Talvez esse seja mais um passo do jornalista, daqueles marcados pela tranquilidade e pé cravado no chão. "Andábamos sin buscarnos, pero sabiendo que andábamos para encontrarmos." A frase de Cortazar estampou sua página pessoal no Facebook no dia em que tomou posse como secretário de Comunicação do Rio Grande do Sul.
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