Fatimarlei Lunardelli: Meu trabalho é meu hobby

Crítica de cinema fala como as aulas de Artes foram importantes na escolha da profissão

Por Patrícia Lapuente

Por meio de um teste vocacional e a inspiração nas aulas de arte, ela escolheu cursar Comunicação Social com ênfase em Publicidade, mas logo no primeiro semestre o Jornalismo a fisgou. Saída do Interior ainda criança para a Capital, a tímida Fatimarlei Lunardelli viu-se obrigada a interagir mais com as pessoas devido à escolha profissional. Apaixonada por cinema e pelo que faz, ela é enfática: "Não tenho lazer, eu chamo isso de vida, e essa é a minha: meu trabalho é o meu hobby".

Nascida em 1961, em Guaporé, mas, vivendo até os sete anos em Soledade, Fatimarlei não tinha contato com ninguém de sua idade. "Era um ambiente totalmente rural, sem modernidade e sem crianças por perto." Quando chegou o tempo de entrar na escola, os pais, o autônomo, Luiz, e a dona de casa, Maria de Lourdes, mudaram-se para Porto Alegre em busca de educação para a filha e o filho mais novo, Flávio. "Foi uma passagem muito brusca, pois só tinha contato com adultos e entrei em um grande colégio católico", relata ela, que entendeu na terapia como essa passagem foi marcante na sua vida e decisiva para que se tornasse uma menina introvertida.

Com um sorriso, relembra da importância da televisão na infância, quando via "aquela caixa mágica" abrindo o mundo para ela. A jornalista rememora ainda que o aparelho foi uma ponte para, até então, uma menina sozinha e fechada na cidade grande. Mais tarde, apesar de ter feito amigos na adolescência, foi na faculdade que se tornou mais aberta, e atribui a mudança ao fato de o jornalismo oportunizar a sociabilidade.

Apaixonada pelas aulas de Artes do Colégio Rosário, Fatimarlei pensou em cursar História ou Filosofia, porém, como na época as opções de mercado das profissões eram restritas à licenciatura, foi em um teste vocacional que encontrou o que a deixaria plena pelo resto da vida: a Comunicação Social. Após ingressar na Fabico, logo encontrou lugar na Rádio da Ufrgs. Paralelamente, o interesse por filmes aumentou durante a graduação e logo ingressou no Clube de Cinema de Porto Alegre.

Lapidando o conhecimento

Com passagens pela rádio Pampa, foi no Correio do Povo que teve a oportunidade de trabalhar com a editoria de Cultura. Não deixando a rádio da Universidade de lado, conseguiu conciliar o veículo com o cinema em um programa sobre o assunto. Hoje, Fatimarlei se vê com passagens colaborativas pela Rádio Bandeirantes, Jornal Pioneiro, Revista Aplauso, além de ministrar aulas e cursos na Ufrgs, PUC, Faccat e Unisinos. A jornalista ainda conta com três obras lançadas e participação em cerca de quatro publicações sobre a sétima arte.

Ao longo da trajetória profissional, há sempre nomes importantes que norteiam carreiras, e não seria diferente com Fatimarlei. Uma espécie de mãe espiritual, Iara Bendati, da rádio da Ufrgs, tornou-se uma grande amiga, que a auxiliou a tomar decisões importantes na carreira. Além dela, cita o nome de Paulo Fontoura Gastal, que trabalhava no Correio do Povo, e deu o aval para que fizesse a primeira matéria. "Estas foram as duas pessoas mais importantes no início da minha carreira, que me deram acolhimento e autorização necessários para me sentir segura". Em seu meio, Hélio Nascimento e Enéas de Souza são outras referências nas quais se inspira como crítica de Cinema.

Concomitante à carreira, Fatimarlei não deixou de estudar, pois sempre teve vontade de aprender. "Minha curiosidade nunca está satisfeita. Não é somente estar me capacitando profissionalmente, mas, alargar os horizontes", explica. Além da especialização em Jornalismo, fez mestrado e doutorado - ambos na Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, entre uma faculdade e outra, busca finalizar a graduação em Filosofia no qual sempre teve interesse, além do curso de Psicologia.

O que é lazer quando se trabalha com o que gosta?

Para falar sobre horas livres e rotina, ela pensa muito, mas chega à conclusão de que não há lazer em detrimento do trabalho, pois não possui expediente e trabalha com o que realmente ama. "Existem profissões que são contínuas, não existe essa ideia de folga, pois os filmes que vejo e os livros que leio são para o meu trabalho".

Escolher um filme favorito para os leigos já é complicado. E como seria para quem trabalha, justamente, com isso? "Escolher um? Não tem como!", exclama, pensativa. Então, começa uma lista que passa por gostos pessoais, mas também por profissionais: "Eu poderia escolher Dançando na chuva, mas também poderia ser Morte em Veneza. Adoro os cineastas italianos, amo Nós que nós amávamos tanto, ou A doce vida, entre outros tanto?", reflete, sorrindo.

Ao perceber que está citando somente os antigos surpreende: o último filme que a levou ao cinema foi novo Blade Runner. "Muito bem feito e não compromete em nada o primeiro - também adoro ele". Tratando-se dos brasileiros, Fatimarlei é uma apaixonada pelos Os Trapalhões (inclusive, sua tese de mestrado abordou um deles). Ela acredita que há muito preconceito com esses filmes e conta que na Paraíba dizem que precisou uma gaúcha abrir os olhos do pessoal em relação à importância dessas obras cinematográficas.

Leitora assídua, em sua cabeceira se encontra "O Irmão Alemão", de Chico Buarque, além de obras sobre o cinema italiano e do filósofo francês Michel Onfray. "Li o Chico pois precisava de uma leitura rápida no avião, mas minhas leituras são normalmente para o meu trabalho e curso de Filosofia", diz. Além do interesse pela literatura, a jornalista adora descobrir novas comidas em restaurantes, além de cozinhar para reunir a família e os amigos. "Nada muito gourmet, cozinho coisas triviais e do dia a dia", relata ela, que diz ser tudo de bom preparar a comida escutando de noite o programa de Jazz da FM Cultura comandado por seu amigo Paulinho Moreira.

Como trabalhou por muito tempo com trilhas de cinema, ela ainda adora músicas eruditas e instrumentais. "Brinco que sou Bossa Nova", ri quando revela que adora o estilo musical e, ainda, complementa citando ainda a MPB. "A música é mais sensorial para mim, assim como músicas rítmicas e para dançar que me dão esse prazer", expõe.

Com residência no Bom Fim desde que teve o seu primeiro lar, Fatimarlei se diz uma apaixonada pela Região, justamente, por ser perto do Parque Farroupilha. "Gosto muito de caminhar e morar perto da Redenção é muito bom para isso". Ela ainda frequentava uma academia com o objetivo de ter uma vida mais saudável.

Vinda da geração que pode fazer as suas escolhas enquanto mulher

Provinda dos anos 60, época de muito idealismo e luta por parte dos jovens, Fatimarlei decidiu priorizar a sua carreira e se dedicar inteiramente a construir seu nome em sua área de trabalho. Foi aos 40 anos que se casou pela primeira vez, com o fotógrafo, René Cabrales, com quem permaneceu por oito anos. Hoje é esposa há seis anos de Juliano Fontanive Dupont, comunicador social que faz a programação musical da rádio da UFRGS.

Ela, que não se diz feminista, mas, ao mesmo tempo, não se opõe ao movimento e o acha válido, resolveu ainda não ter filhos. "Acho que é uma decisão da mulher ter ou não filhos, e eu escolhi não ter pois precisa ter um cuidado e uma responsabilidade, e era uma coisa que eu não estava disposta a assumir." Sem problemas em falar sobre o assunto, ela declara que é de uma geração que teve a opção de decisão sobre a sua vida. "Essa escolha foi meu exercício de autonomia e liberdade sobre mim mesma", revela.

Com persistência nos seus estudos como maior qualidade e ansiedade, mesmo sabendo que tudo está bem, a descendente de italianos gostaria de revisitar o que já viu da Itália, lugar muito prazeroso para ela, assim como conhecer a Sicília. Porém, apesar de conhecer Paris e Buenos Aires, ela afirma que não tem muito interesse em viajar para muitos lugares. No futuro, ela se vê dando aulas, pesquisando, lendo obras novas e diferentes, além de questionar coisas pelas quais ela ainda não tem resposta.

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