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Estávamos viciados

Por Iraguassu Farias, para Coletiva.net

Estou com delirius tremens abstinência… um tal de “não sei o quê”. A tal CPI da Pandemia inoculou-me uma droga desconhecida e agora sinto a falta dela. Os dias demoram a passar e o tédio quase toma conta. Até tive de me concentrar mais no trabalho por conta do recesso.

Aliás, cheguei a rogar praga ao Rodrigo Pacheco, pois num ato de civismo, bradei que não poderia ter recesso no Senado. Onde se viu algo assim? Recesso? Meus dias não são mais os mesmos sem a CPI. Que saudade do ex-vilão Renan, das aulas de direito penal do Contarato. 

Me digam: como nós saberíamos da existência da Mia Khalifa se não fosse o Heinze? E o Randolfe – que dizem ser de batismo Randolph, com suas intervenções de sacristão e a quem o presidente se refere jocosamente de saltitante, seja lá o que isto queria dizer? Soube há pouco que o Randolfe – ou seria Randolph? – é avô. Como eu saberia disto se não acompanhasse a CPI.

Já vi muitas CPIs desde Collor. Mas esta é especial. Espero sempre para ver o Eduardo “o povo quer saber” Girão (lembrei que preciso saber mais sobre o tal Consórcio Nordeste). E o delegado Alessandro Vieira? Nem sabia que ele existia, tampouco a Simone Tebet (quer dizer, dela eu tinha ouvido falar, mas não que era assim, tão inteligente).

O líder do Governo, o Bezerra, não usa o Coelho no sobrenome político, mas que todos sabemos ser dono de Petrolina, sempre está à beira de um ataque do coração, de tão vermelho que fica. E o Marcos “eu amo minha voz” Rogério? Que voz…que sonoridade! Eu acho que ele está ali diariamente pra fazer vergonha às vozes de Humberto Costa e Randolfe (olha ele aí de novo).

Tantas figuras que nos eram desconhecidas… Quem conhecia o Otto Alencar, que nem parece médico e… da Bahia, que faz fronteira com o Espírito Santo, de onde veio Marcos do Val, este sim com uma calma baiana ao falar? Chega a dar sono.

Aliás, sono é o que não ocorre. Especialmente quando o comando está com o Aziz, que tá com gana. Tanta gana, que se sai com um “teje preso” (vai dizer que não ficou pensando depois em quem seria o próximo a receber voz de Aziz de prisão?). Porque, convenhamos: o teje preso foi sonoro.

Todas as identificações caricatas – espero não ter superado o limite da falta de respeito, são apenas pano de fundo para falar no poder da televisão. Especialmente, dos canais de notícias. Já estou sabendo de cor a programação da Globo News, da CNN, da Band News e sei lá mais quem.

De terça a quinta-feita, e às vezes sexta, já começamos o dia com um pote de pipoca. Futebol passou a ser segundo plano, e já tem gente reclamando que só vê o comendador José Alfredo porque às 21h30 não tem CPI, porque “já abriu a sessão deliberativa do Senado”.

Tem gente que, juro, vê os jornais da noite só pelo prazer de dizer pra si mesmo: “ah, cês tão atrasados…já vi tudo isto ao vivo de tarde”. E, pior do que torcedor assistindo reprise de jogo que viu no estádio, fuçamos blogs de notícias, à esquerda e à direita, para ver a repercussão dos mesmos episódios que vimos ao longo do dia.

E se não tivéssemos certeza do poder da mídia, o home office está aí pra fazer com que muitos dêem aquela paradinha em frente à TV da sala pra perguntar: “E aí? Tá falando ou tem salvo conduto do STF?”. Já perdi as contas de ouvir a esposa dizendo: “Vem cá, ligeiro! Este tá mentindo”.

Não creio em maior politização, não. Nem promoção como se fosse programa bem patrocinado. Pode ser que o momento pelo qual o País vive tenha ajudado nesta audiência. Mas é inegável que esta CPI atinge níveis extraordinários de audiência. E tal qual a novela ou série de streaming, retém e convida ao próximo capítulo. Ao sabermos de quem será a oitiva no próximo dia, ou programamos a pipoca (prefiro a salgada), ou projetamos almoçar com toda a tranquilidade no dia seguinte porque o personagem da trama não tem apelo.

Passamos a entender mais sobre vacinas, aprendemos o que é um adenovírus, e até o art. 14 do Regimento, que autoriza questão de ordem (para chamar outro de vagabundo, nem precisa. Ou de palhaço).

E, como qualquer produto televisivo, criam-se os queridinhos da mídia – ops, da CPI. De onde surgiu a Dra. Luana? E esta Pasternak, que nem médica é? Até o Osmar Terra [plana?] teve palanque. O que dizer do cabo de olhos arregalados de MG, que dizia ter na guaiaca 400 milhões de doses de vacina?

Bem, talvez eu tenha retratado aqui muitos comportamentos. Ou não. Mas é inegável que um fato de natureza política, em época tão estranha de pandemia, com protagonistas que, segundo pesquisas, gozam de pouca credibilidade junto à população, tenham tamanha audiência, pautem diariamente a grande mídia, muitos cidadãos, e nos deixem tão expectantes para o próximo capítulo.

Não sei vocês, mas eu estou contando os dias para chegar o 3 de agosto. Enquanto isto, vou me entretendo com vídeos vazados, notas de generais, intestinos presos e o Centrão. Ah… este Centrão hein?

Iraguassu Farias é diretor Comercial de Coletiva.net.

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