Guilherme Kolling: Relação natural

Formado em Jornalismo e em Letras, o editor-chefe do Jornal do Comércio fala sobre as experiências da vida e da profissão

Guilherme Kolling - Marco Quintana/JC

A vida na Espanha e o estilo europeu de viver ainda estão frescos na memória de Guilherme Kolling, que lembra saudoso o ano em que morou em Madrid. Em 2012, o jornalista viajou para acompanhar a esposa, a também jornalista Naira Hofmeister, que havia sido aprovada em uma bolsa. Na terra de Salvador Dalí, o casal reviveu a rotina de estudante e aproveitou todas as oportunidades culturais que a capital espanhola oferece. "Lá, eu tinha outros estímulos", revelou, explicando que, aqui, no Brasil, sua rotina era engolida pelo Jornalismo.

Formado em Jornalismo pela PUC, também carrega o diploma de Letras, pela Ufrgs. O curioso é que ingressou inicialmente na Federal, porém, o primeiro canudo foi na universidade particular devido às voltas que o destino deu. Aliás, antes de tudo, sua primeira opção no vestibular foi em Direito, mas, "para minha sorte", não foi aprovado. "Acho que escolhi essa área por ter mais possibilidades e até pensei em ser colaborador da imprensa. Como não passei, tive mais um tempo para pensar", recorda.  

Jornalismo esportivo?

Na família, de jornalista tem dois tios, ambos falecidos e que fizeram carreira no Rio de Janeiro. Pela distância, Iron e Ivandel Godinho pouco têm influência sobre a carreira do sobrinho. O pai, João, por outro lado, foi quem o inspirou. Agrônomo aposentado, era jogador de futebol amador, no Sete de Setembro, de Dois Irmãos. A relação com a Comunicação é que Guilherme, assim que se alfabetizou, consumia as matérias de esporte nos jornais e vivia com o rádio ligado. "Comecei pelas jornadas esportivas e transmissões de jogos. Gradativamente, fui ouvindo a programação durante a semana, incluindo notícias de Geral. Isso, naturalmente, foi criando uma relação", justifica.

Embora seu maior estímulo fosse o jornalismo esportivo, nunca atuou na editoria. Até escreveu matérias que tinham certa relação, mas com outro enfoque. Uma delas foi sobre a crise no antigo clube Grêmio Esportivo Força e Luz, de Porto Alegre, quando encerrou suas atividades. A outra foi referente à incidência de Hepatite em ex-jogadores de futebol, que assinou para a revista Placar.

Os rumos da vida afastaram o atual editor-chefe do Jornal do Comércio do objetivo que o levou a ser jornalista. Contudo, Guilherme não encara isso com desânimo. Tampouco se diz não realizado com a profissão. Pelo contrário, acredita em tudo o que fez até o momento e tem ciência de que foi da melhor maneira possível. Inclusive, fala com orgulho do caminho que trilhou, lembrando os anos que dedicou ao Jornal JÁ e ao JC.

Reportagem de fôlego

Ingressou na Editora JÁ ainda na graduação, após terminar o estágio em uma bolsa de iniciação científica na PUC. Como tradicional morador do bairro Bom Fim, conta que, certo dia, comprou um exemplar do impresso na banca e disse para um amigo: "Eu ainda vou trabalhar neste jornal". O foco, conforme lembra, era encontrar um lugar para produzir texto e viu, ali, uma oportunidade.

Recorda divertido que, ao fazer a entrevista na empresa comandada por Elmar Bones, percebeu que eles estavam mais interessados na habilidade de Guilherme em falar inglês, e não por ser estudante de Comunicação. Mas isso não foi problema. Aprovado na seleção, começou na clipagem do extinto informativo diário Ambiente JÁ, que tratava sobre meio ambiente. Sua função era reunir reportagens e matérias sobre o assunto e entregar para empresas e órgãos públicos.

A atividade também lhe rendeu um hábito que carrega até hoje: ler todos os jornais no começo do dia. "O JC me chamou atenção já naquela época porque era diferenciado dos demais", pontua. Aos poucos, foi deixando a clipagem e passou a escrever matérias e, assim, conquistando seu espaço. Permaneceu por sete anos na Editora, passando de repórter para editor no Ambiente JÁ, no JÁ Bom Fim e no JÁ Porto Alegre.  

Ao longo desse período, entrevistou muita gente envolvida com o movimento ambiental. Um dos feitos de que tem orgulho é de um trabalho com José Lutzenberger pouco antes de ele falecer. "Mandei os originais de um material para ele revisar e ele me ligou dizendo que estava tudo certo, só tinha algumas alterações, mas estava indo para o hospital para um check-up e me entregaria os documentos depois. Isso foi em um domingo e ele faleceu na terça-feira seguinte. Nunca mais falamos e ele deixou os originais com a filha", relata.

Também contribuiu para a produção de diversos livros-reportagens, com matérias de fôlego. No portfólio estão obras como 'Pioneiros da ecologia', 'Lanceiros Negros', um livro sobre o Internacional, escrito pelo ex-colega Kenny Braga, entre outros. E foi como repórter do JÁ que conquistou cinco Prêmios ARI, conferidos pela Associação Riograndense de Imprensa, além de ter ajudado na produção da revista da primeira edição do evento Fronteiras do Pensamento, pela Editora JÁ.

De interino a efetivo

Por indicação de um ex-diagramador do JÁ, deixou um currículo no Jornal do Comércio. Como, na época, em 2006, não tinha vaga, não foi chamado. Então, esqueceu. Um ano depois, o então editor-chefe do JC, Pedro Maciel, ofereceu-lhe a vaga de editor-assistente de Cadernos Especiais e, ali, iniciava-se sua trajetória, que já soma 11 anos no impresso.

Chegou a produzir alguns cadernos junto com Ana Fritsh, sua chefe na época, e três meses depois, foi convidado a assumir interinamente como editor de Política, em substituição a Carlos Bastos, que estava de saída para ser superintendente de Comunicação na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. De interino, passou a efetivo e assim ficou pelos quatro anos seguintes, até 2012, quando fechou seu primeiro ciclo no veículo e foi para a Espanha.

Como a época não era favorável aos estrangeiros, a Espanha estava restringindo a permanência devido à crise que assolou o país e a Europa em geral. Guilherme e Naira, então, viram-se obrigados a retornar para o Brasil, com a ideia de buscar oportunidades em São Paulo ou, quem sabe, em Brasília. A surpresa foi quando ele foi chamado para retornar ao Jornal do Comércio, dessa vez como secretário de redação. Em 2013, retomou sua trajetória no jornal e, em novembro de 2017, foi convidado a assumir como editor-chefe.

Fortes ligações

O esporte não o seguiu na profissão, mas se fez presente na vida pessoal. Torcedor fanático do Internacional, costuma frequentar o Beira-Rio e, sempre que possível, acompanha o time pela televisão, embora a rotina do jornal dificulte o processo. E, desde que morou na Espanha, outro clube ganhou seu coração, o Atlético de Madrid.

Mesmo apaixonado pela modalidade esportiva, confessa que nunca foi um bom jogador, no máximo, "umas peladas com o pessoal do JC". Seu foco mesmo é a natação, que pratica, no mínimo, três vezes por semana. A frequência já foi maior, chegando a nadar seis dias por semana, quando integrava a equipe do União, em Porto Alegre. A escolha pela prática, no entanto, não foi um mero acaso. Asmático, o esporte foi sugestão do médico, mas - admite - tornou-se muito mais do que um tratamento de saúde.

É caseiro em virtude da rotina no jornal e aproveita os finais de semana para curtir a cidade. Porto-alegrense nascido e criado no bairro Bom Fim, hoje reside no Rio Branco e, na companhia da esposa, procura frequentar a cena cultural da cidade sempre que possível. Juntos há mais de 12 anos e casados desde 2016, Guilherme e Naira não têm filhos, nem animal de estimação. Conheceram-se em uma disciplina eletiva de artes na Ufrgs e se reencontraram na redação do Jornal JÁ, em 2005. Um ano depois, iniciaram o relacionamento.  

Os dois gostam de ir ao cinema, shows em bares e teatro. Dos momentos que traz na memória, Guilherme elenca um show de MPB de Nelson Coelho de Castro, de Rock do Reverba Trio e um concerto da Ospa. Inclusive, sua trilha musical ideal perpassa a MPB e a Bossa Nova, e João Gilberto está no topo da lista dos artistas preferidos, seguido do uruguaio Jorge Drexler, do gaúcho Vitor Ramil e da banda Los Hermanos.

Irmão mais velho, fala muito bem das relações familiares que mantém forte com João Henrique, de 38 anos, e Mauricio, de 34, ambos médicos. Costumam se reunir com o pai, João, e com a mãe, Iara, para almoços em família. E quando o cardápio é churrasco, Guilherme, de 39 anos, é quem assume. Até porque - reconhece - é um dos únicos pratos que sabe fazer. "Não gosto de cozinhar, prefiro comer", brinca, falando que costuma frequentar restaurantes cujo menu oferece massas e carnes.

Satisfação

No que tange à Literatura, o que dizer de alguém que também é formado em Letras? Sendo assim, Guilherme consome muitos livros, com preferência por livros-reportagens e biografias, e seu autor preferido é Rubem Fonseca. Tenta fugir um pouco, mas sempre acaba optando por obras relacionadas ao Jornalismo, ou então que tenham sido escritas por profissionais da área. "É inevitável, mas procuro ser diverso", explica. Também está nas suas preferências a revista Piauí. Com a viagem para a Espanha, começou, ainda, a ler autores espanhóis.

Nascido em uma família de espíritas, pratica a doutrina com frequência. "Minha avó era médium, então já é mais de uma geração", declara. Também por conta do dia a dia, frequenta centro espírita menos do que gostaria, procurando ir todos os sábados.

Define-se como uma pessoa comprometida, tranquila e equilibrada. "Nos momentos difíceis, tenho estabilidade, e nos bons, não me deixo tomar pela euforia", avalia. A constante evolução e a autocobrança caminham ao seu lado, visto que está em busca de oportunidades e desafios. "Sou feliz com o que fiz e com o que faço, porém, acho que tem mais coisa para fazer ainda", sentencia.

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