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Fim sem festa: 2021 melancólico da dupla Gre-Nal prejudica todo mundo

Por Rafael Cechin, para Coletiva.net

Definitivamente, não é só futebol. A paixão por Grêmio e Inter provoca sentimentos de todos os tipos nos gaúchos, pro bem e pro mal. No ano que está terminando, infelizmente, foi somente para o lado ruim. As péssimas campanhas dos dois clubes em competições nacionais e internacionais são marcadas pelas tradicionais flautas por conta do fracasso do rival. Afinal, isso é bom para alguém? Não. E o mercado da Comunicação é um dos afetados. Jornalismo, Publicidade e Marketing vão ter um 2022 menos brilhante em relação à dupla Gre-Nal. Não se assuste! Prepare-se – ainda mais – para ser criativo.

Quando um está fraco, os dois se enfraquecem juntos. Se ambos estão fracos, os prejuízos são sentidos por todos. Debates, programas em geral, matérias e coberturas de jogos sofrerão com pautas voltadas a partidas contra adversários de menor importância. Nada de Boca Juniors e River Plate! Sem desmerecer – e desmerecendo totalmente – teremos pela frente clubes de segunda linha do futebol do continente e, no cenário nacional, a Tombense de Minas, o Operário do Paraná e o Brusque de Santa Catarina.

Sem falar nas audiências. Pouco antes do início da pandemia, vivemos o paraíso no Rio Grande do Sul. Em 2020, a dupla Gre-Nal disputou a Libertadores ao mesmo tempo, ainda por cima com o primeiro clássico da história no principal torneio sul-americano. Reflexo disso, as audiências de emissoras de TV e rádio, cliques em portais e assinatura de jornais – mesmo que ainda em declínio – tiveram números espetaculares. 

Como gerente de Esportes do Grupo RBS na época, me lembro de celebrar os resultados em todas as mídias. Sempre que se falava de Grêmio e Inter, os acessos às plataformas explodiam. A receita também tinha acréscimos, à medida que publicidade e número de assinantes tinham crescimento exponencial. A parada causada pela Covid-19, é claro, alterou o quadro. Imagina como será em 2022? Para defender investimentos do mercado publicitário, poucos dos já abatidos veículos de comunicação poderão contar com dados de IVC, Analytics e Ibope.

Falando em publicidade, o fracasso da dupla Gre-Nal certamente tira força de agências para atrair verbas de empresas aos patrocínios no futebol. Os próprios clubes serão prejudicados, levando junto para o fundo do poço os profissionais da comunicação. 

Para quem não sabe, nos últimos anos dirigentes gremistas e colorados na maioria das vezes se uniram para buscar as marcas que estão nas duas camisetas. Primeiro, em função de que poucos querem ligar seus nomes a só um dos lados. Segundo e principal motivo é porque, fortalecidos, ambos conseguiram melhores negociações e mais dinheiro com patrocinadores. Agora, provavelmente essa remuneração será bem menor.

Outro efeito que será sentido é a redução de Gre-Nais no próximo ano. É possível só termos os confrontos do Gauchão, dois ou três. Uma disputa direta entre as duas paixões dos gaúchos movimenta milhões de reais. Na venda de pacotes do pay-per-view – que também vira renda para Grêmio e Inter –, nas bilheterias e patrocínios dos estádios, em ações de marketing envolvendo os rivais, em vagas de emprego na indústria de comunicação geradas pelas oportunidades de negócio. Será difícil compensar o prejuízo de perder os clássicos do Brasileirão da Série A e válidos por algum torneio na América do Sul.

Por fim, deve aparecer a temida redução de custos. Os apitos finais na última rodada do Brasileirão, nesta quinta à noite, fazem com que os departamentos financeiros das empresas tenham de se debruçar nas estimativas para 2022. O que esses cálculos costumam produzir? Demissões e cortes de investimentos. A diminuição da renda com o futebol provocará a necessidade de menores despesas em áreas relacionadas ao esporte. 

Claro que não estou dizendo aqui que é errado secar, porque trata-se de uma instituição do nosso Estado. O problema é que colorados que celebram um rebaixamento e gremistas que comemoram uma ausência na Libertadores estão se esquecendo do que alimenta ambos: a força da rivalidade.

Logicamente, a criatividade terá de aparecer. “Na Crise, Crie” é um lema necessariamente adotado por todos. Na história, não é a primeira vez em que o mau desempenho em campo afeta muita gente fora dele. A dupla Gre-Nal nem sempre lutou pelos principais títulos, esteve na Série B em outros anos, foi eliminada precocemente de vários campeonatos. A diferença agora é que a transformação do mercado naturalmente causa incertezas enormes.

Domínio de Google e Facebook, audiências e receitas em queda nas mídias tradicionais, e a migração para o digital motivaram uma rotina de reinvenção dos meios. E se o ambiente não anda muito favorável quando os nossos times estão bem, a piora deles também cria oportunidades.

Empresas e entidades que adotarem um olhar diferenciado em relação às preferências de consumo de seus públicos largam na frente na “corrida de recuperação”. A aposta em plataformas digitais próprias parece ser tendência irreversível para todos os segmentos. É preciso, cada vez mais, se aproximar do receptor. Ações de marketing, como já acontece, têm de levar em conta o que pensam as pessoas que vão comprar os produtos. Novidades, lançamentos e relançamentos vão ser mais frequentes.

Não é só futebol. Mesmo. Os erros de gestão que levaram um lado de finalista da Copa do Brasil e favorito a taças para a Série B e o outro de vice-campeão brasileiro a coadjuvante com vaga apenas na Copa Sul-Americana criam uma onda de más notícias também em nossa indústria. Não dá para ficar lamentando. É necessário responder com criatividade, se transformando de forma contínua. O ano que vem não será o mesmo para muitas áreas. Torço muito para estar errado e que o cenário seja vantajoso, não caótico. Cabe a todos lutar para construir um 2023 muito melhor. Nos estádios, gramados, nas redações e em escritórios gaúchos. Se você está comemorando o fracasso do rival hoje, pense bem em como será amanhã.

Rafael Cechin é jornalista e sócio-fundador da Exponencial Pessoas & Negócios, Comunicação & MKT

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