Há um serial killer na cidade

Eu devia falar essa semana sobre a absurda prisão do Lula. Eu devia falar sobre um país onde a sua mais alta corte de justiça não respeita a Constituição e eu devia lamentar nesse espaço, que exista ainda tanta gente de uma classe média alienada que se alimenta de um ódio mortal contra os pobres, mas isso parece tão absurdamente irreal, que vou entrar em outro clima de fantasia e repetir o hipotético depoimento que me fez um serial killer, algumas semanas atrás.

Vamos acompanhar o seu relato.

Quando a porta se abriu e entrei na sala, explodiram mil flashes ao mesmo tempo. Toda aquela explosão de luz retardou por alguns segundos o encontro que eu teria com jornalistas do país inteiro.

O blogueiro que se transformou num serial killer, como era apresentado nos jornais mais conservadores, ou o Monstro da Zona Sul, naquele jornal que me recuso a dizer o nome, iria finalmente explicar as razões de tantos crimes. Ou, pelo menos, eles esperavam que isso acontecesse.

Eu estava de pé, ladeado por dois guardas que seguravam meus braços e que começavam a me conduzir em direção a uma cadeira.

O aperto nos braços era suave, quase imperceptível. Os mesmos guardas, que me enchiam de porrada nos interrogatórios, agora eram quase delicados comigo. Certamente, eles foram bem instruídos de como deviam se comportar diante dos jornalistas.

Uma loira de olhos azuis e cabelos lisos avançou o microfone em minha direção e fez a primeira pergunta. Ela era da Globo e eu já tinha visto seu rosto em outras entrevistas no passado.

Certamente, porque era da Globo, ela tinha o direito de fazer a primeira pergunta.

- Por que você matou Drago Espíndola?

Por que será mesmo que eu tinha matado o Drago Espíndola? Ela podia perguntar pelo cineasta Edgardo Ferreiro, pelo Dr. Richard Insano, por aquele chapeludo da torcida do Grêmio, pelo empresário Seguei Mourão, por aqueles dois coxinhas e gays do Moinhos de Vento e pela Carla Francisca, a rainha do rebolado daquele bordel de Ipanema. Até mesmo por aquele anônimo cobrador, que um dia pôs a ponta pés para fora do ônibus um pobre infeliz que não tinha dinheiro para a passagem.

Eu tinha matado todos. Afinal, eu era um serial killer e só poderia ser considerado um serial killer quem tivesse matado muita gente. Se fosse apenas três, os jornais teriam o direito de me chamar de serial killer? Acho que não. Diziam que eu tinha matado 11 pessoas. Um bom número. Certamente, eu era um serial killer.

- Porque me deu vontade.

- Você matou Drago Espíndola apenas porque lhe deu vontade?

A repórter loura fingia surpresa pela minha resposta. Que mulher cínica. Quanta hipocrisia. Eu apenas tinha feito o que todo o mundo, pelo menos alguma vez na vida, tem vontade de fazer. Claro que a vontade só surgia quando alguém fazia algo muito grave.

Por exemplo, aquele cara no restaurante, falando alto que tinham que prender o Lula, enquanto palitava os dentes bem na sua frente. Ou aquele outro que deixava aberto o porta-malas do carro, na beira da praia, com potentes alto-falantes espalhando o som de uma música sertaneja por centenas de metros. Outras vezes, bastava um simples gesto. Um jeito de vestir. Uma tatuagem com um coração e o nome do Moro.

Todos tinham um bom motivo para matar alguém, mas somente um serial killer profissional como eu, era capaz de transformar esses bons motivos numa ação prática.

A repórter loura da Globo queria respostas objetivas.

- Por que você matou?

- Porque sou um tímido.

- Você mata as pessoas porque é um tímido?

- Exatamente. Se não fosse tímido, eu poderia falar com elas, explicar que não se palitam os dentes em público; que não se ouve música sertaneja e ainda mais em altos volumes e que o Moro é um agente norte-americano para destruir a economia brasileira. Como sou tímido e não consigo falar com pessoas desconhecidas, eu radicalizo. Elimino simplesmente essas pessoas, cortando o mal pela raiz, para que elas não possam mais repetir esse comportamento antissocial.

- Matar uma pessoa não é um comportamento muito mais antissocial?        .

A tal repórter da Globo estava agora apelando para uma sociologia barata. Comparar um coxinha que palita os dentes em público com alguém que mata outra pessoa, não faz nenhum sentido. Palitar os dentes em público é uma prova de mau gosto, mas normalmente não traz para o autor nenhum castigo. Já matar traz riscos enormes. No mínimo, você pode ser preso. Nunca vi ninguém ser preso por palitar os dentes num restaurante, nem sofrer maiores castigos. A única exceção que conheço é daquele sujeito que fui obrigado a matar naquela churrascaria da João Alfredo.

Ele bem que mereceu o castigo. Exatamente na hora eu que eu ia dar o primeiro corte naquele apetitoso lombinho com queijo, ele abriu sua enorme boca cheia de cáries e começou a palitar furiosamente um dente perdido junto da glote.

E não devemos esquecer que o cara era ainda um coxinha militante.

Qual o comportamento mais antissocial, o meu ou aquele do palitador público?  Para a repórter da Globo, obviamente era o meu.

Eu, particularmente, gostaria de discordar, mas, certamente, aquela entrevista não era o local ideal para lançar teses tão pouco populares como essa. Por isso, preferi não ser muito incisivo na hora de responder a sua pergunta.

- Talvez.

Devia ser uma transmissão ao vivo na televisão, pois quando dei minha última palavra - aquele "talvez" - ela se apressou em concluir a entrevista com uma afirmação no mínimo discutível, a de que eu demonstrava em minhas respostas monossilábicas e até irônicas, ser um criminoso frio e cínico, que em nenhum momento mostrara algum arrependimento pelos seus crimes.

- Natusca Pereira, diretamente da Polícia Central, para o Hora Certa, edição das 10h.

Então, a loura de olhos azuis e cabelos lisos, chamava-se Natusca Pereira.

Quem sabe, se um dia recuperar a liberdade e voltar a ser um serial killer, não possa incluir a Natusca Pereira entre as próximas vítimas?

Afinal, chamar de frio e cínico alguém apenas preocupado em melhorar o nível das relações interpessoais, eliminando as pessoas com comportamento inadequado, é certamente um excesso de linguagem da Natusca Pereira, o que a faz, certamente, ser merecedora de um castigo exemplar.

Autor
Formado em História pela Ufrgs, foi jornalista nos veículos Última Hora, Revista Manchete, Jornal do Comércio e TV Piratini. Como publicitário, atuou nas agências Standard, Marca, Módulo, MPM e Símbolo. Acumula ainda experiência como professor universitário na área de Comunicação, nas universidades PUC e Unisinos. É autor dos livros "Raul", "Crime na Madrugada", "De Quatro", "Tudo que Você NÃO Deve Fazer para Ganhar Dinheiro na Propaganda" e "Tudo Começou em 1964", que tem formato de ebook.

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