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Explodindo o clichê

Por Braulio Tavares O clichê é a cristalização de uma expressão. Um dia, ela foi usada pela primeira vez e funcionou.  Todo mundo prestou …

Por Braulio Tavares

O clichê é a cristalização de uma expressão. Um dia, ela foi usada pela primeira vez e funcionou.  Todo mundo prestou atenção e passou a usá-la. Virou uma expressão corrente, depois uma expressão obrigatória.  Passou a fazer parte da linguagem, sendo usada automaticamente, invisivelmente.  As pessoas não usam o clichê para chamar a atenção ou para comunicar algo de novo.  Usam porque serve de atalho. Todo leitor já viu aquilo mil vezes e vai entender na hora, e isso libera sua cabeça para dar atenção a outras coisas.  O clichê é um elemento simplificador porque sua ausência de novidade faz com que seja compreendido sem ser percebido.

O que vale para o clichê da linguagem vale para o clichê narrativo, e cada gênero tem os seus.  Um gênero literário é em grande parte uma coleção de clichês típicos, que se transformam em verdadeiras figuras de linguagem.  Pequenos artifícios já prontos que basta estender a mão, pegar e introduzir na obra que estamos compondo.  Certeza total de entendimento, sem o desgaste de tentar encontrar uma maneira nova de dizer aquilo.

Esteticamente, o clichê se justifica?  Acho que somente quando existe no livro (filme, etc.) alguma coisa que vai muito além do clichê, e o clichê serve como atalho, passagem, porta de acesso mais rápido.  Usar o clichê como meio para alcançar algo que seja muito bom. O romance policial tornou-se, pelo excesso de uso, um verdadeiro museu de clichês.  Os aficionados do gênero (como eu e muitos) não se incomodam.  O clichê nos dá o prazer do reencontro, de ver uma nova variação de um lugar-comum antigo. A gente aprecia o clichê como aprecia um chinelo velho ou a poltrona preferida.

Alguns autores, contudo, usam os clichês como meio para um fim literário diferente.  Umberto Eco, em “O Nome da Rosa”, usa os clichês do romance detetivesco, sherlockiano, para facilitar nossa passagem através de uma história densa em que ele reflete sobre a Idade Média, a política italiana, a natureza da escrita e da memória, a importância filosófica do riso…  Se não houvesse aquela série de crimes, quantos leitores iriam até o fim?

Paul Auster, na “Trilogia de New York”, mistura a rotina entediante dos detetives particulares do romance “noir” com elucubrações existenciais que lembram Albert Camus ou Samuel Beckett.  Camus, aliás, dizia ter baseado “O Estrangeiro” nos romances “noir” de autores como David Goodis.  O clichê e a alta literatura não são inimigos, mas é mais fácil (e mais frutífero) alguém da alta literatura saber usar bem um clichê do que o contrário.  A alta literatura, aliás, fez sua fama em cima de algumas das mais respeitáveis fontes de clichês existentes, como a mitologia grega e a Bíblia.  Por existirem há milhares de anos e terem praticamente formatado nossa cultura, são uma fonte inesgotável de personagens, situações, episódios, peripécias.  Que pelo excesso de uso viraram clichês, mas estão sempre à disposição para que alguém lhes dê uma utilização nova.

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