Maicon Bock: Vai, que vai dar certo

De repórter a editor, o jornalista agregou experiências e assegura que relacionamento é a chave para o caminho

Caixa de sapato era câmera de vídeo. Socador de caipirinha era microfone. Caderno era jornal. "Decidi ser jornalista aos 10 anos de idade", explica Maicon Bock, que, hoje, é editor-executivo do Metro Jornal. Com 36 anos, considera-se jovem para a função, mas garante que aprendeu a lidar com as demandas do cargo. Além de cuidados com o conteúdo do impresso e a coordenação de uma equipe de cinco profissionais, exige atenções para a distribuição de anúncios, para as questões financeiras e para a organização do transporte de repórteres, entre outras várias situações da rotina de uma redação.

Escrever sempre lhe agradou e o grande incentivo para seguir na área foi ainda na escola, quando um professor publicou seu texto para todo o colégio. "Foi a primeira forma de alguém ler uma produção minha em escala maior", relembra. A partir daí, foi natural escolher o Jornalismo, essencialmente o impresso. Ainda na infância, também foi diretamente influenciado pelo programa de TV 'Aqui Agora', do SBT, "pois ficava impressionado com a coragem dos repórteres. Via eles quase como super-heróis". Hoje, já não é adepto daquele tipo de jornalismo, o qual considera policialesco e sensacionalista. Seu objetivo, agora, é trabalhar sempre pensando no melhor para Porto Alegre e seus cidadãos, valendo-se da proposta do Metro, cujo foco é o localismo.     

Correndo atrás

Considera-se tímido, mas garante que melhorou, e muito, devido a uma experiência em telemarketing enquanto cursava faculdade na Unisinos, em São Leopoldo. Lembra que, naquela época, aprendeu a falar bem ao telefone e desenvolveu o poder da argumentação. No entanto, trocou o emprego que oferecia uma boa remuneração para um estudante por um estágio na assessoria de imprensa da prefeitura de Sapucaia do Sul, onde morava com os avós, pois os pais, Elpídio e Bernadete, viviam em Terra de Areia.

No estágio, aproveitou para fazer contato com colegas jornalistas da região, o que o ajudou nas futuras oportunidades. Foi assim que conseguiu ingressar nos três jornais pelos quais passou antes de chegar ao Metro. No VS, do Grupo Sinos, por exemplo, ingressou graças a uma indicação da repórter Sônia Betinelli, e começou lá em 20 de dezembro de 2004, como repórter em São Leopoldo, experiência que acredita ser simbólica, pois foi sua estreia no jornalismo impresso. Não durou muito. Oito meses depois, deixou a empresa para começar uma nova vida na Capital.

Vou pra Porto Alegre, tchau

Um antigo relacionamento o trouxe para a capital gaúcha em 2005, mesmo ano em que passou a integrar o time de repórteres do Correio do Povo. Destaca a sorte que teve no teste: enquanto ele precisou escrever sobre restauração de livros na Biblioteca Pública do Estado, a concorrente teve a difícil tarefa de abordar a situação indígena no município. Em uma hora e meia, enquanto já estava entregando o material pronto, a colega recém havia contatado uma das fontes. "Agilidade era uma característica essencial para o jornal", recorda.   

Pelo impresso do Grupo Record, fez diversas viagens, inclusive foi uma pauta que proporcionou sua primeira vivência internacional, quando viajou ao Paraguai. O namoro acabou em 2008, assim como a passagem no veículo. Querendo tomar novos rumos, resolveu tentar uma chance em Zero Hora. Mais uma vez por indicação, foi conversar com Diego Araujo, atual editor-chefe do Diário Gaúcho. Uma semana antes da entrevista, seu nome estava na boca do mercado devido a uma matéria que ganhou notoriedade no CP dominical sobre compra de diploma falso no Centro de Porto Alegre.

Sem possibilidade de ser contratado, arriscou o trabalho temporário e ri ao contar sobre como tomou a decisão. Na época, a, hoje, ex-sogra tinha um tarô e jogou as cartas para ele: "Vai, que vai dar tudo certo", disse ela. Influenciado mesmo sem acreditar muito, foi. Com as contratações congeladas em ZH, trabalhou como freelancer por cerca de nove meses. Até que um dia, quando estava no ônibus, recebeu uma ligação de Araujo avisando sobre a possibilidade de efetivação. "Desci do coletivo e chorei de emoção", conta. Dois mil e nove foi um ano marcante, com mudanças na vida pessoal e na profissional, quando, solteiro e com emprego novo, dedicou-se inteiramente à ZH. No ano seguinte, ganhou até uma página especializada na cidade e região.     

Olha o Metro na área

O empenho de Maicon chamou a atenção de Leonardo Meneghetti. O então diretor-geral do Grupo Bandeirantes no Rio Grande do Sul convidou o repórter para assumir como editor-executivo no Metro Jornal, que estava recém chegando à Capital, em 2011. Sem se considerar preparado para a responsabilidade, propôs ser subeditor, pois queria muito participar do projeto. "Foi a melhor coisa que me aconteceu", sentencia. Acabou por assumir a função principal 12 meses depois, com a saída de Flávio Ilha, que havia sido chamado para o cargo de editor. Sua estreia coincidiu com a tragédia na Boate Kiss, em Santa Maria. "Foi difícil, pois temos limitação de espaço no jornal e uma equipe enxuta, mas conseguimos e nosso material foi usado nos Metros de todo o Brasil."

Assegura que se sente completamente realizado no âmbito profissional. Acredita na importância de ter sido repórter, por saber o que este profissional enfrenta, desde passar o dia todo no sol, acompanhar comício, ir para o meio do mato. "Isso tudo marca e é importante para ser editor." É saber que se perde tempo em deslocamento para as pautas, entender que a fonte nem sempre atende ou não responde, e que todos passam por problemas pessoais. Tanto é que Valter Júnior, responsável pelo Esporte do Metro, vê em Maicon seu melhor chefe. A dupla trabalha junta desde o início do impresso e o jornalista aponta a tranquilidade e a paciência como as principais características do gestor. "Em todos esses anos, não lembro de ter tido algum tipo de estresse com ele."

Jornalismo voluntário

Enquanto estagiava na prefeitura de Sapucaia do Sul, lembra que acompanhou a interdição de um asilo por questões precárias. A situação o incentivou a fazer um trabalho voluntário com idosos. Ir atrás do objetivo foi natural, uma vez que, naquela época, morava com os avós maternos Aristides e Ercília, já falecidos. Por isso, dedica-se, desde 2005, ao Asilo Padre Cacique, na capital gaúcha, do qual se tornou conselheiro dois anos depois.

Lá, conheceu o seu Hermínio D'Andrea, um jornalista com quem passou a produzir um jornal interno para a entidade. "Me encontrei, pois era um trabalho voluntário com idosos no qual eu fazia o que mais gostava: jornalismo", diz Maicon, sobre o material que foi produzido todos os meses durante três anos seguidos. Seu Hermínio assinava uma coluna e Maicon fazia fotos e escrevia matérias, sempre buscando pautas positivas, tentando levar coisas boas para os que lá estavam internados, além de dicas sobre tratamentos e doenças.     

Próximo destino: litoral

Caseiro, adora curtir os momentos na casa da Zona Sul da Capital, onde mora há um ano com o marido, o comerciário Lucas. Casados desde março de 2016, o relacionamento começou exatos 12 meses antes. Enquanto não têm filhos - um projeto para daqui a uns três ou quatro anos - cuidam, juntos, dos cachorros Luke e Buck, e dos gatos Mag e Max. Jantares para os amigos são os programas preferidos, mas logo avisa que quem vai para a cozinha é o companheiro. Quando o casal opta por um passeio externo, a escolha é sempre restaurante japonês, embora o nhoque da mãe também esteja na lista dos pratos prediletos.

O irmão mais velho de Jaqueline, 34 anos, e de William, 29, que também moram em Terra de Areia, quase não liga a TV em casa, apenas para assistir a algum filme. Prefere ouvir música, com destaque para produções internacionais, como os ingleses Ed Sheeran e Adele, mas a playlist também tem espaço para cantores latinos, como Enrique Iglesias. A leitura faz parte dos momentos de lazer, com preferência para obras de gestão. Na cabeceira, está o livro 'O Poder do Agora', de Eckhart Tolle. Conteúdos voltados à espiritualidade entram na lista, visto que é adepto da doutrina espírita, mesmo tendo sido criado na Igreja Católica. Acredita em um ser superior e diz que vive em busca de fazer o bem e ser ético.

Brinca que tem como meta conhecer 100 países, "depois posso partir dessa pra melhor". Até agora, viajou para oito nações, "só faltam 92". Para ele e para Lucas, viajar ajuda a recarregar as energias e a dupla sempre opta por destinos litorâneos, mesmo que em locais frios, como Ushuaia, na Patagônia Argentina. O mais importante para eles é estar perto da água. Maicon até levanta a possibilidade de, no futuro, desacelerar o ritmo e, por que não, mudar-se para a praia.

Um cara predestinado

Colorado por influência do pai, lembra que na adolescência acompanhava tudo sobre esportes. Aos 12 anos, chegou a pedir a assinatura do Correio do Povo para ler notícias da área. Em casa, sempre que assistia aos jogos, fazia textos como se fossem as reportagens que sairiam no dia seguinte no jornal e, sem imaginar, já fazia as vezes de diagramador quando recortava imagens dos impressos, colava em cadernos e escrevia título e linha de apoio. No outro dia, comparava seu trabalho com o que saía no veículo.

Aos domingos, pegava a lista de jogos do final de semana, acompanhava os placares e, quando terminava a partida, montava a tabela de classificação para entregar ao pai. O jogo virou e, atualmente, não dá mais bola para futebol. Mesmo na hora de pensar no Maicon longe do trabalho, nota-se que o Jornalismo faz parte de sua essência, pois acredita que tudo na vida o conduziu para seguir na carreira, desde as brincadeiras de infância. "Todo mundo sabia que eu queria ser repórter. Sou predestinado para isso."

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