Juliana Müller: RP por acaso

Presidente da Associação Brasileira de Relações Públicas, ela entrou na profissão "sem querer, querendo" e acabou se apaixonando

Nem ela mesma sabe exatamente como aconteceu, mas se tornar relações-públicas - e mais, presidente da associação que representa a profissão nacionalmente - não fazia parte dos sonhos de infância de Juliana Müller. Aliás, chegar ao ensino superior era uma fantasia muito distante da realidade dela, criada pela mãe Mara Beatriz Müller e pelos avós maternos Maria e Antônio (ambos in memorian), que não tinham estudo, nem condições de pagar por uma graduação para ela e o irmão mais velho. Fabrício, que também contrariou as expectativas, formou-se em Ciências da Computação.

Natural de Montenegro, a RP, de 38, anos conta que, desde pequena, sempre foi muito agitada e também criativa. Participou de grupo de teatro, ballet e até navegou pelos sonhos de ser médica ou bombeira. Cresceu vendo a mãe sair às 7h para trabalhar e chegar só depois das 22h para sustentar os filhos. Sentiu o julgamento nos olhares de outras pessoas por não ter o pai presente e juntou forças por meio dos incentivos da família para remar contra a maré e chegar onde todos diziam ser impossível.

No ensino médio, resolveu apostar num antigo desejo, o de ser professora. Cursou o magistério paralelamente ao segundo grau e, no estágio, percebeu que não tinha o dom para ensinar crianças. Inclusive, o receio de não ter preparação para educar a ponto de modificar a vida de alguém é o que fez com que Juliana optasse por não ter filhos até agora. "Não é um nunca, quem sabe daqui algum tempo eu queira adotar. Se assim decidir, sei que me dedicarei para ser a melhor possível, mas hoje não cabe na minha rotina", confidencia ela.

Voto de confiança

Apaixonada por criar e desenhar, já após o término da escola o desejo de Juliana era estudar Publicidade e Propaganda. As altas mensalidades fizeram com que ela ingressasse no curso de Artes Visuais, na Ulbra, em 2002. Entretanto, a ideia não saía da cabeça e tinha em mente que trocaria a graduação assim que conseguisse. Com metade do caminho percorrido, Juliana foi procurar a coordenação dos cursos de Comunicação da universidade para falar sobre a transferência. Chegando lá, deu de cara com o professor Douglas Flor, de quem recorda com muito carinho. Depois de duas horas de conversa sobre a mudança, o educador disse: "Teu perfil não é de Publicidade, mas de Relações Públicas". Era 2004 e Juliana nunca tinha sequer ouvido falar da profissão, apesar de, na época, já trabalhar voluntariamente com eventos, mas resolveu encarar o desafio e disse que se alguém estava acreditando nela, que fosse o que Deus quisesse: iria estudar Relações Públicas.

Realizando eventos para outros cursos e atividades da Ulbra e conhecendo mais sobre gestão de Comunicação, Juliana foi se descobrindo e acabou se encantando pela direção que escolheu tomar. Já universitária de RP, começou a fazer estágio em uma agência de Montenegro, a Com+, onde atuava na parte de web design. Queria mais, afinal, zona de conforto é um lugar que ela definitivamente não gosta.

Acostumada ao convívio de cidade pequena, já formada, resolveu enfrentar a loucura da Capital e veio trabalhar em Porto Alegre. Teve uma experiência ruim como analista de marketing, da qual prefere nem falar a respeito. Depois, iniciou na área de comunicação visual e relacionamento da Absoluta Produções e Eventos. Saiu com o coração na mão, pois adorava o trabalho, mas, por acreditar viver em metamorfose, não hesitou em aceitar a oportunidade de integrar a equipe do projeto Liga dos Fanáticos, em 2012, para a Copa do Mundo de 2014, no Grupo RBS. Como assistente de eventos, assegura que aprendeu muito e foi na correria de ir e vir de Montenegro todos os dias que decidiu fazer as malas e se mudar de vez para a capital gaúcha.

Adaptação

Há sete anos, mora no mesmo lugar, a conhecida avenida Azenha. As primeiras semanas não foram fáceis, admite. Sentia falta de ter com quem conversar ao chegar em casa, esquecia de comprar pão e não tinha o que jantar, pois não havia ninguém para fazer isso por ela. A preocupação com segurança se tornou maior, visto que foi assaltada algumas vezes, mas aos poucos foi se adaptando à nova realidade. No entanto, conta que às sextas-feiras já saía do apartamento para o trabalho com a mochila pronta para passar os finais de semana com a família em seu município natal.

Após a saída da RBS, resolveu se aventurar como empresária e começou a trabalhar por conta própria como produtora de eventos. Concomitantemente, surgiu a oportunidade de ser professora em um curso técnico da Factum, onde ministrou a disciplina de captação de patrocínio por um ano, durante o período do Pronatec. Da vivência, só boas lembranças. Foi um tempo feliz de compartilhar conhecimento e experiências com outros jovens. Dois professores da época da graduação em Relações Públicas é que despertaram esse apreço pela prática. Guarda como referência Andrea Ataídes, docente que a encorajou a ir além, e também Fernando Noronha, que, com todas as suas experiências, deu muitas ideias à Juliana.

Há dois anos e meio coordenando o setor de comunicação e eventos da Câmara Brasil Alemanha, ela aponta que está feliz com o trabalho que desenvolve, mas por ser inquieta e não acreditar que as pessoas devem fixar longas carreiras em apenas uma empresa, pensa em levantar outros voos no futuro. "Quero tentar algo novo, a gestão da comunicação em si. Atuo há muito tempo com eventos, gosto e sei que faço bem feito, mas confesso que estou cansada", assume ela.

O tempo voa, amor

O sorriso de orelha a orelha, aberto com tanta naturalidade, não deixa disfarçar: é fã de carteirinha de Lulu Santos. Colocou até no perfil do Facebook, pois a ideia é que todo mundo saiba mesmo. E, se consideramos justa toda forma de amor, nada melhor do que amar o artista que faz seu coração acelerar desde criança com suas letras e melodias.

E se não há tempo que volte, ela gosta mesmo é de aproveitar, viver tudo que há pra viver, permitir-se. Já foi workaholic, mas conseguiu perceber a importância de descansar e viver momentos diferentes, os quais, a fazem separar até o celular - tem um número pessoal, só para a família e amigos próximos, e um para assuntos profissionais. "Hoje, consigo ter vida pessoal, mas me conheço, se não me policiar, só trabalho", conta.

E o que mais gosta de fazer? Ah, é parceira pra tudo! Desde tomar chimarrão com os amigos na Redenção, até dançar em volta da fogueira de uma festa junina de família em Cachoeira do Sul, mesmo que as músicas não sejam suas preferidas. Não abre mão de comer uma boa pizza e massas de todo tipo, mas não é chegada em saladas. Quer tirar longas férias, de um a dois meses, para conhecer, quem sabe, a Grécia. Afirma que suas viagens preferidas são aquelas que oferecem, além do turístico, uma história pra contar, uma motivação.

No universo das palavras, leu incansavelmente quando mais jovem José de Alencar e Machado de Assis. O objetivo era melhorar o português, aumentar o vocabulário e, para ela, ninguém melhor que esses dois autores. Lê um pouco de tudo, não recusa boas indicações, mas investe mesmo é em biografias. A preferida até o momento? A do ex-tenista Andre Agassi. Ficou surpresa ao descobrir que, mesmo sendo considerado um dos melhores atletas de todos os tempos, nunca gostou de jogar tênis.

Completude

Fomentar a qualificação e valorização dos profissionais de Relações Públicas é a missão da Associação Brasileira de Relações Públicas (ABRP), presidida por Juliana desde 2018, que compartilha do mesmo sentimento. Chegar neste posto foi uma das maiores conquistas, a coroação de mais de 10 anos de carreira se dedicando à profissão. Iniciou como secretária na regional Rio Grande do Sul/Santa Catarina, viu que as coisas estavam meio paradas e resolveu agitar. Aproveitou a característica que sempre teve - e que a fez dar muito trabalho para a mãe na infância e adolescência por brigar com os colegas e iniciar protestos por mudanças escolares, por exemplo - e começou a aplicar cursos, dar palestras, workshops.

As ações começaram a chamar atenção no Brasil inteiro, viajou para vários lugares para dividir conhecimento e, quando chegou a hora de mudar a gestão da ABRP, ninguém se manifestou. Sendo a mais nova do grupo, ficou com medo de não ser respeitada, pois trabalha ao lado de nomes consagrados como Marcelo Chamusca e Marcos Vinicius, além de outros mestres, doutores, experts da RP, mas deu um passo à frente e se colocou à disposição para assumir a gestão nacional da associação.

Uma pausa no mocaccino, lágrimas escorrendo, ela não consegue esconder a emoção ao falar da cerimônia de posse. Lembra que representantes de Brasília e São Paulo estiveram presentes e que todos ficaram felizes e entusiasmados com a liderança de Juliana. O próximo passo, prevê a presidente, é reativar as regionais da Bahia, Amazonas e Rio de Janeiro e retomar o Congresso Brasileiro de Relações Públicas, que teve sua última edição em 2007, em Aracaju, quando ela ainda nem tinha segurado o diploma ainda.

Considerando-se uma pessoa simples e organizada, Juliana menciona que nada na vida foi muito planejado, foi uma crescente, foi acontecendo - até mesmo a escolha do time do coração, o Corinthians, que se deu aos nove anos, por não querer ser igual a todo mundo e ser obrigada a escolher entre Grêmio e Internacional.

A maior inspiração para nunca desistir é mencionada com muita emoção. Impossível conter o choro ao falar da mãe, que aos 20 anos já tinha ela e o irmão, trabalhou pesado, abriu mão de muito por eles e só voltou a pensar em si mesma ao vê-los na faculdade. Com o apoio dos filhos, dona Mara retomou os estudos, terminou o ensino médio, fez curso técnico em Segurança do Trabalho, conseguiu um emprego melhor e se aposentou com tranquilidade. Agora, a vida é curtir os filhos, o neto, sobrinho de Juliana, e viajar pelo Brasil, pois, conforme a filha, percebeu que cumpriu sua missão ao presenciar, com muito orgulho, as formaturas dos herdeiros e onde conseguiram chegar, apesar das adversidades. E é dessa forma que Juliana pretende seguir a vida, crescendo, evoluindo. "Ninguém muda o que está confortável, este é o meu lema", finaliza ela.

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