Se há alguém de bem com a vida, seu nome é Titha Kraemer. Formada em Publicidade e Propaganda pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC), Titha escolheu esta profissão após uma viagem, aos 15 anos, para os Estados Unidos. Ao entrar num supermercado e se encantar com um universo visual formado por centenas de embalagens cheias de cores, de diversos produtos, decidiu o que queria ser na vida. Lá se vão mais de 20 anos, tempo em que nem se sabia de uma tal Internet, quando voltou para o Brasil com diversos rótulos de chiclete, bala, sacos e até um porta-peixe frito todo engordurado – e com a certeza de que queria desenhar isso, embalagens e o que mais surgisse em seu caminho.
Neta de avô pintor e escultor e avó poetisa e pianista, Titha acredita que seu amor pela arte veio desta geração. A infância rodeada de terra, grama, árvores e flores é lembrada com muito carinho. A admiração pela avó é explícita, pois foi ela quem a introduziu nas vantagens da ioga, atividade que pratica há 15 anos. E ensinou-a a ter fé, convicção que começou a ter quando tinha quatro anos. Ao perguntar à avó o significado de ter fé, ouviu a resposta: “Quando se quer muito uma coisa, e acredita-se nisso, devemos rezar bastante porque essa coisa acontece”. Foi exatamente o que Titha fez quando acordou, num domingo, com uma vontade imensa de pintar, mas percebeu que não tinha bloco nem lápis. Conforme o ensinamento, rezou por diversas vezes e nada acontecia. Frustrada por não aparecer o que ela queria, contou ao seu pai a decepção. Mais tarde ganhou dele o bloco e os lápis. Ainda ingênua, Titha acreditou que se rezasse teria seus desejos realizados, e cresceu com esta convicção.
A determinação
Durante o curso de Publicidade, tinha especial predileção pela disciplina de direção de arte e logo foi procurar um estágio. Após descobrir, através de uma amiga, que a agência Norton criava as embalagens da marca internacional Yoplait, Titha foi bater na porta da empresa com a cara e a coragem. Tentou duas vezes e duas vezes ouviu não. Na terceira, ganhou no cansaço, pois foi aberta uma vaga especialmente para ela. Começa aí uma carreira vitoriosa.
Seu primeiro projeto, seu primeiro desafio, era um projeto simples, mas que rendeu seu primeiro nervosismo. Criar uma etiqueta com as palavras “conjunto econômico” em cima de uma imagem cheia de informações e fazer com que esta etiqueta se destacasse, tomou bastante tempo da estudante. A criação da primeira embalagem das Nutrelinhas, da qual participou ativamente, é outra de suas boas lembranças. Desde então, Titha considera cada projeto um novo desafio.
Enquanto atuava em grandes agências, como Competence e DCS, começaram a surgir convites para palestras, seminários e congressos. Num deles, uma surpresa: ministrar um módulo compacto, de uma semana, no Instituto Dragão do Mar, no Ceará, sobre embalagens. Logo, outra surpresa foi o convite para dar uma palestra no México. Para este desafio, que Titha detalha com bastante empolgação, teve que ensaiar toda a sua apresentação em espanhol. Uma experiência inesquecível, segundo ela.
Na sua bagagem profissional, também traz um estágio na Espanha, em 1995, onde conheceu produções de primeiro mundo e diferentes processos de desenvolvimento de embalagens. A indicação para essa experiência foi de uns dos diretores da agência Norton, onde trabalhou por seis anos. Ao voltar do exterior, assumiu a direção de Arte da Competence, passando em seguida para a Trio Design, e logo para a DCS.
Em 1997, num momento de muita atividade e uma alta demanda de trabalho com prazos apertados, Titha viu-se num esgotamento mental. A qualidade dos projetos já não agradava a exigência pessoal da publicitária. Veio então a vontade de desistir. “Vou abrir uma floricultura, ser professora de ioga”, pensou ela. Mas a vontade de vencer e fazer com que as coisas dessem certo lhe deu força para continuar, alguns anos depois virou empresária.
Na intimidade
Com Cláudio, um músico gaúcho que morou 11 anos nos Estados Unidos, Titha é casada há oito anos e tem os filhos Frederico, de 4 anos, e Estela, de 8 meses, a quem ela faz questão de dedicar todo o tempo disponível. Mesmo com a rotina corrida, a designer faz questão de almoçar todos os dias em casa, e que nesse momento todos estejam juntos à mesa. A noite também é da família, é hora de saber como todos estão, como foi a escola e ainda de brincar com eles. Final de semana ensolarado definitivamente não é dia de ficar em casa, com a persiana baixa, vendo um filme. Dias assim instigam a criatividade de Titha, que trata logo de inventar um piquenique ou outro passeio que faça a família curtir o dia.
Mergulhadora profissional, já passou por mares do México, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Fernando de Noronha. Gosta tanto da atividade que está treinando os filhos para que a acompanhem, já que o marido, por um trauma de infância, não é adepto do esporte aquático. Nessa linha de aventuras, Titha também saltou de paraquedas, momento de absoluto silêncio inspirador, que diz ter feito pensar na vida e ouvir apenas a si mesma. “O sol me inspira, estar em contato com a natureza me revitaliza”, revela a designer.
Em casa Titha tem um espaço “kids”, no qual há muita tinta, lápis de cor, canetas, giz de cera e onde adora estar no chão com os filhos fazendo muita bagunça, e, claro, muita arte. Não deseja aos filhos que sigam o seu caminho, pois acha que o importante é que eles sejam felizes, independentemente da profissão que escolherem. Para ela, realização profissional significa felicidade. Filha de pedagoga e de corretor de imóveis, ela se considera, apesar de ansiosa, muito determinada e otimista: “Adoro transformar um limão numa limonada”.
O mundo das artes cênicas a agrada, brinca muito com a voz e se considera uma palhaça. Com isso faz trabalhos de freelancer para rádio, gravando comerciais. Alguns clássicos registram a sua voz, como, por exemplo, “Gang, a loja que te entende” ou “Iguatemi é estilo, estilo é Iguatemi”. Mas garante que só faz isso por diversão, pois sempre teve certeza do que queria. Assim como tem certeza de que não teria outra profissão. Por mais que goste de encenar, não aguentaria a rotina de atriz.
Amor pela vida
Em 2002, ao sair da agência DCS, Titha e uma amiga resolveram abrir uma empresa, que ela prefere chamar de “espaço”, que fosse especial a ponto de permitir às duas mais dedicação aos projetos que exigiam mais tempo. Queria que as pessoas que lá trabalhassem gostassem daquilo tanto quanto ela. Desejava dedicar-se especialmente ao seu primeiro foco, as embalagens. Criou a Bendito Design, agência que começou com duas sócias e hoje conta com uma equipe de 18 colaboradores.
Gosta e acredita no que faz. Sabe a exigência que determinados clientes têm, mas conhece seu público, mesmo que nem sempre faça parte dele. “O trabalho que a gente faz não é simplesmente um trabalho bonito, ele tem que ter propriedade, uma eficiência, tem que ter um porquê. Todo cliente quer resultado. Por isso, esse sempre foi o foco do meu trabalho: bonito, mas que tivesse resultado”, explica Titha.
Considera importante ouvir críticas, situação em que acredita sempre haver crescimento. “Quem quiser fazer um trabalho só porque acha bonito e não estiver disposto a ouvir críticas, que vá pintar quadro no Brique, e aí vai ser independente.” Garante que os trabalhos da sua agência só chegam ao cliente depois de muita discussão, refinamento, estudo e informação bem embasada. A ideia de ter seu próprio negócio sempre foi de inovar, atrair, criar uma personalidade com o produto, se diferenciar da concorrência e encantar muito mais.
Ao ser perguntada sobre o futuro, Titha pensa, repensa e garante que não sabe quase nada do amanhã. Sabe que tem clientes fiéis, mas sobre o projeto que vai desenvolver para eles em janeiro, por exemplo, não tem a mínima ideia. O dinamismo do universo em que vive é o que a move. Para sua empresa só tem um desejo não muito distante: conquistar credibilidade e visibilidade em nível nacional e internacional.
A busca da realização
Aos 40 anos, Titha acredita estar na melhor fase da sua carreira, mas lembra estar sempre num constante crescimento e aprendizado, pois acha que se cresce em cima de experiências. Com 20 anos de mercado, a publicitária alerta: “Se cheguei aqui foi trabalhando, experimentando, caindo, levantando, ouvindo e sendo criticada. Todo designer deve se desvencilhar do seu ego, porque todos nós somos um pouco artistas”.
No ano passado recebeu, da Associação Brasileira dos Colunistas de Marketing e Propaganda (Abracomp), no 26º Prêmio Colunistas do Rio Grande do Sul, o troféu de Empresária de Marketing Promocional do Ano. Apesar da surpresa, Titha ficou orgulhosa de si mesma, pois, além do universo da criação, acabou migrando para o difícil mundo da administração, e ser reconhecida como empresária foi definitivamente gratificante para ela. Há poucos dias, após uma palestra, a publicitária foi elogiada como “uma explosão de coisas boas”, o que novamente a deixou orgulhosa.
Para os que estão começando, Titha deixa um recado: “Ter fé e acreditar nos sonhos”. Para a designer não basta ter um belo currículo, é necessário ter vontade de aprender, ter determinação e amar o caminho que escolheu. Apesar das dificuldades que toda profissão traz, ela garante que não a trocaria por nada.
Estando na melhor fase de sua carreira, Titha acredita ser impossível não estar assim também na vida pessoal. O marido e os filhos, a sua empresa, a profissão, as lembranças da infância, tudo isso faz com que ela se sinta uma mulher totalmente realizada. “Posso garantir que hoje sou uma pessoa muito feliz”, diz, com um sorriso que parece ser uma marca constante em seu rosto.

