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Estórias campeiras I

Nas conversas no bolicho do galego Joaquim e nas rodas de fogo do Passo Grande assunto era o que nunca faltava. Naquele tempo antigo, na falta de heróis, as façanhas dos domadores de chucros eram motivo de admiração – e de um tanto de inveja.

Um dos campeiros mais bem falados era meu tio Álvaro Vieira de Moraes. Dele se contavam muitas estórias e façanhas.

Uma delas era o causo de um garanhão zaino que jogava na poeira os melhores domadores da comarca. Mas então, chega o Alvinho Moraes, monta, mete freio, rebenqueia e doma o bicho com um braço nas costas. Em outra vez, comentavam da vez em que os homens do governo entraram nas terras dele sem falar o devido:

“- Ó de casa, podemos chegar?”

Foram recebidos a tiros de Winchester.

***

Eu era um guri da cidade, faminto de estórias como aquelas, que não sabia bem se eram inventadas ou de verdade. Mas chegou um tempo que o Tio Arno – mais falador do que os irmãos – me pega para falar das coisas do campo. E foi justamente no mesmo dia, que o Coronel Acácio, um fazendeiro amigo de meu avô caiu mal do cavalo e morreu ao dar entrada no hospital de Tapes. O que se passou então, foi uma aula que eu nunca esqueceria.

Naqueles dias, quando um campeiro batia as botas, não havia muito tempo nem hora para demoradas lamúrias e luto fechado. Se pranteava o morto, consolava a viúva e tocava a vida em frente. Mas, dependendo do calibre do homem, o delegado mandava suspender os bailarecos da vila por 3 dias ou mais.

Os velórios eram solenes, mas sem muito choro, se prolongando até a chegada dos parentes que vinham de longe. Os homens a cavalo, o mulherio e a criançada, de carroção ou carreta e os mais abonados, de charrete. Cansados, com sede e fome e eram recebidos com assado de ovelha gorda e paneladas de arroz com linguiça. Sem falar das garrafas de canha curtidas no butiá – que diziam – curava amarguras e tristezas. E sempre havia alguém para prantear o falecido entoando uns versos tristes de Vargas Netto.

***

Eu devia ter uns nove para dez anos, quando assisti um enterro de verdade. O Tio Dedé me leve até uma estradinha de terra batida, marcada por pedras brancas e com flores do campo nos dois lados. Era o caminho para o alto da coxilha, onde ficava o cemitério da vila. O cortejo subiu devagar, os homens com as montarias a cabresto e as mulheres de braço dado e lenço preto na cabeça. A criançada ficava na baixada, junto aos peões e a cachorrada. Quando o cortejo chegou no alto e se ouviu o choro de uma acordeona, ouvi o Tio Dedé falar prá ele mesmo:

   “- Tá tão bonito que dá vontade de morrer…”.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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