Luiz Adolfo Lino de Souza: O construtor de jornais

Jornalista das artes gráficas, ele considera que o projeto gráfico é a alma de um jornal e a internet, uma banca de jornais que tem em casa

Luiz Adolfo Lino de Souza - Reprodução

Divertido, bem-humorado, criativo e com a mente sempre repleta de idéias e conceitos. Assim é o jornalista Luiz Adolfo Lino de Souza, o construtor de jornais, como ele mesmo se define. Depois de passar por agência de propaganda, Folha da Tarde, Folha de São Paulo, Zero Hora e Correio do Povo, hoje ele é o editor-executivo de Arte dos jornais do Grupo RBS. Já são 30 anos trabalhando na mesma área: projetos gráficos e diagramações. Apaixonado pelo que faz, Luiz Adolfo garante que não se vê atuando em outra área. "O sentido para eu fazer as coisas é ter uma folha em branco, seja no papel ou na tela. Se aparecer uma idéia, eu traço ela", desafia.

"Gosto de fazer experimentos, não gosto de padronização, gosto de inventar. Cada jornal tem que ter sua particularidade. O projeto gráfico é como se fosse a alma do jornal. E é importante termos isto em mente, pois estamos orientando a leitura, priorizando elementos, definindo estilos", explica Luiz Adolfo ao detalhar sua forma de trabalhar. Ele conta que, mesmo com toda a tecnologia em softwares gráficos, é adepto do sistema tradicional. Ele prefere inicialmente desenhar suas idéias no papel, para depois passar a limpo no programa de computador. "Na verdade, eu estou fazendo exatamente o que eu fazia quando comecei, há 30 anos, antes de me formar. E eu fiz muita coisa que me deu prazer ao longo desse tempo", reflete.

Natural de Rio Grande, Luiz Adolfo nasceu em 29 de outubro de 1960. Formou-se em Jornalismo pela PUC em 1982. Ele acredita que as lembranças deixadas pelo pai foram o que o motivaram a cursar jornalismo. "Eu acho que foi uma maneira que eu tive de manter ele vivo, já que o perdi quando tinha três anos. Sempre ouvi minha mãe contar que ele tinha uma coleção de revistas, que lia revistas sempre. Ele comprava O Cruzeiro - revista dos anos 50 e 60 - toda semana. Então eu acho que foi a maneira que eu achei de me aproximar dele", relata Luiz Adolfo.

A fascinação por jornais

Foi nessa época, quando ingressou na faculdade, que ele deu início à sua coleção interminável de jornais. "As pessoas colecionam camisetas, selos... eu coleciono jornal. Se tu me pedir um jornal de Singapura, eu vou ter um jornal de Singapura. Se tu me pedir um jornal da Ucrânia, eu tenho um jornal da Ucrânia. Guardo tudo em um enorme armário que é um viveiro de traças e que nem com a digitalização eu consigo dar fim a eles", diverte-se o colecionador. Luiz Adolfo conta que seus amigos sempre trazem jornais das viagens como um suvenir - objeto que resgata memórias que estão relacionadas ao destino turístico. "E hoje eu não posso ver ninguém botar um jornal no lixo que eu vou lá e pego", assume ele, que não sabe precisar quantos exemplares tem sua coleção, mas acredita que tenha cerca de 1.500 títulos de jornais de todo o mundo.

"E hoje eu estou fascinado pela internet. Antes, eu tinha que viajar pra chegar numa banca e comprar esse jornal. Hoje, eu leio o jornal pela internet. Então pra mim a internet é uma banca de jornal que eu tenho em casa", analisa Luiz Adolfo. Ele lê, diariamente, cinco jornais: El País (Espanha), New York Times (Estados Unidos), El Periódico (Barcelona), Folha de S. Paulo e Zero Hora. "E a qualquer minuto eu vou conferir a notícia no jornal da cidade onde o fato aconteceu. Se tem furacão em Nova Orleans, eu acesso o jornal de Nova Orleans. Isso virou um vício pra mim... mas, mesmo assim, eu não deixei de querer o jornal de Nova Orleans", reconhece Luiz Adolfo. "É o meu hobby. Na verdade, eu transformei parte do meu trabalho no meu hobby", constata.

O começo

Luiz Adolfo começou aos 17 anos, fazendo diagramação de jornais e revistas em uma agência de publicidade como estagiário do curso técnico de Publicidade. Foi através de seu primeiro chefe, Mario Albuquerque, que descobriu o jornalismo. "Ele me incentivou muito. Eu praticamente fiquei responsável pelas publicações dele e, paralelo ao curso, o jornalismo acabou aparecendo. Então, na hora de fazer a opção do vestibular, eu troquei a Publicidade pelo Jornalismo", lembra o profissional. Em 1980, ele foi trabalhar com Políbio Braga e Ayres Cerutti, na Editora Intermédio, fazendo diagramação da Revista Programa. Nessa época, estava cursando a disciplina de Planejamento Gráfico, com Aníbal Bendatti, a quem carinhosamente chama de "meu primeiro guru". "Aí eu já estava me voltando pra área, ele já me via como um aluno especial, pois eu trazia dúvidas do trabalho para a aula", relembra.

"Às vezes, são os professores que motivam as escolhas. Comigo foi assim. Eu pensava em fazer rádio, mas o meu primeiro guru mudou o meu caminho", revela Luiz Adolfo. Foi quando Bendatti, a pedido de Walter Galvani, então diretor da Folha da Tarde, o indicou para sua terceira experiência. Era final de 1981 e a Caldas Junior estava passando por um momento histórico. "A transição da composição a quente, a tipografia, das oficinas do jornal, de caldeiras praticamente ao lado da redação, para um sistema frio de composição. E aí foi como se tu andasse de carruagem antes de chegar o Ford T", compara o jornalista, que teve a oportunidade de acompanhar essa troca de era e, hoje, poder contar para seus alunos. Foi quando Galvani solicitou a Luiz Adolfo que fizesse um novo projeto gráfico para a Folha da Tarde. Era a oportunidade que todo iniciante desejava.

Aí, o hábito de colecionar jornais se tornou coisa séria. "Eram referências que eu precisava ter, pois estava virando um projetista gráfico e precisava ver o que as outras pessoas estavam fazendo", explica. Luiz Adolfo redesenhou toda a Folha da Tarde. Mas a Caldas Junior, que já estava em crise, acabou fechando o jornal em 1984, dois anos depois de circular com novo layout. O Correio do Povo também deixou de circular, o que levou o jornalista a concluir que projeto gráfico não salva uma publicação. "A crise era tão grande que mesmo a gente tendo feito um esforço enorme de renovar o jornal, a Folha da Tarde fechou. Mesmo assim, foi muito importante para a minha vida profissional, porque eu estava me formando e fiz o primeiro projeto gráfico", avalia. Luiz Adolfo lembra que o fato foi uma tragédia gaúcha em 1984. "A Folha era um jornal muito querido na cidade. Foi o primeiro tablóide brasileiro, lançado em 1936, e faltando pouquinho pra completar 50 anos a Folha da Tarde fechou. E deixou uma série de pessoas desempregadas", lembra.

Histórias trágicas e cômicas

"Aí, eu participei de um sonho com o Antoninho Gonzales, meu mestre, que tentou reunir uma equipe de jornalistas e fazer um jornal para Porto Alegre a partir do Grupo Sinos. Eu trabalhei pesado durante oito meses pra criar O Estado do Rio Grande. O jornal durou 13 dias", resume Luiz Adolfo, que viveu a história em 1985. "Foi uma experiência absolutamente traumática", lamenta e, ao mesmo tempo, diverte-se o jornalista. "Mas do ponto de vista pessoal eu aprendi muito, porque eu criei o jornal do zero", avalia. Entre as muitas histórias trágicas e cômicas que aconteceram em apenas treze dias de jornal, ele conta: "No segundo dia, com essa dificuldade toda, eu estava na oficina ajudando a fechar o jornal, e olhei pra janela e perguntei: "Que luz é aquela ali?" Daí, o rapaz que estava trabalhando comigo disse: "É o sol!". Eram 6h da manhã e nós não tínhamos fechado o jornal ainda", relembra Luiz Adolfo. O trabalho recebeu o Prêmio ARI de Jornalismo na categoria Projeto Gráfico.

Depois, Luiz Adolfo trabalhou por alguns meses na Folha de S. Paulo, mas quando ouviu dizer que o Correio do Povo voltaria a circular, retornou para o Rio Grande do Sul. Enquanto o rumor não se confirmava, ele trabalhou por algum tempo em Zero Hora e participou da criação do Diário Catarinense, em 1986. "Era um imaginário da gente: a volta do Correio do Povo", descreve. "O Antoninho Gonzales, diretor de Redação, e o Marco Antonio Kraemer, convidados pelo Renato Ribeiro, resolveram botar o jornal na rua de novo. E eu fui em busca daquela volta do Correio e fiz parte do relançamento do jornal. Eu já tinha aprendido que os grandes fracassos valem mais que os acertos. Os fracassos da Caldas Júnior fizeram com que eu voltasse e comprasse o desafio. E a gente relançou o Correio do Povo praticamente igual, com o mesmo visual", conta Luiz Adolfo orgulhoso.

Mas a situação continuava difícil na Caldas Júnior. Então ele e Luis Figueredo, que era o diretor de redação, foram chamados na sala de Renato Ribeiro para receber uma nova proposta: relançar o jornal, em formato tablóide, com 16 páginas e distribuído gratuitamente para 500 mil pessoas. "Isso aqui é um transatlântico e nós vamos afundar. E eu estou oferecendo pra vocês um bote salva-vidas. Eu quero transformar o Correio num outro jornal, numa síntese, numa súmula do que está acontecendo. O que era duas páginas vai virar uma, e vocês me façam esse projeto", disse Renato Ribeiro. Então, Luiz Adolfo fez o projeto e ele gostou. "Pensei: precisamos colocar cor no jornal. Como não tínhamos condições de colocar fotos coloridas, colocamos um spot collor azul. O jornal saiu com essa fama de azulzinho e foi um absoluto sucesso", lembra Luiz Adolfo.

O guardião das idéias

Atendendo ao chamado de seu "segundo guru", Mario Garcia, em 1988 Luiz Adolfo foi pra RBS para trabalhar na reformulação da Zero Hora. "Eu tive a oportunidade de trabalhar e aprender muito com ele e com o Lauro Schirmer e Carlos Fehlberg, então diretores de Zero Hora. Desde então, ao longo destes 20 anos eu sou, de certa forma, guardião das idéias e do projeto", define Luiz Adolfo. Em 1994, quando o jornal comemorou 30 anos, ocorreu outra mudança, desta vez liderada pelo Augusto Nunes. "Eu redesenhei o logotipo horizontal, que foi a grande transformação da marca da Zero Hora, que deixou de ter um logotipo de jornal popular para adotar um logotipo de jornal conservador, coincidindo com a grande virada para um jornal de qualidade", observa o jornalista. "Em 2005 refizemos este projeto que é 100% feito em casa, com mais cor e uma linguagem mais moderna", explica Luiz Adolfo sobre o projeto desenvolvido após ter feito um curso de desenho de Jornal em Barcelona, em 2004.

De lá pra cá já são 20 anos trabalhando com os projetos gráficos dos jornais do Grupo RBS. "É muito desafiador tu ter que estar arrumando, tratando e cuidando do visual de oito jornais, trabalhando com oito redações, convivendo com as pessoas e sempre trabalhando com um braço-direito em cada redação. O que também me deu muita satisfação foi o lançamento do Diário Gaúcho. A gente pôde fazer tudo diferente. Então, todas as coisas que eu defendia pra fazer de um jeito, a gente fez de outro", conta Luiz Adolfo.

Ele confessa que, como inspiração para desenvolver o projeto, ouviu durante três meses a Rádio Farroupilha. Sempre utilizando lições do passado, resgatou algumas idéias da Folha da Tarde, e também dos jornais populares alemães e ingleses. "Eu peguei toda a minha coleção e praticamente dormi em cima dos jornais durante esses dias. Foi um exercício de escrever uma coisa num outro estilo, desenhar de outra forma", descreve o jornalista, que com este trabalho recebeu mais um Prêmio ARI. "Como construtor, eu já perdi as contas de quantas fachadas eu já criei e modifiquei, mas acho que já são mais de 20 jornais diários", calcula.

A rotina em parceria

Luiz Adolfo é casado há 10 anos com a jornalista Marta Sfredo, repórter de Economia de Zero Hora. Se conheceram na Caldas Júnior e depois ambos foram trabalhar na RBS, ele há 20 e ela há 15 anos. "De certa forma, a gente formou uma dupla muito parecida, em que solidariedade e o nosso amor fazem com que a gente fique praticamente as 24 horas do dia juntos", revela ele. Os dois jornalistas gostam muito de viajar. Juntos, vão a qualquer lugar. "Ela "me arrasta" pro cinema todos os finais de semana. Todos. Estamos sempre programando viagens. A Marta acha que os lugares que escolho são países que quero comprar jornais", brinca. Luiz Adolfo também gosta de cozinhar. "Eu invento algum prato pra fazer uma hora antes. Vou na internet, pego a receita, passo no supermercado e faço. Graças ao Google, os livros de receitas ficaram muito mais acessíveis", analisa.

Torcedor do Internacional, Luiz Adolfo está cada vez mais fanático depois que descobriu uma superstição. "Acho que por causa da história da Libertadores, pois eu "entrei numas" que se eu assistisse aos jogos do Inter, era por isso que o Inter perdia. Então eu passei a não assistir e deu certo. Quando chegou a final da Libertadores, Inter e São Paulo, me perguntaram: como tu vai fazer, tu não vai ver a final? E eu não vi a final. Eu assisti a um filme sozinho no cinema na hora do jogo. E aí me perguntaram o que eu faria na final contra o Barcelona, se não tem cinema às 8h da manhã... e aquilo começou a ser um peso pra mim, porque se eu visse o jogo o Inter ia perder... aí eu dirigi durante duas horas, sem ouvir rádio, só musica", conta.

Revelações

"Eu tive uma infância muito legal. Eu sou um privilegiado, porque eu tive um pingüim como animal de estimação", conta Luiz Adolfo, que aos oito anos ia passar as férias na casa da vó, em Santa Vitória do Palmar. "Eu me emociono muito fácil, embora às vezes seja difícil perceber", confessa. "Estou sempre fazendo essas relações familiares, estou sempre medindo o tempo, contabilizando coisas. Eu não conto, mas levo no coração uma enormidade de pessoas que me ajudaram a trabalhar. É muita gente que eu levo comigo como fundamental, como categoria 1 - guru, como categoria 2 - mestre, ou categoria 3 - aluno".

No dia-a-dia, Luiz Adolfo procura ser democrático. "Procuro fazer com que as pessoas gostem do que estão fazendo", simplifica Luiz Adolfo. Entre os projetos que ainda precisam ser concretizados, está terminar um livro sobre design gráfico que já está há algum tempo "na gaveta". O jornalista também tem se dedicado à Faculdade de Comunicação da PUC, onde leciona há 18 anos, e à Society of News Design (SND), entidade da qual é diretor na América Latina e que em 2009 vai promover um congresso em Buenos Aires. A associação reúne mais de três mil profissionais e professores de 40 países.

Desafios cotidianos

"Temos que encontrar uma maneira de transformar o jornal da forma como a gente o conhece hoje. Estamos trabalhando pra fazer com que seja um complemento indispensável, mas não sabemos qual será seu futuro", acredita Luiz Adolfo, que garante não ter medo do novo. "O que eu não consigo mudar na minha vida, eu reviro no trabalho. O principal desafio é traduzir um projeto numa forma gráfica e ter que convencer as pessoas na redação a trabalharem nisso, porque o jornalista tá sempre propondo a mudança, mas ele é o que menos aceita a mudança. Não tem nada mais conservador que jornalista de redação de jornal."

Apesar de ser apaixonado pelo que faz, Luiz Adolfo considera o texto mais importante do que o design de um jornal. "Sou produto desta época visual, mas tenho plena consciência de que projeto gráfico não salva jornal. Não adianta colocar toda a carga de salvação nas questões estéticas, é preciso que as notícias tenham conteúdo", enfatiza.

Para quem está ingressando no mercado, ele dá uma dica: "As pessoas devem encarar essa área como nunca. Não só a arte gráfica, como também a ilustração e todos os recursos disponíveis para contar as histórias. O jornalista de hoje em dia não deve apenas saber escrever, mas também desenhar, pois a necessidade de novas formas de contar histórias é tanta que não são só as palavras que vão determinar se ele é ou não um bom profissional. É preciso que os profissionais saibam se expressar de outras maneiras", sugere.

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