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Telefone sem fim

Por Franscisco Brust, para Coletiva.net

Há muito os especialistas no assunto vêm discutindo a queda de audiência, o futuro e a possível extinção de alguns veículos de comunicação mais tradicionais, como o jornal impresso, a revista e a tevê, que então desapareceriam para sempre de nossas vidas. Pois quero hoje gritar ao mundo e profetizar, clamando para que um outro meio de comunicação suma do mapa muito antes de qualquer destes outros: o telefone. 

Lá se vão quase 150 anos desde que Graham Bell inventou este mecanismo, então revolucionário, para garantir a comunicação a distância. Acontece que as coisas, como já era de se esperar, mudaram um bocado neste período, e agora os aparelhos – convertidos em “smartphones” – têm mil e uma funções mais importantes do que a da ligação. Penso que, assim como fizeram com a quase completa substituição ao SMS, as soluções como o WhatsApp e o Telegram também tendem a, pouco a pouco, eliminarem as ligações convencionais de nossas vidas. Particularmente, tenho pavor ao toque do meu próprio telefone: quando alguém me liga, eu tenho uma automática pequena crise de ansiedade, as mãos começam a suar e meu humor desaba. Atender ao telefone me entristece.

Mas, às vezes, as ligações também me alegram, é verdade. Estes dias me telefonou a Giane Guerra, para saber qualquer coisa sobre supermercados. Senti-me honrado e atendi sorrindo. Tenho a firme impressão de que também seriam alegradoras as ligações de Chico Buarque ou da Ísis Valverde, por exemplo, assim como meu peito se encheu de entusiasmo quando por vezes, há alguns anos, recebi ligações de Almir Guineto, meu ídolo máximo na música. Mas não é sempre que o telefone me faz bem.

Tenho um amigo, o Orlando Capra, que pula de alegria quando toca o seu celular. Ele abre os braços e pede silêncio a todos, sussurrando pra quem estiver por perto, sempre sorridente e apontando para o telefone: “Estão me ligando! Estão me ligando!”. Atender ao telefone lhe é um momento único, mágico, quase solene. Queria ter essa relação com meu celular, mas desde o início da faculdade de Jornalismo, ainda estagiário, eu tinha pânico dos temidos “follows”, imprescindíveis antes de qualquer coletiva de imprensa ou após o envio de uma sugestão de pauta. Houve uma vez em que um premiado jornalista das antigas atendeu minha ligação e respondeu, quando perguntei se ele havia recebido nosso convite: “Tu não mandaste para o meu e-mail? Então, obviamente que recebi…”. E desligou. Aquilo fez sentido.

O que eu realmente penso, sobretudo, é que a multiplicidade de opções de contato faz com que as pessoas sobreponham os canais, exagerem no uso destes meios, dupliquem, tripliquem, quadripliquem uma mesma informação para ter certeza de que ela chegará ao receptor. Há uma espécie de falta de etiqueta na comunicação. Dia desses, um colega me ligou, em meio a um momento turbulento de trabalho, e cravou: “Só estou te ligando pra dizer que acabei de te mandar um e-mail…”. Ora, ainda bem que ele avisou. Não é exagero?

Não que eu tenha aversão às pessoas, pelo contrário. Ouvir a voz de alguém querido é sempre bom. O que incomoda é a ligação na hora errada. O inconveniente do telefonema é a surpresa, o desvio do foco no momento inoportuno, o atraso naquele texto em que tu tinhas recém embalado.

Tu estás criando uma ideia e, quando os pontos estão começando a se cruzar na tua cabeça, toca o telefone. Tu estás em uma apresentação online, a palavra contigo, 50 pessoas ávidas para saber o que tu tens a dizer, e toca o telefone. Tu estás no banheiro e toca o telefone – telemarketing. Até quando? Só o tempo irá dizer. Os áudios gravados de WhatsApp já são uma evolução às ligações convencionais: é possível falar, ouvir a voz, matar a saudade, escutar quando puder e responder quando quiser. Ah, e nos dão ainda o magnífico poder de colocar na velocidade 2 os amigos mais enrolados. Portanto, quando possível, na dúvida, evite me telefonar. A menos que tu sejas o Chico Buarque ou a Ísis Valverde – se for o falecido Almir Guineto, então, eu certamente não atenderei. Nem pensar.

Francisco Brust é assessor de imprensa e coordenador de capacitação da Associação Gaúcha dos Supermercados (Agas).

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