Todo ano é a mesma coisa, a mesma resenha, os mesmo desejos e os mesmos balanços. Todo mundo é legal com todo mundo, e todo mundo lembra de Deus e dos melhores instintos humanitários. Uns do Deus judaico-cristão, outros do deus de Spinoza (recomendo) e outros de deus algum. Na comunicação gaúcha, muitas perdas. Algumas muito, muito dolorosas, pois evitáveis ou inexplicáveis. Foi-se o Pinta. Foi-se o Chitto. Foi-se o Romulado. Foi-se o Porcello e tantas outras vidas, em sua maioria ceifadas por este vírus maldito, que preserva inexplicavelmente alguns.
O país virou um poço infindável de ódio (eu mesmo fui agredido inexplicavelmente sob o nojento argumento de anti-semita. Mas já perdoei meu algoz). O país se arrasta, como se arrastam alguns no lixo à procura do que comer. Assistimos a uma contenda constante, que nos faz clamar pra que o tempo corra o mais rápido possível pra que tenhamos ao menos a chance de dizer se queremos ou não seguir este flautista.
Os dias são os mesmos, e os calendários dizem que o feriado do dia 1º, é o dia da confraternização universal, seja lá o que isto venha a ser. Duvido deste dia na Síria ou nos lixões deste Brasil varonil, que precisa de mais padres Julios Lancelottis para amainar dores e restabelecer a dignidade dos que já nem lembram mais dela, como deve tê-la perdido um ministro que entende que a morte de crianças por Covid está dentro de um percentual aceitável e que, portanto, não precisamos tomar decisões precipitadas.
Certamente a sabedoria estará presente numa consulta popular, eivada de matutos e não de autoridades sanitárias (contém ironia). É o mesmo que usou um VSF dentro de um ônibus em NY, mas poderia ser o negro que não gosta de negro encastelado na Palmares. A cultura tem de voltar a culturar, sabemos, e muitas outras coisas precisam ser mudadas, começando pela proteção aos povos primitivos do país, e à nossa famosa floresta.
Então, neste tempo em que na virada do calendário imaginamos um novo tempo, possamos, como diz Fernando Silveira, entender que resiliência é sempre aquele algo a mais na nossa, parece, infindável capacidade de superar dificuldades. Que entendamos que estar à altura da mulher amada é mais importante que tudo. E que sonhemos e aceitemos braços que nos sustentem na hora mais derradeira. Que não morramos mais sozinhos numa UTI, sem ar. Nem nos joguem numa cova aberta às pressas na noite das retroescavadeiras.
Não queria ser cinza. Mas realmente, Fernando, é preciso muita, mas muita força pra seguir a vida do jeito que as coisas andam. Ano que vem, além da ômicron a nos assustar e das eleições a provocar guerras, tenhamos ânimo, força, amigos, clientes, dias claros, vacinas, jornalismo sério e comunicação responsável. E muito afeto – matéria-prima muito em falta. Menos fake news e menos mentiras saindo da boca de alguns.
Feliz 2022!
Iraguassu Farias é diretor comercial de Coletiva.net.


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