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A China é Aqui (Wo chi le, uai!)

Por Sérgio Capparelli Quando voltei da China, ficava envergonhado se me perguntavam o que aquele país tinha de especial. Eu respondia, os chineses e as …

Por Sérgio Capparelli

Quando voltei da China, ficava envergonhado se me perguntavam o que aquele país tinha de especial. Eu respondia, os chineses e as chinesas, mas era uma resposta  breve e sonsa demais. Por isso eu sobrevoava na minha cabeça um mar de idéias sem encontrar nenhuma apropriada.

– Pois é – exclamava.

Faltava uma resposta e sobrava vontade de responder. Quer dizer, resposta para os outros porque para mim era límpido e cristalino que os chineses são descendentes dos mineiros e vice-versa. É um caso muito peculiar, mas em Minas e na China todos os casos são peculiares.

Acha que eu iria falar em público sobre essa teoria? Sou bobo não. Já passei por poucas e boas.

Mas aqui entre nós, logo que cheguei para trabalhar em Beijing, o Hailong, o mais mineiro entre os chineses,  me perguntou:

– Ni chi le ma?

Sim, eu já tinha almoçado.

– Wo chi le, uai!

Ele fazia perguntas com ma, eu respondia com uai. Assim estávamos quites. Mas percebi então que ele repetia essas perguntas nas mais diversas circunstâncias. Quando um chinês pergunta “você já comeu?” ele está apenas querendo saber se vai tudo bem.

Procurei novamente o Hailong.

– Hailong, por que me perguntou “ni chi le ma?”

Ele tentou explicar, soltando uma baforada de fumaça do cigarro:

– Perguntam assim na China. Talvez  do tempo em que o povo passava fome. Se a pessoa tivesse se alimentado, sinal que estava bem.

– Ah, bom.

Pensei que ele tivesse aprendido a perguntar assim com minha mãe, que encontrava alguém na rua e perguntava “o almoço estava bom? E a água da sua cidade é boa?”.

Quando conversei com o Hailong estávamos caminhando sob um túnel verde de sóforas frondosas na Xuanwumen. Um homem, de cócoras, conversava pelo celular. Outro esperava o ônibus. Não de cócoras assim, com o peso na ponta dos pés, mas com os calcanhares bem calcados no chão. Que nem na beira da estrada, em Minas, segurando a palha do palheiro na boca e picando fumo.

– Sabe, Hailong – disse pensativo –, estou me dando conta de que os chineses são descendentes dos mineiros.

– Pode não – ele disse, como quem tivesse morado em Minas –, pode não, sô. A China existe há mais tempo do que Minas Gerais.

– Verdade! – exclamei.

– Verdade verdadeira – completou.

– Mas não desmerece o que eu falo, Hailong. Tem um mineiro, o Carlos*, que diz que é de Itabira. Ele fala que é triste, orgulhoso, de ferro. “Noventa por cento de ferro nas calçadas e oitenta por cento de ferro nas almas.” Ora, ferro é um minério que não se cria da noite para o dia. Ferro é antigo, como a tristeza. Tão antigo ou mais que os chineses.

– Icha, mas isso num pode – reclamou ele.

– Pode, ué! Por que não?

Ficou calado por alguns instantes e depois concordou.

– Tem de poder, né? Isso dá o que pensar.

Eu aproveitei que ele estava distraído e prossegui:

– Os chineses são desconfiados, contidos no bolso e na alegria. Menos quando a mesa está posta. Um chinês no interior  encontra alguém no ponto de ônibus e logo o convida para almoçar na casa dele, como um velho amigo. Em que outro lugar do mundo isso acontece? Em Minas, uai. E essa mania de dar um boi para não entrar numa briga e depois de ter entrado, oferecer uma boiada para não sair, a fim de não perder a face, como dizem na China e em Minas.  Precisamos pensar mais um pouco sobre isso. Acomodar as idéias. E usá-las em caso de necessidade.

– E num é que você tem razão! – ele disse.

– Onde você nasceu, Hailong?

– Numa aldeia a duas horas de Beijing.

– A água é boa?

– Sim, boa.

– O tempo é bão?

– Sim, muito bão.

– Então é uma cidade muito boa, sô.

– Icha, que é!

Eu recordava essa conversa com o Hailong nesse último domingo chuvoso, quando os convidados começaram a chegar para o jantar em minha casa. Eram dezoito dos quarenta jovens chineses que tinham vindo de Beijing para um estágio de língua portuguesa na universidade. Olhe bem, lá estão eles, entrando, um por um.

São jovens, vinte, vinte e um anos, no máximo. Um pouco tímidos, no início, como os mineiros. Fecham sombrinhas, os guarda-chuvas e olham de lado, ressabiados. Comentam sobre o tempo, sobre os ipês floridos nesse início de primavera, sobre a quantidade de gás dentro dos botijões e o que fazer com esses mesmos botijões quando voltarem para a China.

De onde estou, pego apenas pedaços de conversa e risos ao acaso. De repente, fico inquieto no meu canto. Ouvi bem?.

– De onde você é, Olívia?

– De Coromandel.

– Coromandel, onde?

– Ali, perto da Serra da Saudade, no caminho pra Berzonte.

Achei que não tivesse ouvido bem. Claro, sabia que eles adotam nomes ocidentais quando estão entre os ocidentais, porque os nomes chineses são muito difíceis de serem pronunciados. Mas naquele momento, eu estava mergulhado numa doce saudade de Beijing de bicicleta e ouvia a Olívia dizer que era de Coromandel. Logo em seguida, outra chinesa, a Mariana, disse que estava temporariamente em Beijing, mas sua família era do sul, de uma cidade chamada San Xin. Nesse momento dei um pulo na cadeira. San Xin?  San quer dizer três e Xin, coração. Ela estava querendo dizer que era tricordiana, de Três Corações, em Minas Gerais, a cidade do Pelé.

Pena que o Hailong não estivesse ali, para discutirmos essa mútua descendência de mineiros e chineses. A característica de terem os olhos um pouco diferentes  pode ser explicada pelo fato de chorarem muito. Eles choram de saudade por se sentirem tão longe de Minas.

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