Pedro Osório: Jornalismo com política

Jornalista e professor universitário fala da militância política e revela-se um homem de alma interiorana

Com a serenidade de um mestre, ele discorre sobre suas escolhas. O despertar para a política, o gosto pelos cavalos, a decisão de seguir o jornalismo e a alegria de lecionar. Os tópicos vão sendo destacados um a um, enquanto as lembranças surgem na mente do estudioso professor Pedro Luiz da Silveira Osório. A entrevista começa e ele parece um pouco tímido. Algumas frases depois, discursa como que a ensinar uma matéria em sala de aula. As palavras fluem  e o mestre vai contando sobre os caminhos que percorreu nos seus 57 anos de vida.

Em meio às revelações, confessa que ser um jornalista da Capital nunca esteve em seus planos. Guri de interior, Pedro nasceu no distrito de Cerrito, interior de Jaguarão. Com apenas quatro anos, mudou-se com os pais e as irmãs, Ana Lúcia e Nara Maria, para Santo Ângelo, terra natal do pai, o corretor de imóveis João Baptista (falecido). Como a mãe de Pedro, Celú, era de Cerrito, a família costumava passar as férias na casa dos parentes, no interior do Estado.

Vem daí o gosto de Pedro por cavalos. Quando criança, seu sonho era ser veterinário. Na adolescência, porém, passou a transitar mais por Santo Ângelo. Na cidade, tinha acesso aos jornais da época como Pasquim, Opinião e Movimento. "Vivi a fase da imprensa alternativa. Atuava no grêmio estudantil do colégio. Foi aí que começou minha militância política", conta.
Militância estudantil

Mesmo sendo de uma família humilde, fato que o levou a começar a trabalhar com apenas 10 anos, Pedro e as irmãs sempre foram estimulados a estudar. "Meu pai sempre me incentivou a ler. Organizei com meus amigos a primeira Feira do Livro de Santo Ângelo, no início dos anos 70", recorda. Quando chegou a época de optar por um curso superior, estava decidido a ser veterinário. Mas avaliou sua militância política e o grupo de intelectuais com quem se relacionava e achou que o Jornalismo lhe serviria melhor para dar continuidade ao debate cultural que vinha desenvolvendo com a turma de amigos.

Assim, meses antes de prestar vestibular, mudou de ideia, ingressando na Universidade Federal de Santa Maria para cursar Jornalismo. Como não poderia ser diferente, lá continuou sua militância estudantil. Os anos eram de ditadura militar no país e Pedro filiou-se ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), militando também em partidos clandestinos. Anos mais tarde, já com a democracia vigorando no Brasil, filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT), onde permanece até hoje.

Como seguia apaixonado por cavalos, quando surgiu a oportunidade para servir como tenente no 3º Regimento de Cavalaria, em São Luiz Gonzaga, Pedro não teve dúvidas. Já havia participado do Curso de Preparação de Oficiais de reserva, em Santo Ângelo, e essa era um oportunidade de dar seguimento ao trabalho militar. Trancou a faculdade, e mudou-se para São Luiz Gonzaga. "Aceitei porque tinha muita curiosidade pelas lides militares e porque era uma possibilidade de servir no regimento  de cavalaria", ressalta.

Após três anos, decide deixar o quartel. Nesta época, já namorava a Bernardete Melo de Cruz, que muda-se com ele para Santa Maria, em 1976. Pedro retoma então os estudos na faculdade de jornalismo e Bernardete presta vestibular para Artes Plásticas. Logo tornou-se presidente da casa dos estudantes. E conseguiu seu primeiro emprego na área. Foi trabalhar na Rádio Santamariense, como repórter. Também teria passagem pela rádio Medianeira e pelo jornal O Expresso.
Pela produção de conteúdo

Sua primeira grande oportunidade profissional foi quando ingressou na sucursal do Grupo Caldas Jr., em Santa Maria. "Éramos cinco jornalistas e viajávamos por todo o interior fazendo matérias para os jornais e a rádio do grupo. Aprendi muito", lembra. Outro passo importante em sua militância foi tornar-se delegado da Associação Riograndense de Imprensa em Santa Maria (ARI).  A atuação política causaria sua demissão do Grupo Caldas Jr. 

Pedro inicia nova fase em sua carreira, quando vai trabalhar no jornal Interior, da Fundação da Produtividade, de Carazinho. "Passei a perceber o Jornalismo como produtor de conteúdo e não só de informação".Na nova atividade passa a viajar mais. "Era uma semana viajando e outra na redação redigindo os textos", comenta. Nos fins de semana também viajava. Acontece que nesta época já havia se casado com  Bernardete e era pai de Moreno, hoje 28 anos, também jornalista. "A escolha do meu filho me deixa muito orgulhoso, embora eu fosse aceitar qualquer outro caminho que ele escolhesse. O importante é estar feliz", avalia.

Na sequência, a família muda-se para Porto Alegre com a abertura de uma sucursal do Interior na Capital. "Não tinha a menor vontade de vir. Não me agradava muito a minha categoria na época. Eu os achava alienados", diz. Com o tempo, sua primeira impressão foi se desfazendo e Pedro se adaptou a Porto Alegre. Mas confessa que sua alma é interiorana. Na Capital, também passa a integrar o Sindicato dos Jornalistas e segue fazendo o que mais gosta: militância política.

Continua a viajar, vai trabalhar na Gazeta Mercantil, ajuda a fundar o Diário do Sul, separa-se, ajuda a eleger Tarso Genro a prefeito da Capital, vai trabalhar na comunicação da prefeitura, casa-se de novo e é convidado a dar aulas na Unisinos. Porém, os estudos nunca foram deixados de lado. Pedro ingressou no mestrado em Sociologia Rural, mas não chegou a concluir, depois em Comunicação e hoje é doutorando do curso de Ciências Políticas, todos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. (Ufrgs).

Casado desde 1992 com a também jornalista, Ângela Beatriz Sória, conhecida como Bita, a conheceu quando era coordenador de Comunicação da Prefeitura de Porto Alegre. "A Bita coordenava o programa de rádio e TV Cidade Viva da Prefeitura. Passamos a conviver mais e acabou acontecendo", recorda. O segredo de sua boa relação com a esposa, segundo ele, é o diálogo. "Como a gente descobre com o tempo, a conversa é uma forma de amor. Toda a boa relação presume um permanente diálogo", pondera.

A nova união lhe proporcionou a convivência com os filhos e a neta da esposa, que mora temporariamente com o casal. "Ser avô da Maria Eduarda, 13 anos, é um barato", diz. A menina é filha de Ângela Gabriela Riccordi, 33, estilista, que está em São Paulo a trabalho. Bita também é mãe de Tiago, 34, publicitário, e Lucas, 32, estudante de Publicidade e músico.
Nas redes sociais

Com uma rotina intensa, Pedro atualmente é secretário-executivo do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e leciona quatro disciplinas na Unisinos, onde está há mais de 20 anos. É desejoso de mais tempo para curtir a família. "Depois dos 50 a gente deveria trabalhar menos", diz. Mas ele não segue essa máxima e acumula, ainda, a função de presidente do Conselho Deliberativo da Fundação Cultural Piratini - Rádio e Televisão, e o doutorado em Ciências Políticas.

Como já deixou de praticar cavalgadas, segundo ele, por falta de parcerias, quando sobra tempo gosta de viajar com a esposa. "Não é nada muito longe, mas gostamos de deixar a cidade de vez em quando", diz. A cavalgada é tema de um de seus dois livros, lançado há três anos, pela Arquipélago Editorial. A obra 'Terra Adentro' é um registro de viagem que Pedro fez com dois amigos jornalistas, Luiz Sérgio Metz (falecido) e o professor e escritor Tau Golin. Os três viajaram a cavalo de Santa Maria a Cerrito, no interior de Jaguarão. A aventura, realizada em 1981, durou 15 dias. "O livro foi uma forma de homenagear nosso querido amigo falecido",comenta.

Pedro também é autor de uma pequena biografia de Joaquim Francisco de Assis Brasil, da editora Tchê, lançado em 1984. Ainda há planos de produzir mais, a prioridade, porém, é conseguir finalizar o doutorado. "Estou sempre estudando e me atualizando. Penso que isso é fundamental para um professor", destaca.

Famoso na Unisinos por lecionar a disciplina de Assessoria de Imprensa, durante anos foi o único professor a ministrar a cadeira, Pedro orgulha-se de ter iniciado na atividade de assessor de imprensa na Prefeitura de Porto Alegre. Trabalhou com o jornalista Daniel Herz (falecido) na Coordenação de Comunicação do órgão. Após, sucedeu o colega, estando no cargo durante a gestão de Tarso Genro (PT) na prefeitura (1993-1996). Foi a parceria com Herz que levou Pedro a trabalhar no FNDC. "Atuando no fórum consigo colaborar para definir melhores políticas de comunicação", destaca.

Pedro também acha tempo para estar inserido nas redes sociais. Mantém um perfil no Orkut, Facebook e Twitter. "É uma forma de estar atualizado e também desenvolver um relacionamento com os alunos", diz. Quem visita suas páginas pode perceber a admiração dos alunos pelo mestre. Inúmeros recados transparecem a boa relação que ele mantém com os estudantes. E é para eles que Pedro manda um recado: "A profissão está mudando. Jornais e revistas podem ter um destino que nós desconhecemos, mas o jornalismo não vai desaparecer. Há um bom cenário pela frente, é preciso estar muito atento a esta fase em que vivemos hoje", destaca otimista.

O otimismo também está presente quando o assunto é a volta do diploma. "Acredito que conseguiremos rever esta situação. A luta do sindicato é exemplar". Para finalizar, cita uma frase muito usada por Karl Marx: "Nada do que é humano me é estranho", do dramaturgo e poeta romano Terêncio. Para Pedro, as pessoas precisam ter um olhar de tolerância sobre o mundo. "Procuro fazer isso para viver bem".
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