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O Mágico e o Fantástico

Por Braulio Tavares Existem dois termos que a imprensa literária usa de modo intercambiável: “Realismo Mágico” e “Realismo Fantástico”. Eu acho que os dois … <

Por Braulio Tavares

Existem dois termos que a imprensa literária usa de modo intercambiável: “Realismo Mágico” e “Realismo Fantástico”. Eu acho que os dois exprimem coisas muito diferentes, acho que são usados de maneira irrefletida e confusa, e para aclarar essa confusão proponho a classificação abaixo.

O “Realismo Mágico” é aquele tipo de narrativa literária em que uma história aparentemente realista na sua descrição de ambientes e de personagens inclui também elementos impossíveis de acontecer, mas que obedecem a uma lógica emocional da própria narrativa. Exemplos clássicos são “Cem anos de solidão” (1967) de Garcia Márquez ou “Midnight’s Children” (1980) de Salman Rushdie. É um tipo de história característico de culturas em que um verniz europeu (cientificista, cartesiano) se sobrepõe a uma medula indígena ou milenar (dominada pelo pensamento mágico), o que dá origem a essas infiltrações. Predomina na América Latina mas também tem versões próprias nas literaturas orientais: Índia, China, Japão. O romance e o conto (ou seja, as prosas de ficção) são o seu território principal.

O “Realismo Fantástico” é algo próprio da prosa de não-ficção: o ensaio (ou pseudo-ensaio), a reportagem especulativa, o jornalismo investigativo voltado para assuntos misteriosos e controvertidos. Os melhores exemplos de realismo fantástico são os livros “O Despertar dos Mágicos” (1960) de Pauwels & Bergier (que usa esse termo em seu subtítulo) e “Eram os Deuses Astronautas?” (1968) de Erich von Daniken, que têm como precursor ilustre “O Livro dos Danados” (1919) de Charles Fort e a série “Believe it or Not” (1919) criada por Robert L. Ripley. Neste caso, não se trata de romances de ficção, e sim de explorações semi-jornalísticas de fatos inexplicados, curiosos, insólitos, absurdos. Para essas obras, o termo “mágico” não se aplica muito, porque ele não exprime a presença de uma visão mágica do mundo, e sim a mera existência de fenômenos extraordinários que o nosso “realismo” ainda não aceita: extraterrestres, criaturas fantásticas, conspirações, pseudo-ciência, etc.

A principal distinção entre os dois, contudo, é o fato de que o primeiro é composto de literatura de ficção, e o segundo de textos de não-ficção. O Realismo Mágico conta histórias assumidamente inventadas pelo seu autor, as quais, como toda obra literária, oferecem uma visão pessoal e profunda da condição humana. O Realismo Fantástico apresenta discussões factuais sobre assuntos controversos, geralmente propondo uma versão um tanto fantasiosa dos fatos, o que bastaria para classificá-lo como uma espécie de “jornalismo imaginativo” ou de “ensaística da imaginação”.

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