Sara Bodowsky: Desbravar e informar

Curiosidade, espontaneidade e paixão por conhecer novos lugares. Essas são algumas características da jornalista Sara Bodowsky

Sara Bodowsky | Crédito: Jefferson Carnelutti
Os anos de estudos que a levaram a conquistar o diploma de Direito não afastaram Sara Bodowsky de sua real vocação. Espontânea, inquieta e comunicativa, transformou o encanto de menina pelo Jornalismo em profissão. Hoje, com 38 anos e 12 deles dedicados à área, a apresentadora das rádios Gaúcha e CBN e idealizadora do projeto Roteiro da Sara, além de informar, encara a missão de levar o público a experimentar mais. "Quero que as pessoas saibam que não precisam esperar um ano para ser feliz em um mês, que são as férias. Dá para achar o equilíbrio todos os dias. A gente precisa ter essas sensações na vida", acredita.
O Jornalismo foi a segunda graduação de Sara. Reconhecendo que o Direito não era o ofício que queria para si, voltou à Ufrgs para cursar Comunicação. Durante uma greve na universidade, aproveitou o período para passar uma temporada na Europa e, pouco antes de retornar, decidiu que entraria para a Rádio Gaúcha, emissora que se acostumou desde a infância. De fato, na volta ao Estado deparou-se com um processo seletivo, que acabou servindo de porta de entrada para a emissora. O primeiro dia de estágio, na produção do Chamada Geral, marcou pela mistura de vozes conhecidas do rádio reunidas em um único ambiente. "Ouvia cada um em horários diferentes na programação e, de repente, estavam todos ali na redação, falando juntos. Lembro que não olhava para os lados pensando: que legal, estão todos eles aqui", relata.
Foram dois anos como estagiária antes que fosse efetivada na equipe. Em 2004, tornou-se apresentadora do programa Brasil na Madrugada, em um momento de mudanças na atração e despedida do então titular Jayme Copstein. "O início foi bem assustador, uma responsabilidade enorme. No fim, fiquei ali oito anos", lembra. O medo de prender-se a uma "zona de conforto" a levou a pedir novas oportunidades à direção da emissora. Assim, deixou a apresentação do programa e passou para a equipe de reportagem e depois para a Rádio CBN. Por dois anos, entre 2012 e 2014, também esteve na TV, como apresentadora do programa Tvcom Tudo+. "Fiquei o tempo que tinha que ficar e foi bom. O pessoal te reconhece, mas o reconhecimento da imagem não é o que te sustenta. O reconhecimento do conteúdo - quando alguém manda uma mensagem para dizer que gostou do que tu escreve - isso é o mais legal."
Atualmente, além do trabalho na CBN de segunda a sexta-feira e na Gaúcha aos domingos, conduz o Roteiro da Sara, projeto voltado a assuntos como gastronomia, viagens e enologia, que conta com blog vinculado ao site da Rádio Gaúcha, canais em redes sociais e quadros durante programas das emissoras. O momento é considerado por ela o mais importante da carreira.
De dica em dica?
Curiosidade é uma das características de Sara, que tem paixão por viajar, conhecer lugares e experimentar novos sabores. Em cada lugar que passa, acostumou-se a compartilhar as experiências com os amigos nas redes sociais e até a produzir pequenos roteiros, com dicas para viagens ou para aproveitar Porto Alegre. "Percebi que cada vez que viajava e colocava aquilo na minha linguagem, um jeito Sara, recebia um retorno incrível", diz. Das sugestões repassadas aos amigos, surgiu o projeto do Roteiro da Sara, que estreou em dezembro e conta com conteúdo em blog e rede sociais, matérias no rádio e eventos, com o selo da Gaúcha.
Ver sua criação aprovada pelo gerente de Jornalismo da emissora, Cyro Martins, é definido como um dos momentos mais felizes de sua vida.Com o Roteiro da Sara, além de funcionária, tornou-se parceira comercial da emissora e admite que tem adorado a tarefa de conduzir o próprio projeto. "Sou tri feliz com isso que estou fazendo", garante, ao enfatizar que o conteúdo produzido é informativo e, mesmo quando leva a identificação de patrocinado, tem sempre sua curadoria. "Tenho liberdade para criar. O que eu vou colocar ali é o que considero bom."
Sara acredita que o Rio Grande do Sul ainda desconhece seu verdadeiro potencial turístico e, da mesma forma, a população gaúcha, apesar do bairrismo, muitas vezes não conhece a própria história. É por isso que gosta de contar histórias de pessoas comuns. "Em agosto, fui fazer um curso de vinhos na Serra, em que a gente visitava as vinícolas. E cada uma tem uma história de chorar da família, de tudo que passou até chegar ao Brasil, ao Rio Grande do Sul."
Trabalhar com diferentes mídias, aliás, é algo que atrai Sara desde os tempos da faculdade. Enquanto o profissional multimídia era criticado, a atividade já chamava sua atenção e chegou a inspirar o trabalho de conclusão de curso, que levou o título ?O repórter multimídia eventual?. Isso porque, conforme conta, desde estudante se identificava com possibilidade de trabalhar em mais de uma frente. Seguir o caminho multimídia também foi algo natural para quem gostava de escrever, fazer vídeo e áudio. "Internet e rádio funcionam muito bem juntos. A instantaneidade dos dois é a mais parecida que tem", afirma.
Trabalho e lazer, juntos
Na infância, vivida em Novo Hamburgo, Sara já gostava de estar na rua, aproveitar as brincadeiras ao ar livre até tarde, visitar a casa dos amigos e, a bordo da bicicleta, desbravar o bairro. Atraída pela comunicação desde pequena, certa vez, quando tinha 12 anos, soube que o Jornal do Almoço, da RBS TV, teria uma edição especial na cidade e, sozinha, foi local acompanhar as gravações. Ao término do programa, percebendo que a equipe da tevê entrava para o centro de cultura local, deu um jeito de juntar-se a ela. "Conversei com uma monte de gente lá dentro, dizendo: ?queria trabalhar com vocês, eu quero ser jornalista?. Metida, metida?" Em outra ocasião, aos 9 anos, foi até o escritório de representação da RBS no município, próximo de onde a mãe, querendo fazer comercial. "Entrei procurando câmeras e microfones. Hoje percebo que já queria estar próximo dessa ideia de informar", diz.
Filha única, cresceu ao lado da mãe, Dalva, hoje aposentada. O pai, Natan, ela só conheceu mais tarde, quando já tinha em torno de 20 anos. Em Porto Alegre, fixou residência no fim de 2003, após curtas passagens pela cidade e planos de mudança feitos ainda no Ensino Médio. "Gosto muito de Novo Hamburgo, mas minha cidade é Porto Alegre e minha segunda cidade é Buenos Aires", afirma. Hoje, embora se mantenha agitada, a rotina permite mais encontros com amigos, jantares com a família, trocas de ideias e conhecimentos. As últimas mudanças na carreira, segundo ela, trouxeram a oportunidade de conhecer novos lugares e agregar mais conteúdo para transmitir ao público, além de unir lazer e trabalho. "Quando tu faz o que tu ama, tudo é a mesma coisa", diz.
O gosto musical compreende rock argentino, com destaque para artistas e bandas como Fito Paez, Soda Stereo e Charly García; e vozes da MPB, como Chico Buarque e Caetano Veloso. Também ganham seus ouvidos canções do rock gaúcho, nacional e internacional, como U2 e Foo Fighters, e até mesmo samba de raiz, como o de Cartola. Com o costume de ler vários livros ao mesmo tempo, as leituras atuais se dividem entre ?Confissão da Leoa?, de Mia Couto, e ?A alma imoral? de Nilton Bonder. Sobre este último, conta que assistiu a um monólogo baseado na obra, durante o evento Vox, da RBS, que lhe provocou muitas reflexões. "(O livro) Fala sobre a tradição e a transgressão na história do homem, sobre como, hoje, para reproduzir se precisa da tradição, mas para evoluir precisa da transgressão. Leio quatro cinco páginas e fico pensando", explica.
Felicidade por igual
Na gastronomia, Sara experimenta de tudo um pouco, dos pratos simples, caseiros até os mais refinados. Um sanduíche bem preparado; bife à milanesa mal passado com arroz branco, feijão e salada; filé alto, risoto de aspargos e vinho, assim como sushi, são algumas opções que a agradam. Mas o prato nem sempre precisa conter carne, pois também aprecia a culinária vegana.
Ao contrário do que acontece com algumas mulheres, cozinhar passa longe de ser um sacrifício para Sara. É algo que gosta de fazer e a que se dedica ainda mais nos momentos felizes. Conta que vivia um período especialmente feliz quando, de repente, percebeu que já cometia excessos na cozinha: estavam em preparo feijão, costela ensopada e carreteiro de charque. Para dar conta de tamanha produção, o jeito foi compartilhar com os amigos e vizinhos. "Me dei conta que a felicidade é um perigo", brinca.
Batizada na igreja católica, diz que se interessa por qualquer religião que não alimente preconceitos e que tem simpatia pela espiritismo, pois crê na conexão entre corpo e alma. Acredita cada um tem o direito de ser feliz como é, independentemente de orientação sexual, cor, credo ou classe econômica. "Acho incrível que o ser humano insista em diferenciar um do outro, porque a gente é tudo igual. Tem que tentar evoluir, ser melhor, tentar ser bom consigo mesmo. Tem muito dessa coisa de tentar amar o outro como a si mesmo, mas a verdade é que a gente não sabe se amar", sustenta.

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