Um doce romance

 

"Mil vezes ao dia os meus suspiros vão ao teu encontro, procuram-te por toda a parte.

É esta a recompensa que me dás

por te ter amado com tanta doçura?"

Mariana Alcoforado, "Cartas Portuguesas", 1666.

Algumas das mais comovedoras cartas de amor da literatura portuguesa nasceram de um romance proibido entre uma freira e um militar francês. Um caso notório, que abalou Portugal do século XVII. Ela vivia na clausura do Convento de Nossa Senhora da Conceição de Beja, no Alentejo e se chamava Soror Mariana Alcoforado. Ele, Noël Bouton, um capitão de cavalaria que se encontrava em Portugal, com as tropas enviadas por Luís XIV para lutar contra a Espanha.

***

Em 1667, Mariana Alcoforado viu Noël Bouton pela primeira vez. Ela estava com as freiras no terraço do Convento da Conceição, assistindo às manobras militares das tropas francesas que chegavam a Portugal. Foi um caso de amor à primeira vista para a jovem religiosa de 26 anos, que ficou loucamente apaixonada pelo garboso oficial de cavalaria. Tanto que pretendia renunciar imediatamente aos votos e acompanhar Noël em sua volta a França. No entanto, para o capitão francês, aquilo não era mais do que uma aventura furtiva e passageira. Mesmo assim, antes de deixar Portugal, ele promete voltar para buscá-la.

Mas ao regressar a França, o oficial de cavalaria Noël Bouton e futuro Conde de Saint-Léger, não simplesmente esquece de cumprir sua palavra, como ignora as cartas apaixonadas que lhe chegam quase todos os dias.

Apesar da crescente desilusão, Soror Mariana continua a escrever de sua cela no convento, até que finalmente, se dá conta de que nunca mais o encontraria. Em sua última carta, amargurada com a indiferença de seu amado, cria coragem e dá adeus às suas esperanças:

"Escrevo-lhe pela última vez e espero fazer-lhe sentir,

na diferença de termos e modos desta carta,

que finalmente, terminou por me convencer de

que já me não ama e que devo,

portanto, deixar de o amar."

As cartas causam escândalo na Portugal da época, com os moralistas de plantão à frente, condenando uma anônima "Freira Pecadora", mesmo ignorando sua identidade. Na França, quando as Cartas Portuguesas são publicadas, o filósofo Jean-Jacques Rousseau declara que os textos eram

"Belos demais para serem escritos por uma mulher."

Mas, passado algum tempo, ilustres escritores europeus e outros tantos portugueses como Alexandre Herculano e Camilo Castelo Branco, ficam sensibilizados com a qualidade literária das Cartas e nelas se inspiraram para escrever novelas, ensaios, poemas e peças de teatro. O pintor e escultor Henri Matisse reproduz o rosto de Mariana em uma série de delicadas litografias.

Ao final de tudo, a frustrada paixão de Mariana Alcoforado não rendeu apenas uma vasta coleção de belas cartas de amor. Ela permanece pelo resto da vida no convento de Beja, onde alcança ao posto de abadessa. Ali, ela recolhe antigas receitas da doçaria conventual do século XV.

E, em pouco tempo, a fama dos doces do Convento de Nossa Senhora da Conceição de Beja se espalha em todo Portugal. Os mais elogiados eram - e ainda são - os Geladinhos da Conceição de Beja; o Bolo de Requeijão; o Bolo de Santo Alberto; a Sopa Doce da Conceição, as Trouxas de Ovos da Conceição; e o mais celebrado, os Papos de Anjo de Soror Mariana.

***

O que nos permite supor que os longos anos de amargura e solidão da Soror Mariana, depois que teve seu candente amor desprezado pelo oficial francês podem ter sido mitigados pelas doçuras produzidas nos fornos e fogões do convento de Beja.

***

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

Comentários