Gregório Leal: A beleza da simplicidade

Diretor de Criação da Morya sempre desejou trabalhar com Arte

Diretor de Criação da Morya, Gregório Colla Leal, também é formado em Direito - Crédito: Arquivo Pessoal

Histórias em quadrinho: assim o publicitário Gregório Colla Leal percebe a janela dos apartamentos. O diretor de Criação da Morya pode passar horas observando os lares e o comportamento das pessoas. Contudo, o que mais o intriga é saber que nunca conhecerá quem está por entre venezianas e grades. O mesmo acontece para os diversos lugares do mundo. Ele, que pretende conhecer todos os locais que conseguir, encanta-se ao se sentar em um canto e ficar observando o que acontece à sua volta.

Foi com este jeito de admirar o belo que trabalhar com estética foi a única opção. E, nesta jornada de descoberta, foi a direção de Arte que o fez brilhar os olhos desde o início. Não é à toa que, ao longo das cerca de duas décadas de atuação, sempre trabalhou com isto. Formado em 2003 em Comunicação, com ênfase em Publicidade e Propaganda, pela PUC, há sete anos é diretor de Criação da agência comandada por Fábio Bernardi e Lara Piccoli. Greg, como é conhecido, conheceu o casal quando atuava na Paim. "Nunca imaginei estar nesta posição", comenta sobre o cargo que ocupa e o faz se sentir realizado como profissional - principalmente devido à liberdade que tem na agência.

Nunca foi de fazer muitos planos para chegar em determinado lugar ou ganhar algum prêmio. Contudo, sempre foram as oportunidades acontecendo. "Acho que, se eu tivesse planejado, não seria tão bom como foi", opina. Dentre as láureas conquistadas estão Cannes, Profissionais do Ano, produzido pela Rede Globo, Colunistas e Prêmio Abril. As distinções, aliás, sempre chegam de surpresa, sem foco ou desejo. Todas as conquistas foram fruto da inscrição dos colegas, pois Greg não acredita que são uma boa métrica devido à percepção de quem julga não ser a mesma dele

Por outro lado, reconhece o trabalho da equipe em tantas vitórias. Assim como se enche de orgulho quando o assunto é a estrela que estampa sua sala na Morya. Ele conquistou o prêmio de Diretor de Criação do ano, no Salão ARP Night de 2018 - iniciativa realizada pela Associação Rio Grandense de Propaganda. "Esta conquista se deve à equipe, pois sou apenas o maestro", comenta, ao dizer que gosta muito desta distinção, pois é um dos únicos de liderança, em vista dos outros serem para profissionais.

Paixão pelo belo

Os primeiros passos na carreira aconteceram em 2000, quando conquistou a vaga do primeiro estágio, na Studios Comunicação, em uma área que sempre desejou trabalhar: direção de Arte. Apaixonado pela função, acabou, ao longo da trajetória profissional, somente em agências exercendo esta função - até ser contratado para ser o novo diretor de Criação da Morya. "Sempre que consigo um tempo, tento rabiscar algo", revela, ao comentar que adora estes momentos.

Para ele, este estágio foi muito importante e foi sortudo em consegui-lo. "Trabalhei com bons diretores, o que fez muita diferença na minha carreira", afirma. Além da Morya, Paim e Studios Comunicação, o publicitário ainda teve passagens pela Competence, Dez (hoje BriviaDez) e Escala. Greg também teve a oportunidade de brilhar fora do Rio Grande do Sul, cuja missão foi cobrir férias durante três meses na DPZ - agência carioca.

Com uma rotina conturbada, divide-se ao máximo que consegue para resolver problemas de orçamento dos fornecedores, visitar clientes, participar de reuniões e resolver problemas de pauta. O diretor de Criação ainda distribui trabalho entre a equipe, olha os brainstorming, escolhe as ideias e avalia o desenvolvimento dos layouts. "É bem corrido, mas às vezes dá para ter umas ideias e criar um pouco", aborda. Apesar de acreditar que, no futuro, não haverá este modelo atual de agência, deseja seguir trabalhando com criação e pessoas.

A partir da paixão pela Moda, especializou-se e voltou a carreira para direção de arte desta área. Ao seu ver, é muito bom nisto, além de gostar deveras do nicho. Sempre com os estudos em dia, começou a cursar Design, na Ulbra, e Artes, na Ufrgs, mas percebeu que era tudo mais do mesmo em relação aos conhecimentos que já havia adquirido. Então, resolveu se dedicar a uma adoração antiga: o Direito. 

Além da Propaganda

Ciências Jurídicas são uma paixão mais acadêmica, ao menos, é assim Greg define a profissão que o chama atenção há muito tempo, tanto quanto a Publicidade. Quando fez vestibular, foi para os dois cursos, mas acabou passando somente na área da Comunicação. Após, pediu para regressar à PUC como diplomado e se graduou na segunda faculdade. Ele acredita que é fundamental se ter noções básicas do que é lecionado nesta área.

Mesmo gostando tanto, nunca pensou em advogar - mesmo após passar no exame da Ordem (OAB). Conforme ele, os conhecimentos adquiridos o ajudam muito na vida para entender como resolver alguns problemas que aparecem e, até mesmo na agência, como em épocas de concorrência pública. Para Greg, o Direito e a Propaganda são iguais em relação à parte argumentativa. "Nas campanhas, tu estás tentando convencer o cliente a comprar o produto, enquanto na advocacia, o juiz na tese que estás propondo", compara.

Outra parte da vida ligada à criatividade está relacionada à gastronomia. O publicitário fez um curso de coquetelaria e possui como hobby criar drinques. Entretanto, o passatempo se restringe às bebidas. "Não cozinho e não sei fritar nem um ovo", confessa ele, ao contar que o marido, Rodrigo Constanza, é um cheff de mão cheia. A idolatria pelos pratos preparados pelo amado é tamanha que não consegue escolher o favorito. "Tudo o que ele faz é bom", admira.

A história do casal começou, justamente, neste meio de bebidas e petiscos. Os dois foram de "furões" em uma determinada festa, em Gramado, pois conheciam os convidados, mas não os donos da noite. Os olhares que se cruzaram lá há oito anos não se desgrudaram mais, primordialmente, da cidade que os uniu. Hoje, possuem um lar no município tradicional do Natal Luz e alimentam o sonho de morar lá.

A favor da simplicidade

Quando não está trabalhando, é no trailer que possui que se encontra. A casa móvel, quando não está parada em um camping de Gramado, é levada para viajar com o casal. Greg adora estar no meio da natureza e dos animais. No recanto que fica na Serra, conta que há os mais diversos bichos, como coelho, pato, ganço, cavalo, vaca e pavão. O local ainda abriga Salvador, seu rottweiler e pelo qual é apaixonado. Cachorreiro, também tem a Sol, uma vira-lata que fica no sítio que possui em Gravataí. "Ainda tem os outros que eu cuido da rua", diz.

Podendo não estar na Capital, é nos locais campeiros que ele pode ser facilmente encontrado. E, para viajar, tem o mesmo gosto. Tem a predileção por visitar lugares onde tenha uma natureza exuberante, como serra e praia. O costume vem da infância, quando a família veraneava em Laguna, no estado de Santa Catarina. Filho único, lá, os verões foram marcados por brincadeiras nas ruas com os primos e ao lado dos pais, ambos administradores, Luiz Sérgio e Soraia.

Deste tempo, recorda que foram momentos muito felizes. "Amo minha família, e acredito que tive uma vida privilegiada por ser homem, branco, classe média e com o grande apoio dos meus pais por aceitarem minha orientação sexual", reflete. E é exatamente em detrimento destas alegria e sorte que se define como uma pessoa contente, realizada e inteligente. Sem seguir uma determinada religião, acredita muito na espiritualidade e nas forças da natureza, bem como na lei do retorno, em energias e que as pessoas estão cumprindo uma missão. No que não crê, todavia, é que o dinheiro compra felicidade.

Muitas opções

O trailer o apaixona ainda mais por uma relíquia: o toca-discos que guardou do pai. Adorador de música brasileira, possui diversos vinis que escuta aproveitando o clima serrano. Música, aliás, é algo que o move, fazendo parte de momentos como quando está no trânsito, no chuveiro e, até mesmo, trabalhando. "A música faz toda diferença na vida e muda o clima do dia", diz, ao comparar com a área de atuação e enfatizar a importância de algum som marcante para um comercial de televisão, por exemplo.

Outro hobby é a leitura, como, por exemplo, biografias. Atualmente, diz-se em uma vibe de consumir conteúdo de escritoras mulheres negras, como 'Quarto de Despejo', da Carolina de Jesus. O problema, contudo, está na tamanha adoração que, por muitas vezes, o faz acumular diversas obras em andamento ao mesmo tempo.

Isso também acontece com séries televisivas. "Perco-me vendo tramas simultaneamente", comenta. Outro empecilho é a quantidade de oferta que os catálogos de streamings possuem, e brinca que passa mais tempo escolhendo do que vendo. Dentre as escolhidas que passaram desta fase estão 'La Casa de Papel' e 'Suits'.

Péssimo para recordar nomes de filmes, cita como favoritos os dois primeiros que aparecem na sua mente: 'O Poderoso Chefão' e 'Clube da Luta'. Greg gosta muito da sétima arte, principalmente se forem inusitados, diferentes, criativos, e que fujam de tramas comuns e tradicionais. Ou seja, filmes que o façam pensar, independentemente do gênero. Ainda curte humor inteligente, mas detesta comédia pastelão.

Em relação às práticas esportivas, faz academia por obrigação e gosta de natação - mas tem preguiça da logística. A condição é, justamente, o defeito que aponta: a dificuldade em levantar da cama. Em relação à sua qualidade, acredita que é um bom gestor.

Como consumidor, adora ver vôlei, pois o pai era jogador e sempre foi um hábito de casa. Ainda assiste futebol em Copas do Mundo e em grandes campeonatos. Gremista, mas sem ser assíduo e sem nunca ter frequentado o estádio, as pequenas disputas não o chamam atenção, pois os olhos estão sempre voltados à riqueza que pode ser encontrada nos pequenos detalhes da arte.

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