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Porque escrever é existir

Por Lucas Dalfrancis, para Coletiva.net

Lembro de quando éramos nós. Papel, lápis, borracha e ideia. Nada podia salvar os nossos erros. A gramática era vossa responsabilidade, assim como a imaginação que, depois de apalavrada, tornava-se um corpo andarilho. Nenhum botão mudava nada. Edição, que tal? Sequer conhecíamos a função. A preguiça era rasura. O capricho, passar a limpo. O garrancho, o relaxamento; a caligrafia a simetria do ideal.

Quantos textos cabiam em um só? Dezenas. Porque a graça do fim eram os remendos inventivos do meio. Quem escrevia por amor sempre punha o futuro na redação. Na escola, 30 linhas para uma vida. No jornalismo, de letra em letra, coladas na matriz, a história em manchete.   

Sou um réu confesso: fui comerciante ilícito desde o ensino fundamental. Criminoso também no ensino médio. Vendia no grêmio estudantil o pensamento que ficava alinhavando, durante o intervalo, entre consoantes e vogais. Redações me deram lucro. Pagava o pastel do bar do colégio com o esforço à punho. Sim, houve um tempo em que a escrita pagava uma fritura de guisado com ovo.

Escrever era passível de prêmio. Tipo concurso de calouros do Raul Gil. A gente ganhava livros, cursos e até computadores. Mas naquele tempo era para escrever mais e melhor no computador, e não pedir que ele escrevesse por você. Era uma inteligência real, talvez não ideal, mas de estímulo para jamais desistir de pensar. Escrever era – e ainda é – um ato de pensamento.

Hoje talvez meus colegas não precisassem mais me pagar um pastel em troca de uma redação. A inteligência artificial me venceu. Quiçá eu mesmo não enxergasse razão em escrever se a escrita não fosse um desafio. A Nelci, timoneira da Língua Portuguesa, nossa professora, não saberia identificar hoje o que é humano e o que é máquina. Aliás, talvez a minha geração escrevesse bem menos e bem pior. E, por óbvio, teríamos limitado e atrofiado nossa criticidade. 

Perdão o ranço e também a partilha do medo. Eu não estou nostálgico pelos pastéis do passado, talvez com temor pelos pastéis do futuro. Mas, principalmente, sobre o que formaremos amanhã, e se formaremos – porque escrever é existir. E não escrever é fazer de conta que a gente existe.

Lucas Dalfrancis é CEO da Notório I estratégia & reputação.

 

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