Ricardo Cunha: Herança de família

Coordenador dos cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Produção Multimídia da Fadergs conta como migrou do rádio e da TV para a sala de aula

Ricardo Cunha - Reprodução/Arquivo pessoal

O jornalista, professor e coordenador dos cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Multimídia da Fadergs, Ricardo Ramos Carneiro da Cunha nasceu em 28 de janeiro de 1964, em Santa Maria. Foi lá que cursou todo o ensino fundamental e médio, porém, sempre teve aquela ideia de um dia sair de casa. Prestou vestibular para Direito, mas não passou, então, decidiu fazer Jornalismo em Porto Alegre. "Sempre dizia para o meu pai que, se ele veio de Porto Alegre para estudar em Santa Maria, eu faria o caminho inverso", relata.

Formou-se na Famecos, da PUC, em 1986, época em que também foi monitor de algumas disciplinas na faculdade. "Não estagiei, mas fiz monitorias científicas e desenvolvi algumas das minhas qualidades como profissional da comunicação dentro da universidade", explica. Participou do projeto Caras Novas, da RBS TV, em 1985; entretanto, seu primeiro emprego foi na Rádio Pampa. De volta ao Grupo RBS, dessa vez, pela Gaúcha, onde ficou por 15 anos. Passou pela editoria de Geral e, logo em seguida, migrou para o Agronegócio, também fazendo reportagens para o programa Campo e Lavoura. "A rádio foi a minha grande formação profissional no jornalismo", orgulha-se. Indicado por ninguém menos que Armindo Antônio Ranzolin, ainda fez parte da equipe de lançamento do Canal Rural, com Raul Costa Júnior.

Chegou a trabalhar nos veículos simultaneamente. Entrava às 6h na TV para fazer a primeira edição do telejornal do Canal Rural, ancorado por Porto Alegre, Brasília e São Paulo, e, depois, seguia para a rádio, onde ficava até às 19h. Além das escalas aos finais de semana. "Era uma carga horária muito puxada e exaustiva. Tanto é que chegou uma época que o meu salário começou acumular na conta e eu procurei o Raul na TV, para dizer que precisava sair, pois não estava conseguindo usufruir do que estava recebendo. Não estava mais vivendo", desabafa.

Então, ficou somente na Gaúcha fazendo, em paralelo, alguns trabalhos para a Farsul e Massey Ferguson. Além disso, foi correspondente da rádio do governo norte-americano Voz da América por três anos. Em 2000, foi convidado a voltar para o Canal Rural, no qual permaneceu até 2014.

Foram quase 30 anos de redação e RBS até que resolveu fazer mestrado. O motivo era procurar novas oportunidades. Surgiu, então, um processo seletivo para a Fadergs. "A diretora acadêmica da Fadergs, professora Cristina Rocha, apostou em mim, sem eu nunca ter dado aula, mas ela acreditou que eu faria uma carreira. Ela foi muito importante nesta minha formação. Foi quem abriu este universo do meio acadêmico para mim", comemora. E, assim, divide-se entre a sala de aula e a coordenação dos cursos.

De pai para filho

O filho do meio do médico e professor Thomaz Antonio Carneiro da Cunha e da dona de casa Olíra Ramos da Cunha foi "picado pelo bichinho do ensino", assim como o pai, que, além de clinicar, até 2018, foi professor na Universidade Federal de Santa Maria por quase 30 anos. "Meu pai passou no vestibular para Medicina na Ufrgs, mas foi para Santa Maria e, lá, foi aluno da primeira turma da cidade", comenta. 

O gosto pelos estudos, ele traz da infância, assim como as boas lembranças da vida no Interior. "Sempre gostei de ler e estudar. Uma memória que é recorrente na minha vida é o meu tempo de escola. No Colégio Centenário, que tinha uma linha educacional metodista, e participávamos de umas assembleias culturais. Muito da minha formação é por conta disso. Desde o respeito ao professor, a educação, interesse pelo ensino", relata.

Também lembra as brigas com o irmão mais velho, Cláudio, por disputa de espaço. Ainda, recorda como os dois protegiam o caçula Fernando. É com brilho nos olhos que Ricardo destaca o núcleo familiar consolidado. "Temos uma união familiar muito forte, com pai, mãe e os três filhos. Estamos sempre nos falando, trocando ideias. Sempre tivemos muita parceria. Esta é uma baita herança familiar."

Trabalhando nos dias de folga

Em um relacionamento de mais de 20 anos, revela que, atualmente, o que mais tem feito nos dias de folga é trabalhar. Recorda que não trabalhava tanto no tempo de redação quanto faz no ensino. São muitas demandas, que exigem atividade extraclasse, como preparação de aulas, atividades de coordenação, informação. Nas horas de lazer, o tempo é mesmo ocupado pela informação, seja assistindo aos telejornais e programas de entrevista, seja lendo impressos ou escutando rádio.

Tem pensado em retomar atividades como cozinhar, jardinagem e viagens, pois sabe que não pode viver só para o trabalho. Antigamente, adorava cuidar do jardim do sítio onde mora em Viamão, mas, hoje, confessa, a responsabilidade do local é de um casal de caseiros. "Eu tinha arvoredo, pomar e horta. Acho que este contato com a terra é um canal interessante para fazermos uma troca de energia", acredita.

Não se imagina em outra profissão e diz que sempre foi - e ainda é - feliz no jornalismo. Até pensou em ser médico por influência de Thomaz e chegou a estudar para Medicina, mas logo percebeu que era muito mais um desejo de ter a mesma profissão do pai. "Ele sempre foi um médico muito preocupado com a parte social, em atender às pessoas que precisavam sem cobrar, e isso sempre me encantou. E essa necessidade que eu tinha de trabalhar o lado social consegui realizar no Jornalismo", confidencia. 

Perfeição e lealdade 

Considerando como defeito ser perfeccionista, explica que precisa parar de pensar que só ele sabe fazer as coisas e deve compartilhar, até porque o mundo, hoje, é colaborativo e cooperativo. Já as qualidades destacadas são a lealdade e a honestidade.

Torcedor do Internacional, Ricardo gosta de assistir, eventualmente, às partidas do time, pois vem de uma família que cultiva muito o esporte e o amor pelo Colorado, mas garante que não é fanático. Quando era adolescente, integrou, por um período, o time de basquete do Corinthians de Santa Maria. A facilidade com a modalidade se deu por sua altura, conforme conta. Na juventude, também praticou natação; contudo, confessa que praticava esportes somente porque sabia da importância disso para se desenvolver, pois não era muito fã. "O meu negócio sempre foi mesmo estudar", pontua.

Confessa que é católico mais pela fé e adianta que não exclui outros cultos, tanto é que se interessa pelo espiritismo e pelas religiões afro-brasileiras, que é onde busca proteção. Ocasionalmente, vai à Igreja Santa Teresinha, no Bom Fim. "Não vou com muita frequência, mas sempre que estou pelo bairro, faço uma oração. Me sinto bem e protegido e é isso que vale."

Entre os hobbies, estão caminhar, passear e conhecer lugares diferentes, mesmo dentro da cidade. Para ele, não precisa, necessariamente, viajar, pois sempre tem algum lugar para se descobrir em Porto Alegre. "Pode ser um restaurante, um café, um bar, uma praça. Gosto destas coisas", descreve. 

Hoje, a literatura que domina os seus dias é a acadêmica, em função do trabalho. Porém, gosta de leituras de revistas e jornais físicos. "Sou meio antiquado, eu sei, mas prefiro o papel. Comprei leitor digital, no entanto, não há nada como poder rabiscar no papel". Já no que se refere às músicas, diz que é bem eclético. Gosta de tudo o que toca no rádio. "Não tenho este ranço com sertanejo ou funk. Claro que não vou ouvir o tempo todo, mas escuto na boa. Gosto do que está tocando na hora, e se, naquele momento, não estiver do meu gosto, troco ou desligo o aparelho." Os filmes são aqueles que o fazem pensar, como biografias que tratam sobre histórias de vida. E sobre as produções de ficção científica, é categórico: "Não gosto!".

Confidenciando que, certa vez, foi em uma pessoa que joga búzios e a mesma lhe disse que ele iria recomeçar a carreira profissional, lembra que, quando saiu da consulta, ficou pensando o que aquilo significava. "Ela disse que eu teria que começar do zero e que eu teria sucesso nesta minha nova caminhada profissional. Não sei se tenho, hoje, sucesso, mas vejo como uma caminhada de novo. Uma consolidação de degrau por degrau, tijolo por tijolo", reflete. Define-se como inquieto e assegura que, sim, mudou: abriu mão de uma vida estável profissionalmente, que tinha boa remuneração; entretanto, não estava mais satisfeito.

Referências e reconhecimento

Na área da docência, a referência é o próprio pai, o qual foi quem o inspirou por ser um professor dedicado. Já no Jornalismo, sempre gostou muito e se inspirou em nomes como Armindo Antônio Ranzolin, Flávio Alcaraz Gomes, Cândido Norberto, Rogério Mendelski, Lauro Quadros, Ricardo Boechat, Luiz Artur Ferraretto, Roberto Villar, Mendes Ribeiro e Claudio Moretto. Na televisão, menciona Cristiano Dalcin.

Sentindo-se profissionalmente realizado, Ricardo comemora o reconhecimento que sempre recebeu por seu trabalho. Como a vez que pegou um táxi, quando estava saindo de Zero Hora, e o taxista lhe disse: "O senhor é o Ricardo Cunha, que apresenta o Campo e Lavoura! Eu lhe ouço todas as manhãs e reconheci sua voz". Isso marcou muito sua vida, assim como as diversas mensagens que recebeu quando deixou as redações de rádio e televisão da RBS, ou, ainda, o retorno positivo dos alunos que o incluem até no grupo de WhatsApp. "Tive muitos reconhecimentos por trabalhar em TV e rádio e ganhei prêmios, mas o maior reconhecimento de um profissional é o que vem do público. É impagável", declara.

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