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Fui cancelado

Por Luan Pires, para Coletiva.net

Fui cancelado.

Pelo menos em sonho. 

Desculpa o gatilho de curiosidade, mas ele serve para tangibilizar o assunto deste artigo, afinal, por que as pessoas têm sentimentos tão intensos em relação a isso?

Inclusive eu. Tanto que me fez sonhar sobre. 

Rapidamente: era um dia lindo, pelo menos acho que era, sonhos não são geralmente muito precisos em relação a isso. Não me perguntem como ou porquê (e por favor, quem interpreta sonhos ou consegue achar manifestações do inconsciente neles não me digam o que esse significa), mas eu era um dos convidados – junto a minha mãe – da plateia de um reality show chamado Rupaul’s Drag Race que promove a arte drag numa competição. Foi então que minha mãe levantou um cartaz amarelo com alguma piada e do nada rasgou na frente de todo mundo. Todos gargalharam. Aparentemente, era uma piada, mas nem meu inconsciente conseguiu pensar em algo realmente engraçado para manifestar. Então, em resposta, eu falei em tom de brincadeira “mãe, é setembro amarelo, não faz isso”. E ri. Sozinho. O silêncio surgiu. Alguém que estava ao meu lado disse: está todo mundo falando sobre o quão insensível você foi por fazer piada sobre um mês tão significativo. Eu me senti na obrigação de me retratar. Virei pra plateia e pedi desculpas pelo mal que causei e expliquei que eu mesmo tenho um histórico de ansiedade e depressão. Metade da plateia se acalmou, metade não. 

Segui cancelado.

Foi um sonho, então não vou discutir pontos sobre a minha fala, repercussão, o que aconteceu, porque bem… Vocês entenderam a parte que foi um sonho, né? Mas queria focar na discussão sobre o cancelamento. Segundo este estudo, os três maiores motivos alegados para um cancelamento são por divergência política, homofobia e mau-caratismo.

O cancelamento veio da correção de padrões comportamentais tidos como “errados”. Podem inclusive responder a atos criminosos, como homofobia, racismo, capacitismos, bullying, etc. É um assunto polêmico porque – fora os casos mais extremos (que citei anteriormente) – inibem o poder de aprendizado e evolução.  É como se a pessoa que errou com aquela atitude sempre será daquele jeito. Toda uma vivência definida por uma fala infeliz no twitter.

Aqui, importante fazer uma observação de que neste artigo não há julgamento de valores, apenas uma reflexão como a cultura do cancelamento é castradora (e não vou entrar aqui na esfera de que se a pessoa mereceu algo ou não). Não é o ponto. O ponto é: de 2019 até 2020, a palavra cancelamento foi citada quase 20 mil vezes na internet, segundo a mesma pesquisa. Em 2021, ela foi mencionada mais de 60 mil vezes, o que representa um crescimento de mais de 200%. Ele virou banal. Mas o poder dele é devastador. 

O cancelamento pode inclusive ser imparcial porque é baseado, em sua maioria, no que está falando com base em informações desencontradas. Acho que pontuar falas problemáticas, mostrar discursos estruturais errados e agir proativamente para coibi-los é papel de todos (e não só das minorias). Mas ao mesmo tempo, desacreditar no poder de evolução, aprendizado e mudança em alguns casos (e aqui vou frisar bem que é em alguns casos) é quase tirar a jornada de aprendizado da pessoa. 

Eu não sei a resposta, mas lanço a pergunta me incluindo nela: até que ponto exageramos? Até que ponto falta empatia? Até que ponto estamos certos? Até que ponto precisamos nos conectar com as jornadas individuais? Crime é crime, preconceito é preconceito e nada disso é opinião e tudo isso deve ser combatido. Não estou falando isso. 

Minha pergunta é: o quanto a cultura do cancelamento está criando pessoas melhores ou apenas inibindo caminhos que poderiam ser traçados juntos?

Por favor, não me cancelem por esse texto.

Mas, se fazê-lo refletir um minuto sobre o assunto, já vai ter valido a pena.

 

Luan Pires é jornalista e executivo de Planejamento Estratégico e Comportamento.

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