O Instituto Ling me pediu para falar sobre “Serotonina”, romance de Michel Houellebecq, cuja literatura eu introduzi no Brasil nos anos 1990 com a tradução de “Partículas elementares” e “Extensão do domínio da luta”, ambos publicados pela editora Sulina. Dei a palestra. Continuei a pensar sobre esta questão: é possível refletir nossa tragédia cotidiana, em tempos de pandemia, a partir de uma obra literária? Podemos tirar daí lições sobre como vemos o mundo?
Escritor francês mais comentado da atualidade, Michel Houellebecq, nascido na ilha da Reunião, é um mistério para muitos. Por que faz tanto sucesso? Resenhas de seus livros saem com destaque até em jornais como “New York Times”. O francês “Le Monde” já publicou editorial sobre a obra do autor de best-sellers como “Submissão” e “A possibilidade de uma ilha”. Considerado conservador por muitos, machista ou misógino, Houellebecq é um fotógrafo competente, um poeta delicado e um romancista de senso de observação aguçado. Os seus livros apresentam algumas características recorrentes: uma história pessoal, normalmente de um personagem em queda livre, em paralelo com uma história social de grande impacto. Ao final, ambas se fundem.
Nessa linha, ele já abordou o turismo sexual, o terrorismo, o fanatismo religioso, o desenvolvimento tecnológico e científico e, no caso de “Serotonina”, seu último romance, a depressão (plano individual) e a crise da agricultura francesa no contexto da globalização (plano social0. A principal ferramenta literária de Houellebecq é a ironia. O seu texto é cristalino, sem rebuscamentos, sem floreios, sem poetização ou literatice. Crítico do velho Novo Romance, apaixonado por Balzac, Houellebecq quer contar histórias que reflitam as dores do cotidiano. Com frases curtas, secas, certeiras, produz uma teia que faz rir, chorar, amar e odiar. Por trás do narrado, há uma tese permanente: o fracasso da sociedade do consumo, o horror do capitalismo na sua etapa espetacular, a contribuição de maio de 1968 para um mundo sem referências nem sentido, a disseminação de um vazio existencial sem retorno. O seu forte é a verossimilhança cruel.
O estilo de Michel Houellebecq aparece inteiro em passagens como esta, de “Serotonina”: “A nicotina é uma droga perfeita, uma droga simples e dura, que não traz nenhuma alegria, que se define inteiramente pela falta e por fazer essa falta cessar”. A sua ironia brutal revela-se em descrições rápidas: “Os efeitos colaterais indesejáveis mais frequentes observados no Captorix eram os enjoos, o desaparecimento da libido, a impotência. Eu nunca tinha sofrido de enjoos”. Outras variações da sua ironia sem concessões aparecem sem cessar ao longo de cada página. Exemplo, depois de o solitário personagem encontrar duas jovens sensuais que lhe pediram ajudar para calibrar os pneus do carro: “Voltei para casa. Tive uma ereção, o que não era nada surpreendente considerando os acontecimentos da tarde. Eu a tratei pelos meios habituais”. Ereção como sintoma. Tratamento.
O narrador personagem, que sempre tem algo do escritor Michel Houellebecq e muito do que ele não foi e possivelmente nunca será, alfineta Deus e o mundo. Ao falar da sua namorada japonesa, ele informa que ela tem “uma pele de porcelana, como se diz nos romances de Yves Simon”. O paradoxo dos romances de Houellebecq consiste no fato de que os personagens não são reacionários, especialmente o protagonista, não querem voltar no tempo, mas constatam que um modo de vida foi desmontado e nada mais eficaz foi colocado no lugar. Ateu, o escritor sugere que sem religião e sem rituais os seres humanos se perdem. Não pede um retorno à fé. Salienta o seu lado funcional como ordenador social. O mesmo vale para a família tradicional. Não há qualquer sugestão de que se possa ou deva voltar ao modelo superado pelos tempos modernos ou pós-modernos. Há a afirmação de que, sem essa forma, parte da humanidade mergulha na solidão e no desemparo sem saber o que fazer durante as festas ocidentais de final de ano, época de suicídios.
O médico que o personagem de “Serotonina” consulta, quando vê o fim de ano se aproximar, recomenda-lhe que procure as prostitutas em algum país asiático. É brutal. A química não segura o deserto das relações sem rituais que pontuem a passagem do tempo. Em “Partículas elementares”, o cientista bem-sucedido, homem da razão, tem uma vida vazia sem mitos nem crenças, que não podem ser retomadas dado que foram corretamente eliminadas. Em “extensão do domínio da luta”, o sexo é um sistema de hierarquia social. O mundo se divide em duas classes irreconciliáveis: os com e os sem sexo. O acesso ao sexo exige capital social: dinheiro, beleza, prestígio, fama, etc. Não é para todos. Especialmente o sexo recomendado pela publicidade e pelo cinema.
Derrotado, apesar de ter tido dinheiro e amores, o personagem de “Serotonina” caminha para o suicídio depois de ter largado tudo para vier anônimo num hotel de Paris. As suas reflexões são atrozes inclusive sobre as suas percepções de quando era jovem: “Me parecia inverossímil se interessar por outra coisa que não as garotas – e o pior que aos 46 anos eu me dei conta que eu tinha razão na época: as garotas são umas putas, pode-se dizer assim, mas a vida profissional é uma puta maior ainda, que não dá prazer algum”. Eis a opinião de um homem que autodescreve, no momento de largar tudo, como o “homem ocidental de meia idade, protegido da necessidade por alguns anos, sem parentes nem amigos, destituído de projetos pessoais e verdadeiros interesses, profundamente decepcionado com sua vida profissional, tendo tido experiências amorosas variadas interrompidas, sem razão para viver ou morrer”. Como tantos. Paris, ele diz, “foi feita para gerar solidão”. É triste, desesperador e, para muitos, verdadeiro.
Michel Houellebecq aparece em estado bruto nesta passagem sobre sociólogos que falam em recomposição familiar: “Nunca vifamílias recompostas”. Em contrapartida, viu famílias “decompostas”. Em grande parte, a crítica de Houellebecq à sociedade de consumo é a mesma da esquerda ou da direita. A diferença está na solução: o escritor não vê saída. Não vê como voltar atrás nem como seguir em frente. O futuro é um buraco negro. O passado, um buraco branco. Só resta encontrar medicamentos para sofrer menos. Menos revolução, mais antidepressivos.
Juremir Machado é jornalista e professor na Famecos.

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