Porto Davos

Por Marino Boeira

 

Slavoj Zizek, o filósofo esloveno nascido em Liubliana, em 1949, é, certamente, hoje, o mais original dos pensadores europeus, sempre a desafiar o politicamente correto e a propor novas leituras dos acontecimentos políticos.

Extremamente prolífico, com dezenas de livros, artigos e conferências publicados no mundo inteiro, Zizek se socorre constantemente de filmes, principalmente os de Alfred Hitchcock (1899/1980) e David Lynch (1946) para expor suas teses, que os analistas dizem ser predominantemente influenciadas pelas suas leituras de Karl Marx (1818/ 1883) e do psicanalista francês, Jacques Lacan (1901/1981).

Para Zizez, vivemos uma vida cada vez mais desprovida de substância. "Se consome cerveja sem álcool, carne sem gordura, café sem cafeína e, eventualmente, sexo virtual, sem sexo."

Em suas últimas obras, Zizek vem se dedicando a analisar o comportamento de figuras políticas que ele chama de 'comunistas liberais', Basicamente são pessoas bem sucedidas na vida, cheias de boas intenções (dependendo do ângulo que se olhe), que condenam os radicalismos políticos, mas que, no final, mais do que a direita raivosa e assumida, são os que fazem com que nada mude.

Em 1916, ao analisar a campanha política para a sucessão de Obama, nos Estados Unidos, afirmou que "o medo de que os EUA estejam à beira da consumação de um Estado fascista tem claramente a função de unificar todos nós contra Trump, ofuscando, assim, as verdadeiras divisões entre a esquerda ressuscitada por Bernier Sanders e o projeto de Hillary Clinton - a candidata por excelência do establishment".

Para justificar sua tese, Zizek, repetiu o que já tinha dito Julian Assange (asilado na embaixada do Equador, em Londres): "Julian Assange está certo em sua cruzada contra Hillary, e os liberais que o criticam por atacar a única figura que pode nos salvar de Trump estão errados. O alvo a ser atacado e solapado agora é precisamente esse consenso democrático contra o vilão".

Em seu livro 'Violência', Zizek lembra Porto Alegre, a cidade do grande evento 'Um Outro Mundo é Possível' em oposição a Davos, onde a elite global de gestores, políticos e personalidades midiáticas se encontram sob pesada proteção policial, em condições de estado de sítio e tentam convencer-nos e a si próprios, de que a globalização é o melhor remédio e pergunta: "Onde foram parar os 'homens bons' de Porto Alegre?".  

Ele mesmo responde: em Davos.

Segundo Zizek, um grupo de empresários (lembra Steve Jobs e George Soros), que se designa ironicamente de 'comunistas liberais' defende a tese de que podemos ter o bolo capitalista global (ou seja, prosperar como empresários de sucesso) e, ao mesmo tempo, comê-lo (aprovar as causas anticapitalistas de responsabilidade social e preocupação ecológica).

Assim, conclui Zizek: "Porto Alegre deixa de ser necessária, uma vez que Davos pode se transformar em Porto Davos".

Pelo menos um político brasileiro percebeu que os tais 'comunistas liberais' eram um entrave para uma verdadeira revolução social no País. Em 1986, mais por intuição do que por ideologia, Leonel Brizola forçou no Rio Grande do Sul uma aliança do seu partido, o PDT, com o PDS, descendente direto da antiga Arena, o partido que sustentara a ditadura militar.

Brizola se deu conta que o núcleo dirigente do PMDB - Tancredo, Ulysses e Simon - que fizera uma oposição consentida à ditadura militar, representava a continuidade do sistema implantado em 1964, agora com uma capa democrática e por isso preferiu uma aliança com a oligarquia rural gaúcha, de certa forma esquecida pela política de acomodação com o capital internacional que marcara o governo dos militares e seria também a tônica dos políticos do PMDB.

Nas eleições estaduais de 1986, Brizola impôs uma aliança com o PDS, formando uma chapa que tinha Aldo Pinto (PDT) e Silvério Kist (PDS) para o governo do Estado e Nelson Marchezan (PDS) e Sereno Chaise (PDT) para o Senado. Ganhou a chapa do PMDB, com Pedro Simon e Sinval Guazelli.

Marchezan foi o segundo mais votado para o Senado (o primeiro foi José Fogaça), mas por causa da existência das sublegendas (o PMDB concorreu com duas sublegendas), o eleito foi José Paulo Bisol, o primeiro dos muitos senadores eleitos pela RBS.

De volta ao Zizek, lembro que podemos encontrar aqui, hoje, na nossa Porto Alegre, representantes desse pensamento que ele diz ser próprio de "comunistas liberais". Curiosamente, quatro deles são jornalistas, pessoas de talento que escrevem sempre a favor das causas mais nobres da nossa sociedade, mas que se recusam - como diz Zizek - em romper - pelo menos no que escrevem - com o sistema capitalista. São reformistas e não revolucionários.

Falo de Celso Schröder, jornalista e professor; Marcos Rolim, jornalista, professor e sociólogo; Benedito Tadeu Cesar, jornalista, professor e cientista político; e Moisés Mendes, também jornalista e, hoje, candidato do PT a deputado estadual.

Certamente, se por ventura lerem o que escrevi, vão me tratar como um radical utópico, isso na melhor das hipóteses. 

Não importa, vou continuar me socorrendo no Zizek, principalmente no seu lema, que hoje parece bem adequado ao Brasil: "Não precisamos de profetas, mas de líderes que nos incentivem a usar a liberdade".

Autor
Formado em História pela Ufrgs, foi jornalista nos veículos Última Hora, Revista Manchete, Jornal do Comércio e TV Piratini. Como publicitário, atuou nas agências Standard, Marca, Módulo, MPM e Símbolo. Acumula ainda experiência como professor universitário na área de Comunicação, nas universidades PUC e Unisinos. É autor dos livros "Raul", "Crime na Madrugada", "De Quatro", "Tudo que Você NÃO Deve Fazer para Ganhar Dinheiro na Propaganda" e "Tudo Começou em 1964", que tem formato de ebook.

Comentários