Meia-luz

Por Flavio Paiva

Se na semana passada falei em transformações não digitais (tive retornos de vários leitores, alguns discordando e alguns concordando, o que é extremamente rico), nesta semana, trato da meia-luz. Muitas coisas ficam extremamente claras, enquanto outras parecem ficar à meia-luz, numa certa indefinição e penumbra. Meus amigos leitores dirão: "Ora, é fundamental e necessário colocar uma luz direta e incidente sobre este ambiente ou objeto para que ele fique claro!". Será?

Certas coisas são curtidas exatamente porque existem (por um tempo ou a vida toda) em uma meia-luz. Pensemos: não será uma destas a razão do sucesso de restaurantes com baixa luminosidade ou mesmo à luz de velas? As conversas fluem, as bebidas e comidas também, mas podem fluir olhares, sorrisos e revelações. Então, será sempre o indicado trazer tudo à luz? Depende muito do que estamos falando.

Claro que descobertas científicas, cálculos matemáticos, negócios entre executivos, todos precisam ser feitos muito às claras. Já no que tange às relações humanas, aos aspectos mais subjetivos do ser humano, será que não é necessário e saudável que permaneçam (como disse, por um tempo ou sempre), à meia-luz? Meu entendimento - ainda mais com o passar da idade - é que sim.

Evidentemente que não estou falando da honestidade, da seriedade, estas precisam estar totalmente reveladas. Já há processos que são bons exatamente porque ficam como que incubados, se modificando conforme oscila a luz do candelabro. E isso tem uma beleza poética intrínseca.

Além da beleza poética, este período de iluminação pela chama de velas faz com que os contornos não fiquem exatamente claros, e, ao final, eles podem revelar não o seu lado mais desfavorável, mas o mais favorável e mais bonito.

Às vezes, durante meses ou anos podemos ter aspectos internos que, ou oscilam, ou mostram um lado mais negativo, sombrio, mas que passado este período, revelam a sua beleza, intensidade, com toda a força.

Estou sugerindo uma vida às sombras? Muito pelo contrário! Só quis enfatizar a meia-luz como viabilidade porque vivemos em uma época em que as coisas parecem ser tão binárias, mas o ser humano e a própria vida é feito de relatividade. Depende.

Caso o leitor discorde veementemente do que foi escrito aqui, peço sua contribuição. Que ilumine esta mente habitada por candelabros em algumas áreas (em outras, está iluminada por holofotes, não se preocupem). Quero, desta vez, compor o cenário, o panorama do meu público leitor, para que colabore e traga a sua opinião. Seja digitando, seja escrevendo uma carta à luz de velas. Aguardo.

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