A crônica abaixo não é sobre o aplicativo, embora pareça até quase seu final
Desenvolvi aversão a grupos de WhatsApp. Melhor dizendo, passei a detestar o próprio aplicativo, este fenômeno que revolucionou a comunicação e virou ferramenta de trabalho sem proporcionar absolutamente nada de novo. É preciso ser muito gênio para fazer dar certo a criação do que já está por aí há tanto.
Para mensagens instantâneas, existiam – e ainda existem – muitos outros recursos, até mesmo sem necessidade de sinal de internet. As primeiras chamadas de vídeo, o novo normal pós-pandemia, datam de 1964. Analógicas, sim, com o que se podia à época; e elitistas, é verdade, assim como quase toda tecnologia inovadora. A chamada de áudio, que loucura!, replica as funções daquele aparelho inventado por Graham Bell em 1876, com a diferença de que o pioneiro não tem delay.
Mas o WhatsApp é o WhatsApp. Juntou tudo numa tela só, adicionou emojis e figurinhas e, pelo menos no Brasil, a cada atualização ganha mais força. A mais recente são os canais. Vejam só, que grande novidade (o aplicativo “concorrente” dispõe da função há “milianos”)! Concomitantemente à dificuldade de mensurar vem a de negar: poucas são as pessoas com smartphone que não o tenham instalado. As exceções existem, mas, como pressupõe a definição, são raras – bom adjetivo para deferir à queridíssima colega de profissão Maria José Vasconcelos, editora de Ensino do Correio do Povo, um exemplo de quem não cede aos caprichos daquele ícone alviverde do telefone e do balãozinho que cumpre com o que promete (de propaganda enganosa não se pode acusá-lo).
Não raras são às vezes em que uma chamada mal começa e vira um “manda no whats”. Quando a sugestão não vem no começo, vira indireta no final com “me chama no whats”. Cumpre-se o pedido, com formalidade e educação, para ou a mensagem ser respondida, apenas em retribuição ao gesto, ou cair no esquecimento em meio a diversas que não param de apitar e subir. O volume é tamanho e a correria é tão grande que se torna essencial estabelecer aquele conceito básico no qual plural não cabe: prioridade. Só que comunicação pressupõe um mínimo de duas pessoas, e ninguém quer parar para refletir sobre a prioridade alheia.
Tenho convicção de que não é só na minha tela em que volta e meia aparece: “vou mandar agora que é pra não esquecer, responda quando puder”, seja às 5h ou às 23h de um sábado promissor. A impressão que se tem – a qual eu torço que outros também sintam – é de que se perdeu o senso de urgência e importância. Só vale o tempo da própria pessoa, que se dane o restante.
É tanta mensagem que a leitura fica comprometida, gerando respostas ao que não foi questionado e perguntas ao que já foi dito. A prova viva de que a nova comunicação tem afetado a cognição é vivenciada seguidamente pelo meu amicíssimo e colega de trabalho José Pedro Jobim, com quem mais divido as aflições dos problemas de comunicação entre comunicadores (dos quais rimos para suportar, cientes de que somos parte – inclusive entre nós). Pelo menos uma vez por semana acontece um novo-velho diálogo em suas conversas:
– Prefere José ou Pedro?
– José Pedro.
– OK, João.
Outrora diversão, os grupos, ponto de partida dessa reflexão, foram minguando pouco a pouco no meu aplicativo. A maioria das saídas pela mesma razão: a disseminação de fake news, contra as quais os bons jornalistas, como classe, diariamente lutam. Mas não só. No da turma do poker, em vez do agendamento da próxima jogatina ou da repercussão de um blefe de dois pares capaz de vencer a mão de um flush, a discussão política. No do futebol, tudo, menos futebol. No da parentada, diversos bons dias, boas tardes e boas noites, intercalados de amenidades ditas por quem não tem o que fazer nem em casa nem na rua. Nos sem temática definida, ostracismo e sequer o famigerado “oi”. Por algumas dessas saídas repentinas, quando o app ainda fazia o desfavor de notificá-las, perdi amigos de até então – se bem que amigos e até então passam longe de uma combinação genuína.
Enfim, restaram os do ofício, sine qua non, e mais alguns poucos, que consigo contar nos dedos de uma mão e ainda sobram o polegar e o indicador, sem força de expressão: o do pessoal do serviço, o de contemporâneos em Zero Hora (ZH) e o do condomínio, o qual relutei em ingressar pensando que seria mais um lotado de inconveniências, mas que me reservou grata surpresa: não há, sequer, bons dias, boas tardes e boas noites intercalados de amenidades ditas por quem não tem o que fazer nem em casa nem na rua. Tanto neste quanto nos demais listados, só se fala o que importa (vá lá, os ex-colegas de ZH vez ou outra são pontos fora da curva – contudo, bons e engraçados pontos).
Pois a eles recorri, quando a necessidade deu as caras sem sobreaviso nas enchentes que assolam o Rio Grande do Sul. Com conhecidos entre os desabrigados de Muçum, acionei os três e deparei com a sutil ironia de precisar lidar com notificações incessantes provocadas por mim mesmo. Enquanto alguns começavam a responder, ou no privado ou nos grupos, a campainha prenunciava a primeira doação. O mesmo vizinho, mais tarde, arrecadou mais itens. Para evitar o incômodo pelo adiantado da hora, dessa vez, deixou na porta. Foi o começo de um movimento de muitas doações que abarrotaram a entrada do apartamento. Os colegas e amigos de Moglia lotaram porta-malas e banco traseiro do Fiatzinho. Alguns da turma que se conheceu na ZH me chamaram para buscar cobertas e travesseiros e perguntar o que mais se está precisando. Desde o começo da tragédia que se segue, já aconteceram algumas viagens com espaço no carro apenas para o motorista. Isso sem falar dos pix enviados para ajudar nas compras que também contribuíram para encher os veículos.
Novos eventos climáticos virão. Neste, os alertas foram poucos e não transmitiram a dimensão do caso. À Defesa Civil, cabe realizá-los. À comunidade, mobilizar-se preventivamente e torcer para que não se confirmem. O que não cabe, nisso tudo, é que o principal canal entre uma e outra, em pleno 2023, seja o SMS. Para piorar, conforme o CEP do cidadão. Somente 7% da população está cadastrada para receber os avisos. Que fosse a totalidade, não dá para contar com a sorte de alguém abrir um obsoleto aplicativo de mensagens, visualizar e responder: Defesa Civil, manda no WhatsApp.
Gabriel Lima Araújo é gerente de Comunicação na Moglia Comunicação Empresarial ([email protected])


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