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Ezequiel

 

Qual era mesmo o nome dele? Tinha o nome de um dos profetas dos tempos bíblicos. Lembro que ele morava no Bom Fim com a mãe, uma senhora muito simpática que fazia doces ídiches que eram de “lamber os beiços”, como se falava na época. O mais interessante do caso era que ele não conseguia lembrar de sua infância nem de sua adolescência. Os médicos que examinaram o Ezequiel (agora lembrei do nome!) disseram que se tratava de uma tal de “amnésia involuntária”.

***

Mas a estória não termina aqui. Um dia, ficamos sabendo que o Ezequiel tinha gostos e manias muito estranhas das quais ninguém suspeitava que existiam. E foi ele mesmo que contou sobre sua mania por números.

Parecia algo mais complicado do que mera superstição, era uma verdadeira fixação. Na hora, o pessoal não ligou muito, mas eu fiquei preocupado e tentei entender o que estava acontecendo com o amigo desmemoriado.

Mas no fim de tudo, não gostei do que descobri. Ezequiel confessou que era tão obcecado por números que todo o dia contava os passos que dava desde quando levantava de manhã até a hora de deitar à noite. E que cuidava que o total de passos dados devia sempre terminar em 88, que é um número mágico. Eu devo ter feito cara de espanto, mas ele continuou:

“- Se a contagem ficar abaixo de 88,

eu dou umas voltas no quarto

até chegar ao número certo…”.

Mesmo espantado, ainda quis saber o que ele fazia quando a contagem fica acima de 88. Mas só do ouvir a resposta fiquei cansado:

“- Quando isso acontece, saio para a rua e faço voltas

no quarteirão até completar os 99 passos para

chegar aos 88″.

Depois daquela estranhíssima conversa, passei um tempo viajando e longe de casa. Meses mais tarde, volto ao bairro e pergunto ao pessoal pelo Ezequiel. Foi quando ouvi:

“- Não sabias?

Ele morreu de infarto quando caminhava

no meio da noite pela rua onde morava”.

***

Penalizado e com sentimento de culpa, fui até o cemitério São Miguel levando um ramo de flores violetas que ele gostava. E tomei outro choque, quando vi a gaveta onde ele estava sepultado. Era a de número 88.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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