Lendas e mentiras

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Quando contei aos primos mais velhos que havia entrado no casarão do Capão Novo, eles pareciam mais surpresos do que assustados. Podia ver em seus olhos a mesma pergunta:

"Que raios estavas fazendo naquele lugar assombrado?"

Diante da reação, segurei o medo e nem mencionei os estranhos ruídos que ouvira no casarão. Entendi que os mais velhos sabem de coisas que crianças nem desconfiam que existam. Logo lembrei o peão Edu, que invocava Santa Bárbara e São Jerônimo sempre que alguém falava de almas penadas. Diziam que ele sabia de tudo sobre assombrações e almas do outro mundo.

***

Dois dias depois, lá estava ele, o velho Edu, quieto em um banco no terreiro. Fumava seu palheiro mal-cheiroso e olhava as nuvens no céu. Juntei coragem e cheguei perto. Ele nem me olhou, soltando uma risadinha:

"Aposto que o menino quer saber de assombrações..."

Nem esperou pela resposta, jogou o palheiro longe e disse que ia contar dos mistérios da Lagoa dos Patos. Eu, que nem sabia que a lagoa era assombrada, sentei no banco e fiquei muito quieto.

"- Já no tempo dos escravos, - começou ele - falavam de causos no Mar de Dentro, que é o nome antigo da lagoa.

Os pescadores mais velhos diziam que as redes de pegar traíra ficavam presas nas ponteiras de ferro cravadas no fundo da lagoa.

Eram cruzes de um antigo cemitério de marinheiros, que afundou na areia, sumindo para sempre.

E dizem mais, em noites de lua nova, na Ilha da Feitoria, uma mulher vestida de branco caminha pela praia sem deixar pegadas na areia."

Fez uma pausa, enrolou outro cigarro, eu me perguntando se aquilo era verdade ou estória de assustar crianças. Mas Edu parecia acreditar em tudo o que falava. Acendeu o palheiro, deu uma baforada que me fez tossir e seguiu:

"- Na Feitoria existe uma figueira centenária, mas ninguém gosta de acampar debaixo dela ou passar por lá à noite. Os pescadores me contaram que não se consegue acender fogueira, pois sopra um vento quente que apaga o fogo.

Falam que é por causa da mulher de branco que morreu em um incêndio durante uma tempestade que durou três dias e três noites".

Mais uma parada. Acendeu o cigarro apagado. E mais uma baforada e mais uma estória.

"- Este causo é muito falado em Tapes e qualquer pessoa pode te comprovar que não é invenção minha.

São as tais argolas de ferro que estão chumbadas em grandes pedras da Praia do Tigre, bem antes do Farol de Itapuã.

Estão lá pelo menos há uns 100 anos, mas ninguém se arrisca a dizer quem as chumbou na pedra e para o que serviam.

Os marinheiros dizem que as argolas prendiam uma corrente que fechava a foz do Guaíba para impedir a passagem dos navios imperiais que vinham atacar Porto Alegre durante a Guerra dos Farrapos. Mas tem gente que garante que as argolas foram feitas para castigar escravo fugido. Que era acorrentado nas pedras para morrer afogado na maré alta."

***

Edu viu que eu não estava nem um pouco assustado com suas estórias. Jogou fora o cigarro e ia começar mais uma. Foi quando eu o interrompi, perguntando do ouro e das pratarias da minha tataravó Doña Brigida de Calderón, que foram enterrados nos areais da Lagoa e que nunca mais foram encontrados.

Edu ficou sério, pigarreou e disse que as estórias de fantasmas ficavam para outro dia. Levantou-se e foi para o lado dos galpões.

***

 

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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