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Tenho esperança

Por Iraguassu Farias, para Coletiva.net

Antes de mais nada, deixa eu registrar: não estarei falando de política. De verdade, acreditem.

Muitos me perguntam: “Como anda o mercado?”; “O que dizem os agentes?”.

Nesta hora me vem à cabeça as primeiras trocas: o escambo. Depois a moeda, como denominador comum de valores.

Atravessamos a idade média e chegamos à revolução industrial. Da produção para subsistência à troca dos excedentes e a produção em série.

Na base de tudo, a busca do acúmulo de capital de uns e do bem estar social de outros. Velha guerra de classes.

Acredito muito que o mercado da Comunicação melhore no segundo semestre. O primeiro tem sido terrível. A estagnação dos negócios, o receio de investir e as taxas de financiamento abusivos deixam tudo neste andar modorrento, lento, quase desesperançoso.

Minha tese é simples: o rico, muito rapidamente tem suas necessidades básicas atendidas. O que sobra, investe. O pobre não as tem, porque não tem renda. Se, e quando tem, sabemos pra onde ela vai: consumo. Pobre adora consumir… hehehehe. Ele precisa vestir, comer, andar, divertir-se. Mas, sem grana, não tem como.

Às vezes me encho de paciência para com alguns renitentes e digo algumas coisas óbvias, que preferimos às vezes não pensar ou agregar um raciocínio de viés ideológico, o que ofusca tudo.

– Se os que menos tem começarem a ter um pouco mais, seja bolsa isto ou aquilo, ou mesmo com a conquista de um emprego, para onde vai o dinheiro? E se bastante gente começar a ser beneficiada, quanto dinheiro a mais vai circular na economia? E o que estes vão comprar? Comida, roupa, combustível, cinema, estudo… Quem vai ofertar esses produtos/serviços? O armazém, o açougue, a lojinha, o posto… E quem abastece essa cadeia, a começar pela periferia? Produtores, que hoje amargam desaceleração.

– Se aumentam a tabela de isenção de IR, onde fica a grana que antes era carreada para os cofres públicos, para aplicações nem sempre republicanas? No bolso de quem pagava a partir de R$ 1.900,00. Multiplica pela quantidade de beneficiados e veja quanto recurso irá ser retido com as pessoas e que vai circular no mercado primário, aquele a que eu me referi antes.

– Se 48 medicamentos serão de graça, imagine quanto fica no bolso daqueles que gastavam a metade da aposentadoria em remédios? E pra onde vai esta grana? Fica no bolso de quem menos tem.

– Na base da pirâmide ficam os que têm menos. Mas eles são muito, mas muito mais numerosos que os do topo da pirâmide. Então, se, para mim, R$ 18,00 não é muito, imagine esse valor de aumento no salário mínimo multiplicado pela enormidade de pessoas na base desta pirâmide todos os meses… Quanto dinheiro a mais circula na mão de pessoas, consumidores?

Na área de vendas, costumamos dizer que “o não eu já tenho. Se fechar, é lucro”. Parafraseando, elenquei quatro fatos em que o NÃO já existia. O que vier, é lucro. Muita gente NÃO tinha renda maior pelo bolsa-família. Muita gente NÃO tinha economia do IR. Muita gente NÃO tinha como não gastar grande parte da renda com saúde e remédios. Muita gente NÃO tinha aumento no seu salário mínimo.

Agora, começa a ter. Estou falando de matemática, que, em última análise, também é de crescimento do mercado interno. Muitos lá fora sonham em vender aqui. Nos falta muito e somos um país que precisa atender 213 milhões de pessoas. Então, ainda que exportar muito seja muito bom, não podemos esquecer do mercado interno.

Isso basta? Não, claro. O agro precisa de investimentos, a indústria precisa de incentivos. Mas acho que se somente nos preocuparmos com vender lá fora, continuaremos na espiral de aumentar a riqueza dos mais ricos. E para um mercado interno pujante tem de haver poder de compra. Aqui.

Para nossa satisfação, o BC vai ter de baixar a taxa SELIC. Não tem como segurar este juro real com inflação de 3,49% nos últimos 12 meses.

E o relatório do COPOM já sinaliza viés de baixa para agosto. Mas tem de ser logo. Porque essa taxa significa exatamente que do 1,5 trilhão da arrecadação anual do país, quase a metade vai para pagar apenas JUROS dos títulos do governo que os bancos têm em suas mãos. Pense em um cheque pré-datado! Pois é isto: os bancos têm cheques pré-datados do governo. E os juros cobrados destes cheques, os tais 13,75%, vão para a mão de rentistas, que não produzem um parafuso sequer. Cada 1% da dívida que a União tem com os bancos consome dos nossos impostos pagos, R$ 38 bi (se eu fosse banqueiro não iria querer que esta taxa caísse, entende?). Se a taxa SELIC fosse ainda alta, mas na casa dos 10% – um absurdo -, R$ 150 bilhões por ano deixariam de ir pros bancos e o tal bolsa-família não seria necessário ficar de fora do arcabouço fiscal (ou teto de gastos).

Resumindo: não é a Comunicação que está parada. São todas as atividades econômicas. Mas a inércia vai acabar. Chegando dinheiro na ponta, o povo saindo do SPC, o consumo aumenta. A indústria se recompõe. E o mercado da Comunicação cresce junto. A concorrência vai aumentar de forma saudável.

Se eu estiver errado, também estarão o presidente da CNI, o presidente da FIESP, dona Luiza Trajano e até o ministro da Indústria e Comércio. E olha que eles sabem muito mais do que eu dessas coisas.

O que eu sei? Apenas sobre esperança.

Já é alguma coisa.

Iraguassu Farias é diretor Comercial de Coletiva.net

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