Gilberto Jasper: Um inquieto por essência

Com paixão pelo que faz, Gilberto Jasper traçou uma longa trajetória no Jornalismo

Crédito da foto: Eduardo Nichele Barbosa
Por Karen Vidaleti - em 27/10/2014
O aprendizado constante, a valorização das amizades e o espírito inquieto são aspectos que ilustram a personalidade de Gilberto Jasper. A vontade de fazer, aliás, é tanta que, na trajetória, já assumiu até a redação de horóscopo em jornal. Hoje, com 54 anos e mais de três décadas de trabalho dedicadas ao Jornalismo, o assessor da presidência do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul diz que até gostaria de diminuir o ritmo, mas admite que a paixão pelo que faz ainda é maior.
A facilidade para a escrita, evidenciada nos concursos de redação dos tempos de escola, e a vocação para a comunicação só foram confirmadas nos testes vocacionais. Mas a primeira experiência no Jornalismo aconteceu antes mesmo de decidir pelo curso na faculdade. Foi no jornal O Alto Taquari, do município de Arroio do Meio. "Eu era o único funcionário. Saía com três blocos. Um para anotações como repórter, outro para assinaturas e o terceiro para venda de anúncios", lembra.
De lá, seguiu para o Informativo do Vale, de Lajeado. Acreditava que faria grandes reportagens, mas recebeu apenas uma planilha e a missão de contabilizar os falecimentos da cidade no dia. Mais tarde, com a alta no valor do serviço de horóscopo contratado pelo jornal, passou a fazer a redação da seção. Astrólogo? Não. Para fazer o prognóstico de cada signo, cruzava as informações publicadas em diferentes revistas. A experiência não era exatamente a que planejara, mas serviu de estímulo para que buscasse a qualificação na área.
Como estudante de Jornalismo da Unisinos, mudou-se para Porto Alegre, onde morou em uma república com mais sete amigos vindos do Interior. Prestes a pegar o diploma, entrou para o jornal Gazeta do Sul, o que, por certo tempo, o fez dividir o dia entre os estudos em São Leopoldo, o trabalho em Santa Cruz do Sul e a residência na Capital. Permaneceu por dois anos no veículo, antes de retornar a Lajeado, desta vez, trabalhando como redator e repórter para a rádio Independente. Foi por essa época que soube de uma vaga em Zero Hora, encarou processo seletivo durante uma semana e, após alguns dias, foi convidado pela jornalista Núbia Silveira a integrar a redação do diário.
Em ZH, permaneceu por nove anos. Ainda passou pelas secretarias de Educação e Segurança do Estado, antes de se dedicar à assessoria de imprensa do então governador Antônio Britto (1996/1998), do presidente da Assembleia Legislativa, Paulo Odone (1999), e retornar à Zero Hora como subeditor da Central do Interior. No currículo, ainda constam passagens pela assessoria da Câmara de Vereadores de Porto Alegre e do governador Germano Rigotto, entre outros. Desde 2008, assessora a presidência do Tribunal de Justiça do Estado.
Olhar coletivo
Os cerca de 30 anos de Jornalismo deram a Gilberto Jasper uma coleção de histórias para contar. Das mais pitorescas, curiosas, até aquelas que vêm acompanhadas do sentimento de dever cumprido, muitas são registradas no blog e nas colunas que  mantém em jornais como O Alto do Taquari e Gazeta do Sul. Uma delas aconteceu durante sua primeira transmissão de rádio. Fora escalado para cobrir o velório de um empresário, durante uma hora de programação paga pela companhia do falecido. A cobertura, no entanto, precisou ser encerrada aos 40 minutos, depois do encontro da viúva com outras duas mulheres que teriam relacionamento com o empresário. Na emissora, o repórter precisou explicar por que o programa foi encerrado antes do previsto. "Tiveram que chamar a Brigada Militar, porque tinha defunto de menos para muita viúva".
Uma matéria sobre os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) também rende a ele recordações especiais. Para o trabalho, entrevistou um velho soldado, que, aos 70 anos, morava em um barraco à beira de um riacho e precisava de uma cadeira de rodas para participar do desfile de 7 de setembro. Após a matéria, o veterano não só conseguiu o equipamento, mas também uma nova casa. "Um dia cheguei na redação a esposa dele tinha me mandado um bolo. Acho que cumpri uma das funções do jornalismo, de ajudar, denunciar irregularidades. A gente pode melhorar a vida de muitas pessoas através de pequenas coisas. É importante que se esforce para ajudar", argumenta.
Entre os aprendizados que levou da redação para a assessoria de imprensa estão o relacionamento com os colegas de profissão e a capacidade de comunicar. Conta que foi um menino tímido, mas que encontrou no Jornalismo e nas constantes viagens a diferentes lugares a habilidade de improvisar e "se virar". Também defende que todo o profissional da área deve deixar a soberba, a arrogância, a prepotência de lado e abraçar a humildade, a generosidade, a curiosidade. "Gosto de retribuir a gentileza que as pessoas fazem", diz.
Para inspirar
Nascido na localidade de Bela Vista, a dois quilômetros do município de Arroio do Meio, Gilberto Delmar Jasper Júnior tem da infância lembranças típicas do Interior. Para evitar confusões de um primeiro nome comum ao pai e a um tio, ganhou ainda guri o apelido de Giba. Dos tempos de criança, guarda na memória as idas à escola por estrada de chão batido, os banhos de açude ou mesmo no Rio Taquari, e os jogos de futebol em meio ao potreiro. "Primeiro, a gurizada tinha que tirar os bois e vacas, depois limpar o campo e só então começar a jogar", relata. "Tive uma infância rica, de lembranças maravilhosas da família e amigos", considera, acrescentando que a mãe, Gerti, ainda hoje se espanta quando descobre suas travessuras.
No pátio de casa, a família costumava cultivar as mais diferentes espécies de frutas e legumes. Durante as viagens, era comum que o pai parasse o carro em meio a estrada e depois retornasse trazendo uma nova muda. "Um dia, ele foi ao Paraná e trouxe um pé de café. Tínhamos pé de café em casa", enfatiza. O pai, hoje falecido, foi para Gilberto um grande companheiro. Quando passou no vestibular, fez uma surpresa, levando para a família o listão de aprovados do jornal. Ao ver o nome do filho, o pai pediu um brinde ao primeiro advogado da família, ao que Gilberto precisou corrigir: "Pai, não passei em Direito, passei em Jornalismo". Como resposta, ouviu um certeiro "Tu vais passar fome". Mesmo assim, diz ter recebido da figura paterna todo o apoio necessário. "Ele sempre me disse: "Se quer ser marceneiro - como foi meu avô, pai dele -, seja um bom marceneiro. Se for cozinheiro, seja um bom cozinheiro. Seja alguém que trabalhe direito"."
Da mesma forma, a mãe, hoje com 80 anos, é citada como inspiração e exemplo por sua generosidade. "É uma pessoa querida por todos em Arroio do Meio." A irmã, Neusa, foi sempre uma referência. Enquanto Gilberto gostava muito mais dos esportes do que dos estudos ? chegou a praticar futebol de salão e de campo, basquete, vôlei, salto em altura, corrida e até arremesso de peso ?, ela levava para casa as melhores notas. O desempenho dos filhos na escola era acompanhado de perto pelo pai, que avaliava, principalmente, a frequência em aula. "Minha irmã me estimulou muito a ver que é bom estudar", avalia.
Com os seus
Casado com a também jornalista Carmen Jasper, atuante na Secretaria de Saúde de Porto Alegre, tem na esposa fonte de constante incentivo. Os dois se conheceram na faculdade e, desde então, não se separaram mais. "Sempre digo que devo muito a ela o patrimônio material e afetivo que tenho", ressalta. Do relacionamento, nasceram Laura, 20 anos, estudante de Direito, e Henrique, 19, que segue os passos dos pais no Jornalismo. Apesar da intensa rotina de trabalho, Gilberto faz questão de preservar a proximidade com a família. Pode ser com simples atos como dar carona aos filhos e seus amigos ou telefonar durante as viagens a trabalho. "Acho que a convivência é essencial para o amadurecimento deles", afirma.
Apreciar um chimarrão na Praça da Encol, acompanhado da leitura de jornais, é um de seus tradicionais programas para os sábados e domingos. Também nos fins de semana costuma ir ao supermercado, preparar o churrasco e acompanhar as partidas de futebol. De personalidade inquieta, está sempre envolvido em alguma atividade e diz que dificilmente se vê apenas relaxando. Quando possível, a família programa viagens, mas férias é mesmo algo raro para ele. "Estou sempre me mexendo. Minha esposa diz que o dia em que eu me aposentar, vou entrar por uma porta e eles irão sair por outra."
Acredita que tem na fidelidade a amigos e familiares sua principal qualidade, enquanto o defeito fica por conta da ansiedade e teimosia, característica que considera óbvia para um descendente de alemão. "Reza o ditado: Alemão não é teimoso? teimoso é quem teima com alemão", justifica. Gilberto é também alguém bastante exigente consigo e com aqueles ao seu redor, que não faz cerimônia se precisa pedir desculpas, e nem mesmo hesita em prestar ajuda. "Sou uma pessoa com algum talento e muito esforço - não tenho um texto brilhante, sou um pouco atrasado na questão tecnológica. Não faço só para meus assessorados, mas para as pessoas que estão à minha volta. Tenho prazer em ajudar os amigos", conclui.

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