
Não se tem notícias que o escritor francês Marcel Proust e o arquiteto catalão Antoni Gaudi tenham se encontrado, embora vivendo no mesmo século e no mesmo continente. No entanto, os dois tem algo em comum – a monumentalidade. Entre as centenas de críticas e papers acadêmicos sobre Marcel Proust, encontramos uma bela definição da grandiosidade de “Em Busca do Tempo Perdido”:
“Uma catedral construida com palavras”.
A autoria da frase é da romancista Marguerite Yourcenar, da Academie Française. Ela escreveu que Proust, como um apaixonado pela arquitetura medieval, construiu sua obra como uma catedral gótica, usando rebuscados recursos de linguagem e de memória.
Uma marca dominante da arquitetura gótica é sua simetria, que se repete em cada um dos detalhes. Assim, cada altar tem um segundo altar como espelho, cada ogiva, uma outra ogiva, e cada vitral tem outro vitral como correspondente. Então, à medida em que a catedral se ergue, suas partes opostas convergem, até se unirem no alto da torre. Da mesma forma, Proust construiu uma catedral usando palavras, construindo cenas e personagens com simetria gótica – onde cada fim de ciclo remete a um recomeço. Segundo os proustinianos, reflete a obsessão com aquilo que o escritor chamava de marcha destruidora do tempo. Hoje se se sabe que muito poucos – ou nenhum – escritor daquela época se aventurou a mergulhar tão profundamente no tema Memória e Tempo.
Antoni Gaudi escolhia materiais que tinham força estrutural, significado simbólico e uma ligação com a Terra, como calcários, granitos, basaltos. Proust desprezou a narrativa linear e em seu lugar criou conexões emocionais e análises psicológicas dos personagens, como um desafio ao Tempo e a incansável busca do tempo perdido. Gaudi ergueu uma catedral que chamou de oração em pedra, que até hoje permanece inconclusa.
Marguerite Yourcenar escreveu que só a literatura é capaz de levar o leitor a enxergar a si mesmo no livro que lê. Na catedral gótica, os vastos espaços interiores convidam à reflexão e à interiorização. Ou, como queria Marcel Proust,
“O leitor, enquanto lê, se transforma
em leitor de si mesmo”.
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