Nilson Vargas: Em busca do melhor, sempre

Com quase 30 anos de carreira, Nilson Vargas diz que a trajetória foi marcada por "movimentos circulares"

Nilson Vargas - Divulgação

A timidez inicial esconde, em primeiro momento, o cara bem-humorado que Nilson Vargas é. Aos poucos, o jornalista consegue dar sorrisos, fazer brincadeiras e tirar sarro de si mesmo. Como faz quando lembra que, na juventude, dedicou-se ao futebol de salão (atual futsal). Atleta? "Felizmente, não segui adiante. O mundo perdeu um mau jogador, mas ganhou um jornalista esforçado", responde o editor-chefe de Zero Hora. Aos 45 anos, revela-se um sujeito simples, que adora a família e a cidade natal, Santa Maria. Quando começa a resgatar a trajetória faz outra brincadeira, quase uma constatação: "Sou prolixo. Vamos ver no que vai dar". A precisão de datas, a lembrança dos colegas e de suas funções em cada experiência mostram o contrário.

O menino do interior, formado pela Federal de sua cidade, desbravou alguns estados brasileiros, traçando a caminhada em meio ao que chama de "movimentos circulares", em referência às diversas passagens por empresas do Rio Grande do Sul, de São Paulo e de Santa Catarina. Os quase 30 anos de profissão fazem com que Nilson garanta que nunca teve a mais remota dúvida de que seria jornalista. Quando criança, os primeiros textos foram a certeza de que se dava bem com as palavras. "Acho que nunca deixarei de ser um rato de redação. Gosto e me realizo com isso", diz.

Formado em 1990, mas atuando em Comunicação desde 1984, Nilson trabalha no Grupo RBS há 10 anos. O desafio - ou como gosta de chamar, sua "diversão do momento" - é conduzir o jornal Zero Hora integrando as versões impressa e digital. Feliz com a nova missão, ele diz sentir-se realizado, mas alerta que ainda há "um milhão de coisas para fazer". Atuar no campo acadêmico, por exemplo, pode ser uma opção, motivada pelo respeito e pela admiração que sente por professores. Aliás, chegou a ter uma experiência por um ano, na década de 1990, ministrando aulas de redação na Univali, de Itajaí. O sonho não tem previsão para ser realizado, pois enquanto a redação suprir a vontade infinita de trabalhar com Jornalismo vai permanecer no que faz.

As Santas, Maria e Catarina

Em Santa Maria, Nilson trabalhou na rádio Medianeira, no semanário O Expresso (já extinto) e no jornal A Razão. Isso quando ainda estava na faculdade. Dos tempos acadêmicos, aliás, recorda o ritmo frenético e diz que, nesta época, surgiram os primeiros sinais de quer seria "um maluco por trabalho". "Com toda a intensidade de estudar e trabalhar, acabei fazendo algumas acrobacias", reflete, para em seguida contar uma delas. Após mudar-se para Santa Catarina, não queria perder a faculdade. Fazia uma cadeira apenas, então saía de Joinville direto para aula na UFSM e, de noite, voltava para casa. A relação com Santa Maria foi sempre tão forte que, mesmo alguns anos longe, em meados de 2002, conseguiu voltar, mas, dessa vez, para exercer o Jornalismo com bases profissionais, no Diário de Santa Maria. "Fiz o que muita gente tem vontade, mas não consegue, que é retornar para a cidade de origem. Voltei em lua de mel com Santa Maria, com vontade de retribuir à cidade tudo que ela me proporcionou."

Em Santa Catarina, o começo foi no jornal A Notícia, veículo que saiu e voltou mais duas vezes ao longo do caminho. Também teve, nesta trajetória, a Revista Amanhã. Era correspondente e chegou ao cargo de editor-executivo, dividindo sua vida entre o estado vizinho e Porto Alegre, sede da publicação. "Gosto muito das pessoas que conheci na revista. Eugênio Esber, por exemplo, é uma referência em texto, em clareza e no cuidado em transmitir as informações", elogia. Para encerrar a caminhada em Santa Catarina, atuou ainda no Diário Catarinense.

Na terra da garoa

Ainda dentro de seus "movimentos circulares", teve duas passagens por São Paulo, em áreas completamente diferentes. Mesmo considerando-se um homem de jornal impresso, Nilson se deu a chance de experimentar o outro lado do balcão, e foi atuar como assessor de imprensa. Era 1990 quando ele trabalhava na Matriz Comunicação (empresa catarinense) e foi transferido para São Bernardo do Campo, para atender à conta da Brastemp. "Foi muito importante ganhar bagagem nessa área durante sete anos. Aprendi a ter diplomacia nos relacionamentos e conheci a estrutura de uma empresa de comunicação empresarial." Foi também na terra da garoa que o jornalista cursou sua Pós-Graduação em Teorias da Comunicação.

Entre idas e vindas, em 2000, surgiu o convite para atuar na revista Veja, o que o fez retornar para São Paulo. Dessa vez, no cargo de subeditor de Economia da publicação, passando, em seguida, para editor do portal Veja.com. Não se arrepende da experiência, mas revela que relutou para aceitar a proposta. E não por prepotência, como faz questão de salientar, mas por ressalvas em voltar para São Paulo, pois alimentava uma relação de amor e ódio com a cidade. A resposta positiva o fez aprender uma lógica nas decisões: "É quase uma equação matemática. Pense no dia seguinte. Se achares que, não aceitando, o dia será monótono ou de potencial arrependimento, aceite. Agora, se achares que o convite pode oxigenar a atual atividade, negue. É uma conta de mais e menos". Na sua fração, o resultado foi positivo.

No caminho profissional, um tanto quanto nômade, o jornalista também teve passagem por Porto Alegre, e não apenas quando editava a revista Amanhã. Em 2005, assumiu como diretor-executivo da Agência RBS, atividade que durou menos de um ano. Há pouco, em março de 2012, fixou residência mais uma vez na capital gaúcha, uma cidade que Nilson diz querer "voltar a conhecer".

O menino do interior

Mesmo focado em se adaptar às novas atividades de editor-chefe, Nilson se permite alguns lazeres. Um deles é retomar as raízes com Santa Maria. Visitar a casa da mãe, Marly, é ter a certeza de um cardápio preparado especialmente a pedido do jornalista: guisado de batata. Retornar à cidade, aliás, também remete a algumas lembranças de infância. Jogar futebol na rua, de pé no chão, fazendo os chinelos de goleira. Tomar banho de chuva. Andar de bicicleta. Hábitos que fizeram a fase do menino do interior ser muito feliz. "Quando olho para a rua onde fica a casa da dona Marli, penso: 'Como será que eu conseguia jogar aqui e não sair destruído?'. Acho que as gargalhadas mais intensas são dadas ainda na infância", recorda.

O terceiro filho de uma turma de quatro homens - Sérgio, Flávio e Marcelo são os irmãos - lembra de alguns anos atrás e diz que teve três pais durante a juventude: o biológico, o ferroviário Nilson; o padrasto , Álvaro, com quem viajou pelo Brasil na boleia de um caminhão; e o irmão mais velho, Sérgio. "Ele é um cara de quem tenho orgulho. Alguém que, mesmo com qualquer dificuldade, sorri da mesma forma de quando éramos crianças", elogia, para em seguida explicar que sempre viu na família muita espontaneidade. "Foi com eles que aprendi que não é possível sair vitorioso sozinho", conclui.

O pai, o homem

Em Porto Alegre, o prazer de Nilson é caminhar pelos arredores do bairro onde mora, Menino Deus. "Acordo cedo, apesar de dormir tarde. Após ler jornal e verificar emails, estou conseguindo desbravar a cidade novamente." O futebol, que sempre foi o esporte favorito, está um pouco de lado. "Nem minhas agressões à bola estou conseguindo fazer. Ainda é um processo de adaptação", reconhece. As livrarias também são locais que o fazem se sentir bem. O último livro de cabeceira foi 'A estrada', de Cormac Mccarthy, que fala da relação de proteção do pai com o filho, em um cenário de um mundo devastado. "Me ajudou a entender o meu papel com os meus filhos."

Estado civil? "Estou separado da minha melhor amiga", diz, ao citar seu relacionamento com Glaucia, mãe de seus dois filhos. Mateus, de 18 anos, mora sozinho em Santa Catarina, e Bruno, 10, vive com a mãe, em Santa Maria. A saudade, admite, é enorme e a distância é compensada com a qualidade e a intensidade dos momentos juntos. O orgulho em ter o mais velho cursando Jornalismo faz os olhos do pai brilharem. "Se ele foi para esta área, é porque deixei bons exemplos profissionais". E diz mais: "Adoro meus filhos. Eles são a minha referência e é por eles que tudo isso vale a pena".

O filme Cinema Paradiso, de 1988, dirigido por Giuseppe Tornatore, é considerado marcante pela identificação que tem com a trama. A obra, inclusive, fez parte de um trabalho dos tempos de faculdade. Ele recorda que viu o filme ao lado de colegas e que, ao final, não conseguia debater o assunto: "Só chorava", conta rindo, ao lembrar que já estava longe de casa há algum tempo. No quesito música, é enfático: gosta de MPB. Mais especificamente Chico Buarque e Tom Jobim. As preferências, aliás, são compartilhadas com Mateus, que toca violão e tem grande conhecimento na área musical.

Acreditar no que faz

Nilson pode ser considerado um otimista no trabalho e na vida. Dizendo-se alguém permanentemente insatisfeito e inquieto, ele se cobra bastante e é intenso em tudo o que faz. E isso tudo tem um motivo: "Acredito no meu trabalho e tenho noção da importância dele. O jornalismo impresso é absurdamente importante na disseminação das notícias, por isso é que procuro sempre fazer o melhor". O trabalho e a vida pessoal se misturam bastante quando o assunto é falar de si próprio, pois, quando o faz, a referência é sempre aos demais. A premissa principal é ligada à equipe: "Não vai ser bom para mim, se não for bom para todos que estão comigo".

Por ser um cara dos bastidores e gostar de atuar nas bases das empresas, e nunca na linha de frente, Nilson afirma que toda redação precisa dos dois tipos de profissionais, os que conduzem e "as estrelas". Também garante que não alimenta nenhum tipo de frustração por não ter sido um desses astros.

O estilo de vida simples foi construído como "uma herança de família", pois acredita que a palavra verdade foi um dos grandes valores aprendidos com os pais, algo que carrega até hoje. A sinceridade não é praticada apenas nos relacionamentos, mas com ele mesmo: "Quando percebo que estou andando em círculos e que já não contribuo mais na minha função, é sinal de que está na hora de mudar", conta. Só tem uma coisa que não vai mudar nunca: "Ser jornalista é minha impressão digital e é assim que quero continuar. Este sou eu".

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