Rodrigo Lopes: Um cara do mundo

Com uma trajetória marcada por grandes coberturas internacionais, Rodrigo Lopes não quer deixar de contar histórias

Entre os álbuns de figurinhas da infância, um ganhava atenção especial e não era sobre futebol. Reunia, sim, as bandeiras de países, junto de informações como capital e demografia. Preservada até hoje, a publicação pode ser vista como um indicativo de como o mundo já instigava Rodrigo Lopes desde menino. Hoje, com 36 anos, o editor de Integração de Zero Hora driblou a timidez de guri, entrou para a reportagem multimídia, descobriu no jornalismo uma ponte para o mundo e traçou uma trajetória profissional repleta de grandes coberturas internacionais.
As histórias registradas em enciclopédias ou nas retrospectivas de jornal e TV o atraíam desde criança. Estudante do Colégio Anne Frank, descobriu uma loja que vendia materiais para laboratório, decidiu que queria ser químico e até ensaiou algumas experiências em casa, mas o encanto pela história prevaleceu. Aliada ao gosto pela leitura, a presença de um jornalista na família, a prima Simone Lopes, também contribuiu para a escolha da profissão. Lembra que ela costumava fazer cobertura de eventos e, ao término do trabalho, era ele quem ficava com a camiseta com a inscrição "Imprensa". Um teste vocacional durante o Ensino Médio, feito no Colégio Rosário, ratificou a decisão pelo Jornalismo, graduação que cursou pela Ufrgs.
Com 18 anos de trabalho dedicados ao Jornalismo, soma mais de 20 coberturas internacionais, pelas quais percorreu cerca de 30 países. Ainda em 2003, recebeu a principal distinção do Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha. Entre os casos que acompanhou de perto estão os desdobramentos da passagem do furacão Katrina pela região de Nova Orleans (2005), a morte do papa João Paulo II (2005) e a renúncia de Bento XVI (2013), a guerra entre Israel e Hezbollah (2006), a eleição e reeleição de Barack Obama nos Estados Unidos (2008 e 2012), o caso dos mineiros soterrados no Chile e o terremoto no Haiti (2010).
Múltiplo fazer
A entrada em Zero Hora aconteceu em 1996. Em uma entrevista com jornalistas do veículo, percebeu a presença de outros estudantes na redação e perguntou como fazia para trabalhar ali. Após longa seleção, conseguiu a vaga de auxiliar de redação, uma espécie de office boy interno. Desempenhou tarefas de cópias de documentos a baixamento de fotos e trabalhou como freelancer de Esportes, antes de receber um convite de Luiz Zini Pires para a editoria de Mundo. Logo, percebeu que podia fazer mais que traduções e redação de notas, ainda de dentro da redação. Com essa convicção, em 1999, conquistou sua primeira manchete com carimbo "exclusivo" em Zero Hora: uma entrevista com o político e general Lino César Oviedo, acusado de golpe de estado no Paraguai, que ameaçava retornar ao país.
A eleição que colocou fim à era Carlos Menem (1989-1999) na Argentina marcou a estreia de Rodrigo na cobertura internacional. Enviado especial do jornal, acompanhava os desdobramentos do pleito em um domingo, quando entendeu que não havia razão para segurar a informação até o dia seguinte. Ligou para a Rádio Gaúcha e entrou no ar no momento em que o presidente Carlos Menem anunciava a derrota nas urnas. O desempenho rendeu um convite para fazer um comentário diário na emissora. "Algumas pessoas diziam que estava sendo explorado. Eu via como uma oportunidade", comenta.
Começava a nascer ali o repórter multimídia, que, em breve, estaria também na televisão. Era 2004 quando ganhou a missão de editar o caderno especial sobre a morte do Papa João Paulo II e, no ano seguinte, de cobrir os desdobramentos do fato, com a eleição de Bento XVII. No Vaticano, Ana Amélia Lemos fazia a cobertura pela RBS TV e, como precisou retornar ao Brasil, foi convidado a finalizar a cobertura para emissora. Na volta, começou a produzir matérias para a TV e, mais tarde, assumiu a apresentação do programa Camarote Tvcom, ao lado de Kátia Suman. Mas a primeira experiência na TV aconteceu antes, durante a Guerra do Iraque, quando substituiu Marcelo Rech em comentário no programa Estúdio Tvcom. "Entrei no ar, magrinho que era, com o casaco emprestado do Marcelo", recorda aos risos.
Perto dos fatos
Se cobrir uma guerra é ambição de muitos jornalistas, Rodrigo já tem duas no currículo. O conflito entre Israel e Hezbollah, em 2006, é lembrado como o mais difícil, sob o aspecto jornalístico e também psicológico. Com a preocupação de mostrar os dois lados da guerra, esteve em Israel, mas ao seguir para a Jordânia para entrar na Síria, teve o visto bloqueado por ter entrado em território inimigo. A saída foi seguir para a Turquia, país fora da zona de conflito, onde fez novo passaporte e conseguiu o visto necessário. "Às vezes, é importante, tanto na vida profissional quanto pessoal, dar um passo atrás para depois dar dois à frente. É meio clichê, mas funciona", assegura.
Aquele que considera seu maior furo jornalístico foi vivido em 2009, durante o golpe em Honduras, o presidente deposto Manoel Zelaya refugiou-se na Embaixada brasileira. Com a ajuda de uma fonte, conseguiu passar por três bloqueios militares e ingressar no local, de onde fez a primeira transmissão ao vivo para a Rádio Gaúcha. Apenas Folha de S. Paulo, Associated Press, AFP e Telesur haviam conseguido entrar. Lá, permaneceu por uma semana, dormindo na cozinha, sobre pedaços de papelão. "A comida era revistada por cachorros e eu evitava comer para não passar mal. Daí, teria que abandonar a cobertura", explica.
Admite que testemunhar tragédias ao redor de mundo comove e até amedronta, por isso, tenta enxergar tudo como trabalho. Foi assim que seguiu em coberturas como a do furacão Katrina, que deixou 80% da cidade de Nova Orleans embaixo d"água; do terremoto que deixou 200 mil pessoas mortas no Haiti; da guerra entre Israel e Hezbollah, marcada pela tensão constante de possível ataque ou sequestro por milícia, e em que, por cerca de 15 minutos, se viu sob fogo cruzado. "Dá medo e não acredito em jornalista que diz que não tem medo. Emociona, mas não como a tragédia pessoal. A lente do profissional ajuda a separar o jornalista do desastre."
A origem de tudo
Porto-alegrense, o único filho de Darci e Rejane Lopes cresceu no bairro Bom Fim, tendo as brincadeiras limitadas pelas paredes do apartamento - os jogos de bola por vezes terminavam com vasos quebrados. Na juventude, muitas foram as vezes em que desejou se "esconder dentro de um buraco" em razão da timidez. Hoje, embora acredite que ainda guarda um pouco dessa característica, diz que aprendeu a lidar com ela. Ainda na adolescência, entrou para o grupo de jovens da Igreja Santa Teresinha, no Bom Fim, que liderou três anos e onde conta ter conhecido os verdadeiros amigos. "Fazer parte desse grupo influenciou muito a minha vida."
Estar junto da família é algo que aprecia, embora admita que gostaria de passar mais tempo junto dos seus. Vem do núcleo familiar, aliás, aquela que cita como sua grande inspiração, a avó Ana Cândida Guimarães Lopes, de 91 anos. Na definição de Rodrigo, é alguém de mente aberta, sem preconceitos, capaz de reunir ao seu redor pessoas de diferentes religiões, crenças, culturas e orientação sexual. "Acho essa uma característica muito importante. O grande problema do mundo é não saber lidar com a diferença."
A rotina atual, ainda intensa, divide-se entre a redação, as aulas na Uniritter, onde desde março é professor, e o mestrado em Comunicação pela Unisinos. Transmitir a experiência adquirida ao longo da trajetória é um desejo, que motivou não só o retorno à academia como também o lançamento do livro "Guerras e tormentas" (2011). "Tenho muita vontade de passar essa experiência. Acho importante equilibrar o pensar jornalismo e a prática."
Nos momentos de lazer, mesmo que restritos, curte jogar tênis, andar de skate - sem arriscar grandes manobras -, degustar um vinho ao som de jazz, blues e canções de músicos como Marisa Monte, U2, Coldplay e Keane, ou ainda aproveitar uma boa leitura. E os livros de não ficção, em geral, são os preferidos. "O mundo para mim é fascinante, os personagens reais são tão ricos, que não consigo muito ler ficção. Esse é um problema, admito".
Sentido coletivo
A trajetória é, para ele, motivo de orgulho. No Jornalismo, diz que realizou muitos sonhos, mas esclarece que se sente como iniciante. Acredita que ainda tem uma longa história pela frente, que pode se desenvolver seja como editor ou repórter. E neste caso, não faz diferença se o cenário é em outro país ou na quadra seguinte. Defende que um risco que se corre ao fazer grandes coberturas está em acostumar-se a testemunhar a história acontecendo diante de si e desprezar a "pauta buraco de rua". Independentemente da dimensão do fato, garante que quer mesmo é continuar contando histórias. "A grande maravilha está na história humana. Uma grande história pode estar no outro lado do mundo, mas também do outro lado da rua", afirma, ao revelar que ainda pretende escrever um livro sobre o assunto.
Fora da redação, também se diz principiante. Conta que deixou a casa da mãe há pouco tempo e ainda está aprendendo a morar sozinho. "Cobri duas guerras mas não sei fritar um ovo", confessa. Ainda quer passar mais tempo ao lado da família e, no futuro, casar, ter filhos e quem sabe um cachorro. De personalidade emotiva, crê que tem muito a aprender e a aproveitar as coisas simples da vida. Lembra que, no dia do lançamento do livro, viu seu afilhado segurando a publicação, uma cena capaz de lhe emocionar muito mais do que muitas das vivenciadas no exercício da profissão. "Quando se cobre muitas coisas grandes, se perde um pouco a noção do que do que é importante. Na dúvida, prefiro tornar tudo grande. O que vale é o que a gente sente, é o contato com as pessoas."
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