Até um determinado ponto da nossa história humana, era admitido que se fizessem pesquisas científicas sobre “superioridade racial”. Foi um passo civilizatório importante a percepção na Academia do quão antiéticas essas pesquisas poderiam ser – instrumentalizadas para projetos de eugenia, genocídio, apartheid.
Ainda que haja uma reação ressentida e fascistóide de parte da sociedade, o edifício da civilização contemporânea é assentado na ideia do Estado Democrático de Direito, que inclui as diretrizes de Direitos Humanos e uma separação fundamental entre o Estado e as muitas igrejas. A busca de qualquer democracia deve ser, portanto, a proteção às minorias em suas diferentes dimensões – porque isso significa proteger a todos, inclusive em sua liberdade de expressão. O conceito de minoria não é numérico, é político; portanto a próxima “minoria” a ser perseguida pode incluir você, hoje privilegiado. Recentemente, também o capitalismo absorveu a ideia da diversidade como uma demanda dos negócios que se pretendem competitivos – daí a publicidade absorver o importante conceito de representatividade.
Não é mais possível, no estágio em que nos encontramos, retroceder em relação à representação dos diferentes tipos de consumidores na propaganda, porque tratar populações minorizadas como consumidoras legítimas em um sistema capitalista é uma maneira de garantir-lhes, sim, um pedaço da cidadania. A Constituição brasileira, interpretada à luz do mundo de hoje pela Justiça, garante equidade de direitos entre casais homoafetivos e heterossexuais. Não somos cidadãos de segunda classe, e é isso que é transmitido à sociedade quando aparecemos em comerciais de TV!
Dito isso, causa espanto que o Instituto Datafolha tenha formulado a seguinte pergunta em seu último levantamento de abrangência nacional, divulgado em 25 de dezembro: “Comerciais com casais homossexuais devem ser proibidos na televisão para proteger as crianças?“. Os resultados da pesquisa demonstraram que 51% concordam, ainda que em parte, com a proibição de comerciais com casais homoafetivos (algo inconstitucional!).
A motivação do questionário é um malfadado projeto de lei na Assembleia Legislativa de São Paulo (PL 504), já derrubado por conta de uma pressão substancial do mercado publicitário. O projeto associava a proibição de propagandas com casais LGBT com uma suposta “defesa das crianças”. Uma eventual aprovação dessa excrescência nos colocaria na companhia de países em estágio de erosão democrática, como a Hungria e a Rússia. Países em que, justamente, há uma tentativa de disfarce dos malfeitos de seus líderes através de um empenho fundamentalista em pautas de costumes. Nada de novo: moralistas de meia tijela a usar a fé alheia como escudo para sua corrupção pornográfica!
As respostas a essa pergunta antiética do Datafolha, na verdade, NÃO IMPORTAM. Por acaso julgaríamos legítima a pergunta “Você é a favor da abolição da escravatura?”; ou “Você concorda ou discorda que os judeus dominam o mundo?”. O jornalismo precisa, necessariamente, estar ao lado dos Direitos Humanos – e é por isso que essa pesquisa é um desserviço gigantesco. A suposta “imparcialidade” de jornais como a Folha tem dado abrigo a negacionistas, ideólogos de extrema direita, e, agora, também à divulgação de pesquisas que reforçam preconceito e associam, criminosamente, a homossexualidade ao assédio de crianças. Considerar que a representatividade de casais LGBT na TV possa ser danosa às crianças não é opinião, é homofobia. Que palco, Folha de S.Paulo, para quem quer suprimir direitos e disfarçar ódio de opinião!
Como profissional da área de publicidade, registro minha indignação. E torço para que os clientes não recuem no avanço civilizatório: representatividade é um compromisso de todas as marcas que querem ser relevantes no mundo de hoje. O dado que deveríamos olhar é o aumento de 37% nas uniões homoafetivas no Brasil, recentemente revelado pelo ConJur, e não uma pesquisa enviesada, inoportuna e antiética!
Gabriel Besnos é publicitário, sócio-diretor e VP de Criação da agência Bistrô, além de ativista LGBTQIA+.


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