Por Mário Rocha
Cá estou eu. Estupidificado. Mais, muito mais. Diria, sem medo de errar, que me sinto tremebundamente estupidificado. E não estou a fazer um chiste, mote, motejo, pilhéria, facécia, galhofa ou que outro sinônimo de brincadeira caiba colocar. Pela primeira vez na vida encontro uma frase em que, afora uma conjunção coordenativa e um artigo definido feminino plural, todas as demais palavras me são absolutamente desconhecidas.
Havia guardado o Segundo Caderno da Zero Hora de 28 de julho de 2012 para reler o excelente artigo de Nilson Souza intitulado O quinto poder (p. 5). Fi-lo. Fi-lo, porque o quis, e não fi-lo porque qui-lo (sic) uma vez que esta construção frasal, além de não ser de Jânio Quadros, conforme li, ainda por cima está gramaticalmente incorreta, conforme também me explicaram, uma vez que o “porque” atrai o pronome.
Portanto, fi-lo, escrevi eu no parágrafo acima, mas por assim o desejar. Após reler, a coluna estava sendo recortada para conservação longe do lixo reciclável e ao alcance do meu criatório de traças quando – homessa! – deparei-me, no verso, em prosa, com a carinha sorridente da Laura Hickmann logo abaixo da sua assertiva carregada de certezas (evidentemente, pois sem este transporte não seria assertiva): “Avenida Brasil é um baita win: nunca uma novela rendeu tanto nas redes sociais. Memes e gifts flodam as timelines!”.
Estimo que “memes” e “gifs” sejam substantivos e que “flodar” seja um verbo. Recuso-me a pesquisar na internéti e vale o mesmo para o significado atribuído a “timelines” – para mim, linhas de tempo, mas vai que seja outra coisa bem diferente para o pessoal que lê Kzuka em ZH? Não viajei imediatamente em busca dos significados. Por orgulho? Ledo (Ivo) engano. É pelo prazer de prolongar a ignorância que mantenho o google bem longe. É pela reafirmação da humildade necessária a quem faz da junção de letrinhas em palavras e destas em frases o seu mister diário.
“Eu sou eu e minhas circunstâncias”, garantiu-nos Ortega y Gasset. “Eu sou eu e meu vocabulário” acrescento, mesmo sem licença do filósofo espanhol. Então, para mim, ciscar nos textos dos outros deixa de ser isso mesmo – enfiar o bico na terra suja em busca do resíduo alimentar – quando volta e meia se transforma no momento sublime do garimpeiro: na bateia, refulge sob o sol o ouro tão ansiado ou desvela-se, ante a luz artificial, incrustado na pedra lá no fundo da mina. Surgem, majestosas, para gaúdio deste leitor, a palavra insólita, a frase estilosa, a ideia inusitada…
E o SOS? Envio três pontos (um S), três traços (um O) e mais três pontos (outro S) como pedido de socorro em busca de quem se disponha a me traduzir “memes”, “gifs” e “flodar”. Retribuo informando que se trata de Código Morse e que foi utilizado até 1999 na radiotelegrafia marítima. “Save Our Soul” (salve nossas almas) ou “Salve Our Ship” (salve nosso barco) explicam a natureza do apelo. A radiotelegrafia, hoje, está tão distante das embarcações quanto a linotipo das oficinas de jornal.

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