Artigos

Porto Alegre, 973 mortos por milhão

Por Letícia Heinzelmann, para Coletiva.net

Sempre fui uma democrata otimista, crente de que, apesar das diferentes visões políticas sobre como gerir a coisa pública, todos os candidatos num pleito querem o bem da cidade, do estado, do País. Estas instâncias são feitas de pessoas, que aliás são os eleitores, portanto, acredito que todos os candidatos se preocupam, a sua maneira, com vidas. 

Dito isso, confesso que desta vez estou receosa com o discurso vencedor antes mesmo do novo prefeito de Porto Alegre assumir. Sempre respeitei e admirei sua trajetória, tinha o prefeito eleito como um político sensato, mas assusta sua promessa extrema de, em hipótese alguma, ignorando por completo os números da pandemia, não retomar quaisquer restrições à circulação e ao comércio em Porto Alegre. Não é exatamente um exercício de futurologia, pois a posse é logo ali, em 1º de janeiro, e a curva de casos e mortes por covid-19 está em plena ascensão. 

É claro que o recuo econômico impacta na vida das pessoas, mas para minimizar isso é que os governos devem agir com contingências. Pode haver um plano municipal de apoio a empresários e trabalhadores, e o prefeito também deve agir cobrando as instâncias estadual e federal neste sentido. Mas a defesa de não recuar em nenhum grau as atividades na cidade é a promessa de expor seus cidadãos a um vírus que nunca deixou de circular e está mais ativo do que nunca.  

E antes que me ataquem (ou depois, pois não tenho a pretensão de não desagradar o empresariado), lembro que também sou empresária, também fui impactada, também temo pelos empregos que gero. Mas se continuarmos negando o impacto do comércio aberto na saúde coletiva, nunca teremos uma data para o fim da crise. Estamos apenas adiando a retomada plena, enquanto nos colocamos em risco: pequenos empresários, que estão na linha de frente de seus negócios, nossas famílias, funcionários e clientes. 

Porto Alegre tem cerca de 1,5 milhão de habitantes e já ultrapassou 1,5 mil mortes pelo novo coronavírus. Uma parcela significativa da cidade morreu! Em mortes por milhão, é um dos índices mais altos do mundo: 973,85 ante 803 na média brasileira e 801 na norte-americana. E já está provado que a atribuição da restrição de circulação ao “bom senso da população”, como pediu o atual prefeito, não surtiu efeito. A população precisa de liderança, até para cuidar de sua própria saúde, de sua família e seus concidadãos. 

A esta altura, diante de uma pandemia nunca antes vivenciada por nossa geração, nenhuma outra política importa. Se é necessário ou não privatizar empresa de ônibus ou saneamento básico ficou irrelevante. Economia (mesmo a pública) se recupera, vidas não têm volta.  

Jornalista, empresária e estudante de Museologia

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.