Sérgio Giugno: Ao vivo e a cores

Ele foi um dos responsáveis por levar aos brasileiros a chance de ver o mundo da TV sair do preto e branco para a magia do colorido

Sérgio Giugno - Divulgação/Band RS

Quando Sérgio Giugno ingressou na faculdade de Jornalismo, não imaginava que se dedicaria à parte técnica da área, embora nunca tenha projetado ser repórter ou apresentador. E foi assim ao longo de toda a sua trajetória que, hoje, soma 46 anos de Grupo Bandeirantes. Tampouco previa que seria um dos responsáveis pela primeira transmissão ao vivo e a cores da televisão brasileira. "Eu e os colegas da época ficamos lembrando e nos damos conta de que fazemos parte da história", reflete o jornalista.

O gosto por televisão e rádio o fez optar pela graduação. Até chegou a fazer um estágio obrigatório no Jornal do Comércio na época de estudante, mas logo apareceu a oportunidade na antiga Rede Difusora - que viria a ser adquirida pelo Grupo Bandeirantes anos mais tarde -, a abraçou com todas as forças e é onde está desde dezembro de 1971. Lembra que foi convidado pelo diretor técnico da época para ajudar na expansão das retransmissoras no interior do Estado. Dois meses depois, estaria em Caxias do Sul, na Festa da Uva de 1972, levando as cores para os televisores de todo o País.

Aos 71 anos de idade, conta que passou grande parte de sua vida nos corredores da empresa e nas externas com as equipes, fato do qual não se arrepende, pelo contrário. Queria ter podido trabalhar mais. Apaixonado pelo que faz, sente-se realizado profissionalmente, por isso pretende, em um futuro não muito distante, aposentar-se. "Chega um momento que precisamos dar lugar para os mais jovens", sentencia.

Está no ar

Tudo começou com as negociações de governo para transmissão a cores da festividade em Caxias do Sul, quando foi chamado para auxiliar na área operacional e técnica. "Eu não entendia nada, mas me perguntaram se eu queria aprender e eu fui." Recorda, inclusive, que ajudou na montagem do equipamento que veio diretamente da Inglaterra para o evento. Na época, afirma, existiam poucos televisores coloridos, que eram colocados nas vitrines das lojas para que as pessoas pudessem assistir. "Na hora da transmissão, começaram a chover telegramas do Brasil inteiro de pessoas que estavam nos assistindo em Recife, Salvador. Foi um orgulho!"

Visivelmente animado com o feito, compara aquela tecnologia com o sinal digital, recém-chegado ao Rio Grande do Sul, e diz que, para ele, a televisão em cores foi mais revolucionária. "Tu não tens ideia de como é ver a TV colorida, só se tirar a cor. Antes, a gente imaginava os tons das roupas das pessoas e quando tu vês colorido, não tem explicação", comenta, ao somar a isso a dificuldade em organizar todos os equipamentos em plena ditadura militar. "Era época da Revolução e tudo era difícil. Não podíamos fazer nada se não tivesse licença." Sob o governo de Emílio Médici, que implantou o serviço no País, recorda que chegaram a receber ajuda, inclusive, dos militares. "Era difícil, mas até o pessoal do exército nos ajudou quando viu que íamos fazer uma coisa importante para a nação", conta.

Não atribui a si um papel determinante para o sucesso da transmissão a cores, pois considera que o trabalho foi feito em equipe. "Naquele dia, a gente fazia de tudo: operava vídeo, dirigia carro, puxava cabo, instalava, testava, fazia parte elétrica." E recorda como se fosse ontem de ver os colegas com lágrimas nos olhos quando viram a ideia virar realidade. "Não sabíamos se ia dar realmente certo, e sei que muitos estavam torcendo para que não desse. Mas quando a gente viu que funcionou, todo mundo se abraçou e celebrou."

Uma das cenas que lembra com clareza daquele dia memorável foi quando o então diretor de TV, Sérgio Reis, estava responsável pelo corte de câmeras e, quando percebeu que um cinegrafista estava ficando uma borboleta colorida, colocou a imagem no ar. No mesmo momento, o ex-presidente estava aparecendo em outra imagem apontando para o inseto no monitor. "Ficou muito bonita a composição. O presidente até sorriu para a câmera."

Depois do desfile da festa no sábado, conta que a equipe saiu para passear pela cidade, quando foi aclamada pela população que enxergava naquele uniforme da TV a inovação. "Éramos aplaudidos pelas pessoas na rua." No domingo seguinte, às 9h, fizeram a primeira transmissão de futebol a cores da TV aberta, na partida entre Grêmio e Caxias, no Estádio da Baixada, na Serra Gaúcha.

Uma rotina que não cansa

Mesmo depois de quatro décadas em uma mesma empresa, a rotina na Band não cansa e, ainda hoje, chega a passar o dia na TV. Tudo começa por volta das 9h para acompanhar a programação da emissora, onde fica até a última atração ao vivo, o Band Cidade. Depois, está liberado, mas está sempre a postos, caso precise ir sábado, domingo, feriado. A ausência em casa, diz, não é um problema, afinal, a esposa, Maria Lisete, também tem um dia corrido por trabalhar como dentista no Grupo Hospitalar Conceição. Tampouco é cobrado pelas filhas, Ketlin, de 37 anos, e Caroline, de 34, ambas médicas. "Elas sabem como é essa correria, então, ninguém sofre com essa ausência", analisa Sérgio.

No entanto, o que o faz considerar uma aposentadoria são os netos, Rafaela, de quase um ano, e Luigi, de nove meses. Orgulhoso, diz que os dois são os mais "lindos do mundo" e quer curtir a fase dos pequenos. "Senão, por que eu vivi?" Também planeja viajar no tempo livre que terá futuramente. Enquanto isso, aproveita os poucos momentos de folga para ler, seu passatempo preferido - que não envolve os netos, claro. Diz que lê de e sobre tudo, desde política a economia, seja em revista, jornal, e, até mesmo, panfletos. Sérgio aproveitou a pergunta para avisar: "Todo dia, quando chego na empresa, ligo o computador e acesso o Coletiva.net". 

Embora trabalhe em uma TV, confessa que não tem muito costume de assistir à telinha, com exceção da Band, claro, pois faz parte de seu trabalho. A justificativa é totalmente compreensível: presta mais atenção nos defeitos técnicos do que no assunto que está sendo apresentado. Por isso, se for para ligar o televisor, prefere optar pelos documentários. Gosta, ainda, de caminhar pelas ruas por onde andava na época de estudante. Nascido em Veranópolis, veio aos 16 anos para Porto Alegre para fazer o segundo grau, que não tinha na cidade natal, e ficou. Veio sozinho e morou em pensão, em república, e caminhava por aí sem se preocupar. "Cruzava o Parque da Redenção na madrugada sem precisar olhar para o lado", declara, com um ar saudosista.

Sobre os passeios, fala que, além de um bom exercício físico, o ajudam a pensar em outros tempos, o que o faz saber que cumpriu seu dever e, principalmente, sem ter feito mal a ninguém. Melhor: ajudou muita gente. No campo religioso, é católico apostólico romano, como um bom nascido em Veranópolis, como diz, aos risos, afinal, "lá, ou tu eras católico ou eras expulso da cidade". Porém, não costuma frequentar a igreja e explica que tem sua paz espiritual.

O que fez e o que deixou de fazer

Filho de pai gaúcho, Olímpio, e mãe carioca, Elza, ambos falecidos, Sérgio herdou do Sul o gosto pelo futebol e a resposta para qual time torce sai quase que automática: "Grêmio, claro!". Costuma assistir aos jogos em casa e, de preferência, sozinho, que é para poder sofrer e xingar os jogadores tranquilamente. Não vai ao estádio porque cansou de tanto que foi na época que fazia externas de futebol para a TV. Era na quarta, na quinta, no sábado, no domingo, em Porto Alegre, Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Venâncio Aires, Rio Grande. Recusa até mesmo o convite das filhas que seguiram sua paixão pelo time.

Das escolhas da vida, abriu mão de algumas experiências e oportunidades por estar envolvido com a TV, mas garante que não se arrepende. Duas delas foram os partos das filhas. A primeira, conta, nasceu em Veranópolis enquanto ele estava em Porto Alegre, e a segunda, ele teve que transmitir uma missa e não deu tempo de ir para o hospital. Contudo, para ele, o que importa é que elas "estão aí, superbem".

Aliás, se não lamenta não ter estado presente nestes dois momentos, de nada mais se arrepende. "Devo ter falhado e errado muito e posso ter magoado pessoas. Mas tudo o que eu fiz foi com vontade. Claro que gostaria de ter viajado o mundo e feito muitas outras coisas, mas o que eu fiz compensa tudo o que eu deixei de fazer."

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