Luiz Antônio Araujo: Com convicção

Foi a vontade de desenhar para imprensa que colocou Luiz Antônio Araujo no caminho do jornalismo

Por Karen Vidaleti - 19/07/2013
Do gosto pelo desenho, nasceu um jornalista. Foi o encanto pelas tirinhas, charges e histórias em quadrinhos que levou Luiz Antônio Araujo, 46 anos e hoje editor de Mundo de Zero Hora, a decidir pelo jornalismo antes mesmo de aprender a escrever. A opção pelo curso na faculdade, feita pela UFSM, foi mais concretização de uma vontade que havia sido expressa pelo menino ainda aos seis anos, segundo contava seu avô. Os suplementos dominicais e repletos de cores de jornais cariocas serviram de inspiração na passagem da família santa-mariense pelo Rio de Janeiro, no fim dos anos 70. Foi por essa época que decidiu ser chargista. "Queria desenhar como desenhava Malan, Caruso, já na época das revistas semanais. Como desenhava o Millôr (Fernandes), o Jaguar, o Ziraldo. Esses caras eram os meus inspiradores", revela.
Do desejo de colaborar com a imprensa ao envolvimento com o jornalismo político, o caminho seguiu ao natural. "Era um momento em que a crítica, a sátira política vivia um esplendor. Pensei: se é isso que quero fazer, tenho que entender sobre o que as pessoas estão desenhando." O primeiro jornal comprado com o próprio dinheiro foi pra ele "uma espécie de entrada na maturidade". Era a edição de O Pasquim, sobre a posse de João Figueiredo. Logo, revistas e recortes de jornais se tornaram itens colecionáveis - hábito que conservou por algum tempo. A presença de um jornalista na família, o tio Paulo Roberto Araujo, hoje professor na UFSM, também contribuiu para que seguisse pelo mesmo caminho. Partiram dele as indicações de autores como Erico Verissimo e Gabriel García Márquez. "Essas coisas todas se juntaram na minha vida para que o jornalismo fosse uma espécie de horizonte absoluto do qual eu não conseguiria escapar", analisa.
Mestre em Comunicação pela Ufrgs, hoje também professor na Univates, além de editor, é responsável pelo "Olhar Global", espaço de comentários em ZH. "Tenho a oportunidade de tratar de forma analítica as questões do dia e fazer isso diariamente é um tremendo desafio, uma coisa nova, um aprendizado surpreendente", define.
Da charge à reportagem
E não é que foi como chargista a primeira contribuição em jornal? Convidado pelo amigo Marco Antônio Mallmann, que criara a Folha de Candelária, passou a colaborar com o semanário. "Eu fazia uma charge, colocava no ônibus de linha e a charge chegava até Candelária, onde o Marco editava e baixava", lembra. Essa foi a única vez que tive a oportunidade de desenhar para jornal". Antes de chegar a Porto Alegre em 1990, ainda foi redator na Rádio Atlântida, correspondente do Correio do Povo e repórter do jornal A razão, em Santa Maria.
Hoje, considera-se um discípulo de uma escola: o jornal Zero Hora. Ele explica: "Tenho um colega, o Vinicius Vaccaro, que costuma dizer que existem jornais e existem escolas de jornais. Considero que a Zero Hora é uma, por tudo o que representa em termos de jornalismo diário no Estado". O envio da primeira dupla de repórteres a uma cobertura internacional em 1967 e a contribuição de nomes representativos para o cenário de comunicação - como Carlos Nobre, Cid Pinheiro Cabral, Ibsen Pinheiro, Luis Fernando Verissimo - são alguns pontos destacados por ele. "Todos esses aspectos do jornal me fizeram ser alguém que antes de trabalhar aqui já havia sido marcado pela maneira da Zero Hora de fazer jornalismo", afirma.
Como enviado especial, acrescentou duas coberturas marcantes à trajetória. A primeira delas, vivida em 2001, passou 29 dias no Paquistão, acompanhando os desdobramentos dos atentados de 11 de setembro. Foi um dos seis repórteres brasileiros enviados por veículos do País e o único em Islamabad no dia em que a guerra começou. A experiência deu origem ao livro "Binladenistão - Um Repórter Brasileiro na Região Mais Perigosa do Mundo".
A segunda aconteceu há dois anos, quando da crise no Egito que derrubou o ditador Hosni Mubarak. A cobertura do jornalista, no entanto, não acabou da melhor forma, uma vez que voltou ao País depois de ter sido agredido. "Naquele momento, não me dei conta, mas eu era parte de um fenômeno geral de ataque do regime que se esfacelava contra jornalistas", comenta, ao lembrar que, naquele período, mais de 100 jornalistas de países como Estados Unidos, Suécia, França e Espanha foram atacados em situações semelhantes.
Em família
Foi na cidade natal, o município de Santa Maria, que Araujo viveu até os 24 anos. E, embora tenha passado um período no Rio de Janeiro e se fixado em Porto Alegre nos anos 1990, ainda traz na fala um pouco do sotaque da cidade. Da infância vivida em cidade do Interior, guarda com carinho na memória os tempos de Colégio Centenário, no qual estudou da pré-escola até o ensino fundamental. "Ainda hoje há coisas sobre a minha maneira de ser, de enxergar, que penso que não herdei da minha família. Daí, percebo que veio da escola. Foi um lugar onde sempre tive muito incentivo para fazer o que gostava, só tenho lembranças boas".
Filho dos médicos Sirlei e Gilberto Araujo, é grato aos pais por todo o apoio recebido até hoje. "Duas coisas que meus pais nunca fizeram comigo foram: tirar um livro da minha mão e dizer "tu tens que seguir essa ou aquela carreira"", relata e, em seguida, acrescenta: "Meus pais são os meus melhores amigos". A eles, juntamente com a irmã, Ana Lúcia (professora de História em Washington), a esposa e os filhos, atribui parte da responsabilidade por tudo o que produziu de bom - faz questão de frisar e justifica, aos risos: "Não coloco a culpa neles pelo que faço de ruim."
Casado há 11 anos com a contadora Alessandra, diz que a distância entre as áreas de atuação dos dois não influi no relacionamento. "Brinco que eu sou contador de histórias e ela é contadora propriamente dita. Apesar da diferença do universo profissional, a gente consegue conciliar bem isso", garante. Pai de Lucas, 9 anos, e Tiago, 4, considera-se muito ligado aos filhos. "Não sei se eles se sentem totalmente assistidos, em função de tanto eu quanto a minha mulher trabalharmos bastante, mas procuramos dar a eles sempre o melhor do nosso tempo livre. Tenho muito orgulho deles".
Para curtir
É à família que Araujo gosta de dedicar a maior parte do tempo livre. Pode ser assistindo a um filme, em casa ou no cinema; em um passeio, ou no clube. "Tempo vago tem que ser aproveitado com qualidade e qualidade é estar com eles", sintetiza. Lazer também inclui destinar algumas horas à leitura ou ainda à ida a um restaurante, "sem nenhuma preocupação". Outra atividade simples, mas motivo de satisfação, é caminhar. Ver as pessoas, o mundo de perto é algo que o faz sentir-se parte do local, segundo conta. "Porto Alegre é uma cidade que adotei e da qual eu gosto muito. Quando passo muito tempo, normalmente por razões profissionais, andando de carro, fazendo a vida em quatro rodas, eu sinto que falta alguma coisa", explica.
Os momentos de lazer também são preenchidos com filmes e os preferidos são os dirigidos por grandes nomes do cinema como Ken Loach, Pedro Almodóvar, Steven Spielberg e Woody Allen. Ainda assim, não dispensa as produções de diretores menos conhecidos. Nesse quesito, um dos filmes assistidos recentemente foi o israelense "Nota de Rodapé", de Joseph Cedar. Apesar de o tempo ter passado, ainda mantém o gosto pelo desenho animado, paixão que compartilha com os filhos. Nesse caso, os mais escolhidos são os produzidos por animadores da Pixar, como "Universidade Monstros".
Na Literatura, não faz muitas restrições, mas confessa que o tempo é mais limitado para a ficção, o que, por vezes, reflete em um período de leitura intensiva. "Há alguns anos, ganhei de presente toda a obra do Roberto Bolaños, que nunca tinha lido. Fui atrás do tempo perdido", conta. Atualmente, ganham sua atenção obras sobre economia, teoria política e indústria do livro. "As coisas vêm. Não gosto de deixar pela metade e também não gosto de me condenar a ler um livro, mas acho que tenho escolhido bem", avalia.
Apenas fazer o que gosta
No mundo do jornalismo, José Hamilton Ribeiro é uma referência para Araujo. E não apenas pelo caminho traçado no jornalismo internacional, como correspondente de guerra, mas pelo trabalho de reportagem desempenhado ainda hoje, próximo dos 80 anos. "Outro dia, vi uma reportagem sobre os pântanos da Flórida. Jamais imaginei que assistiria uma reportagem sobre esse assunto com o encanto que assisti. Gostaria de ser como ele quando eu crescesse", ri.
Acredita que o jornalista deve ter a capacidade de entrar em um ambiente - seja um país, cultura, família -, ainda que o integre por completo. "Não há nenhuma matéria que eu tenha feito, nenhuma reportagem, em nível local ou internacional, em que eu tenha me sentido plenamente parte daquilo. Acho que o jornalista tem que ser alguém um pouco deslocado, que tenha empatia e olhar para aquilo que está testemunhando, mas, ao mesmo tempo, não seja simbiótico com relação ao que cobre."
A dedicação e a capacidade de concentração são algumas características da personalidade de Araujo, que lamenta ser "exclusivo demais" em alguns momentos. Isso porque gostaria de dividir melhor o tempo. Entre os planos para os próximos anos estão continuar aprendendo e trabalhando com o que gosta. O jornalista que fala inglês, francês e espanhol quer concluir a formação em língua árabe e também aprender alemão. Escrever uma reportagem gráfica, em formato de livro, é outra tarefa que pretende cumprir. Segundo ele, uma forma de unir as origens e a admiração pelas artes.

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Luiz Antônio Araujo | Crédito: Adriana Franciosi


 

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