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O último dia de coletiva

Por Francisco Brust, para Coletiva.net

O ofício de assessor de comunicação ainda não era objeto de estudo nas faculdades de Jornalismo quando deparei-me pela primeira vez com uma coletiva de imprensa. Muito mais que um momento especial para a apuração de informações trazidas a público por determinada empresa ou autoridade, a conferência de imprensa sempre foi uma oportunidade de aproximação com os colegas que estão no front da reportagem: numa coletiva, há o pré, o durante e o depois, há os intervalos e as brechas para as conversações olho no olho, para o bate-papo informal e, quando possível, até para a descontração. Por outro lado, fora das coletivas, o dia a dia corrido de quem trabalha nos veículos com dezenas de telefonemas, e-mails e mensagens de WhatsApp abreviou a capacidade de aproximação entre assessores, editores, pauteiros e repórteres. Tenho, portanto, um diagnóstico um pouco triste: se é verdade que a tecnologia facilitou a apuração das pautas pelos jornalistas, também me parece claro que estes novos canais distanciaram um pouco os profissionais do nosso ramo.

A organização da coletiva de imprensa é um momento sublime para o assessor. Pensar e executar os detalhes da recepção, dos convites, do material impresso, do conteúdo a ser cuidadosamente abordado pela fonte, tudo compõe um ritual quase sagrado que pode culminar no sucesso ou no fracasso de determinada pauta ou evento. É a Copa do Mundo para o profissional de assessoria. Noviço no meio, arrepiei meus cabelos quando ouvi pela primeira vez aquela chuva de termos não traduzidos que acercam as coletivas, e não há muito que me adaptei a eles. Press kit, release, follow, entre outros quetais, são palavras comuns à rotina de quem está deste lado do balcão – mais recentemente incrementada pela verborreia das soluções de videochamada (Zoom, Skype, GoogleMeet…). Mas as coletivas de outrora já estavam minguando mesmo antes da tal pandemia. As redações, cada vez mais enxutas, precisam desdobrar seus repórteres em três, quatro, por vezes cinco pautas por dia, e o tempo escasso para desmembrá-las coloca um ponto de interrogação no futuro deste formato de encontro.

Antes momentos demorados e cheios de integração com os colegas do meio, as coletivas tendem a ser cada vez mais rápidas, pontuais, céleres. Quase frias. Recordo-me de ouvir há uns anos, embora não sem surpresa, a um relato do colega Juliano Rigatti, à época assessor de uma grande multinacional do varejo. Ele havia promovido uma coletiva que não teve participantes; restaram somente ele, a fonte e as cadeiras vazias na sala. Aquilo me pôs a pensar: com este trânsito imprevisível, com os mil e um meios de comunicação, com a internet penetrando em nossos poros com velocidade cada vez maior, até quando fará sentido reunir jornalistas fisicamente para destrinchar determinado assunto? Qual será o último suspiro das coletivas?

Há veículos que, segundo me confidenciaram seus profissionais, já institucionalizaram a regra de não comparecimento a conferências de imprensa. A intenção é de que seus repórteres apurem o diferente, retornem à pedra-fundamental do jornalismo e descubram a sós, no íntimo, no relacionamento com a fonte, no contato individual, alguma informação que será exclusiva, diferente, quiçá avassaladora. Mas outros tantos continuam prestigiando as conferências em grupo, enviando seus representantes. Cumprindo os rituais sagrados das coletivas e alegrando os assessores em suas Copas do Mundo particulares. O último dia de coletiva há de chegar, não tenho dúvidas. Até lá, vamos cumprindo as deadlines e promovendo mil e um media trainings. Quem sabe à espera de um exitoso e definitivo clipping.

Francisco Brust é assessor de imprensa e coordenador de capacitação da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas).

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