Maurício Saraiva: O jornalista do samba

Comentarista da RBS TV, Maurício Saraiva revela que foi o "pior produtor do mundo"

Maurício Saraiva - Reprodução

Por Juliana Freitas, em 06/06/2014

Radialista, apresentador, colunista e comentarista são algumas das funções daquele que já se identificava na voz dos comentaristas dos jogos que ouvia com o pai, através de um pequeno rádio. Desde muito cedo, Maurício Saraiva sabia exatamente o que gostaria de ser quando crescesse. Ele cresceu, sonhou e hoje é considerado um dos destaques entre os jornalistas esportivos do Estado.

Filho de pai bancário e mãe secretária, revela que o patriarca da família, José Mauro Saraiva, também teve o sonho de trabalhar no mundo do jornalismo esportivo, quando fez um teste, ainda na década de 1970, para ser radialista na Rádio Guaíba. "Ele não conseguiu passar e ofereceram uma vaga de repórter esportivo. Mas não aceitou porque o salário ainda era menor do que ele recebia no Banrisul e, como tinha dois filhos já para criar, não arriscou", conta.

Formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC) desde 1986, Maurício admite que seu maior defeito seja o da pouca tolerância, principalmente com os erros. "Não com qualquer erro, afinal, errar é humano. Mas com aqueles que podem ser evitados e que deixam claro que foram cometidos por desleixo", explica. Em contrapartida, o jornalista é muito direto. "A espontaneidade te proporciona carisma e credibilidade. Nada que eu faço é armado."

Emoção no Maracanã

A ideia que Maurício tem sobre os iniciantes e o mercado de trabalho é: 'não escolha vaga para entrar no mercado. Vá e entre'. E foi exatamente assim que iniciou sua carreira. Começou em 1986, na Rádio Guaíba como ele mesmo se intitula, 'o pior produtor do mundo', tendo Flávio Dutra como chefe. "Eu não fazia corpo mole, mas também não me esforçava para ser um bom produtor. Eu não gostava. Eu sempre deixei claro para o Flávio que o que eu queria era microfone", afirma.

Foi na Bandeirantes, em 1987, que Maurício realizou suas primeiras reportagens na beira de campo, viajou pela primeira vez de avião e pisou no Maracanã. "Tenho uma carinho especial pela Band, por tudo o que ela me proporcionou", diz o comentarista. Permaneceu na empresa até 1990, quando o Departamento de Esportes encerrou suas atividades, provocando uma demissão em massa dos profissionais do setor.

Maurício ainda teria uma segunda passagem pela Band, entre 1994 e 1996, onde participaria de programas de rádio e televisão, de âmbito nacional. No rádio apresentava o programa 'Pulo do Gato', na Band AM. Também participava do 'Fórum Bandeirantes', programa realizado dentro da Federasul, e que deu ao comentarista dois prêmios Sebrae de Jornalismo Econômico.

Tabelinha Band e Guaíba

Na televisão o jornalista tinha entradas ao vivo em rede nacional no programa do meio-dia da TV Bandeirantes e no 'Apito Final', apresentado aos domingos à noite pelo jornalista esportivo Luciano do Valle, vítima de um enfarto em abril passado. "Foi aí que eu comecei com TV e misturar jornalismo com esporte, que é o que eu adoro fazer", conta.

Na primeira saída da Bandeirantes, em 1990, Maurício voltaria para a Rádio Guaíba, segundo momento especial para ele, onde viveu e cobriu grandes acontecimentos da época. "Tive a oportunidade de acompanhar o julgamento de Dexheimer (Antônio Carlos, deputado acusado de matar o jornalista e colega político José Antônio Daudt) e a defesa singular do advogado Oswaldo de Lia Pires", lembra.

Foi na emissora também que o jornalista realizou o primeiro 'furo' de reportagem. Na Eco 92, no Rio de janeiro, testemunhou a repressão dos guardas da ONU contra um participante sul-africano que estava protestando dentro do Riocentro, espaço onde estava ocorrendo o evento. Acabou sendo o único jornalista a testemunhar e relatar ao vivo na Rádio Guaíba, através de um orelhão, o que estava acontecendo.

Jornalismo esportivo

A fase jornalista geral de Maurício durou até 1994, quando ele saiu da Rádio Guaíba e retornou à Band, marcando sua segunda passagem pela emissora, até 1996. Nesse mesmo ano, seria convidado para fazer parte do Grupo RBS, ancorando um programa na CBN. Também integrava a parte esportiva do Jornal da RBS, além da apresentação do Tvcom Esportes. "Acabei parando com a CBN, porque a carga de televisão estava demais", lembra.

Na Copa Coreia do Sul/Japão, em 2002, Maurício foi o correspondente especial da Tvcom. Antes de ir, ficou acordado que, quando o jornalista retornasse, a função de repórter seria deixada e ele se tornaria comentarista. Hoje ensina que quando se torna o opinador do canal aberto, "tem que ter comedimento, não falar como se estivesse em um bar. Tem que haver um cuidado maior para que não diga mais do que quer, nem menos do que deve".

A partir daí, a carreira do jornalista soma comentário e apresentação nos programas da RBSTV e Tvcom, além das participações em atrações de âmbito nacional, como Bem Amigos e Arena, do Sportv. Além das atividades em TV, alimenta um blog e participa do jornal Zero Hora como colunista em eventos especiais, como a Copa do Mundo. "Aliás, coluna é algo que tenho vontade de fazer com mais frequência", revela Maurício.

Em relação ao Mundial no Brasil, o comentarista admite que é 'estranho' para ele, pois desde o princípio acreditou que trabalharia mais perifericamente, diferente das outras Copas. Desta vez, fará transmissões para a Rádio Gaúcha, na primeira fase, terá a coluna nas quintas na Zero Hora, manterá o blog, entrará no RBS Notícias com informações sobre o evento, além do 'Conexão Copa', na Tvcom, das 9h às 9h30, e "também fora o que aparecer", revela.

Samba e história

Maurício ainda guarda a paixão pelo samba, que conseguiu unir com o jornalismo em um quadro do Globo Esporte, da Rede Globo. Desde 2002, apresenta o Carnaval de Porto Alegre. Já teve um programa de samba nas rádios Cidade e Metrô, mas abriu mão devido aos horários, que não estavam fechando com os compromissos na TV. "Era uma delícia de fazer. Eu me divertia muito", diz. Para compensar, criou o Botequim do Maurício, que apresenta convidados torcedores da dupla Grenal, sempre acompanhado de um grupo de samba. O samba também foi o responsável por aproximar o jornalista da esposa Aline Porciuncula da Silva, com quem está casado há nove anos.

Sério e comprometido com o trabalho que realiza há 18 anos na RBS, Maurício tem como referência de comentarista o jornalista João Saldanha, mais conhecido como João Sem Medo. "Ele se comprometia com o que pensava. Prefiro tomar uma crítica do público, que me diz 'mas tu falou que ia ganhar tal, e ganhou o outro'. Sim, eu sou pago para fazer projeção, não para dar palpite, nem arriscar. Se eu disse que ia ganhar 'X', é porque eu projetei isso. Se não ganhou, é porque é um jogo, é o esporte. Mas me comprometi com o que eu pensava", ressalta.

Brinde ao futebol

Entre tantas situações que já passou, Maurício destaca uma, ocorrida na Copa do Mundo da África, em 2010. Hospedados em uma casa, que havia sido adaptada como hotel para receber a equipe do Grupo RBS, viram o proprietário do local ser preso e, durante três dias, quem teve que administrar o hotel foi o pessoal da empresa gaúcha. "Ele era extremamente racista, apesar de ser casado com uma negra. Quando foi preso, tivemos que tomar conta cuidando da comida, lavanderia e afins", conta.

O pior da história ficou por conta de o homem estar vestindo um casaco da RBS, já que ele prestava serviço como motorista para a equipe. "Quando ele voltou, peguei o casaco de volta e não deixei mais usar", conta Maurício, achando graça da situação.

Quando o assunto é time de preferência, Maurício deixa claro que, depois que começou a trabalhar na área de jornalismo esportivo, a preferência pessoal passou a não ter mais importância. Segundo ele, no mercado gaúcho, revelar o time para que se torce é um risco desnecessário. "Bastou entrar no jornalismo esportivo para que meu trabalho ficasse muito mais importante do que a vitória de quem quer que esteja em campo. Hoje, permito-me admirar e de alguma forma 'torcer' para times que me brindem com bom futebol."

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