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No dia 8 de janeiro, de acordo com a reportagem do portal Infomoney, o Mercado Livre demitiu 119 funcionários na América Latina, sendo 38 no Brasil. A justificativa era quase aceitável: “evoluir os perfis de Experiência do Usuário (UX, do inglês User Experience) para integrar design e conteúdo”. Em outras palavras: eliminar redatores UX porque a Inteligência Artificial (IA) agora faz esse trabalho. Algo estranho no ar: enquanto anunciava 42 mil novas vagas em 2025, a empresa eliminava redatores.

Porém, eis uma verdade incômoda: IA não substitui pessoas. IA substitui padrões. Quem estava gerando textos repetitivos, padronizados, previsíveis, exatamente o trabalho que IA faz melhor, perdeu. Quem reinventou sua função, não.

Esse episódio trivial revela um padrão assustador: as gigantes de tecnologia estão escolhendo eliminar funções padronizáveis antes de explorar como humanos poderiam evoluir naquele espaço. E, enquanto isso, vendem a narrativa de que IA complementa o trabalho humano.

O que os CEOs dizem vs. o que fazem

Há dois anos, líderes corporativos promovem IA como ferramenta que complementa trabalho humano, cria oportunidades, exige requalificação. Mas em 2025, o discurso ficou contraditório demais para fingir. “Somente contrataremos pessoas quando IA não conseguir fazer o trabalho”. Momentos antes de anunciar mil demissões, um executivo declarou que metade do trabalho já era feito por IA.

Eles não dizem que você será substituído. Dizem algo pior: que você pode ser substituído se insistir em fazer um trabalho que máquinas já fazem.

O milagre da requalificação que falhou

Uma conhecida empresa demitiu 11 mil funcionários e prometeu requalificação. Seu CEO foi quase honesto: “Estamos demitindo pessoas para as quais a requalificação não é um caminho viável”.

A empresa já havia “requalificado” 550 mil em “fundamentos de IA generativa”. Mesmo assim, precisava gastar US$ 865 milhões — principalmente em indenizações. Uma requalificação que falha de forma tão evidente que, no curto prazo, torna financeiramente mais viável demitir do que redesenhar funções e manter pessoas.

O paradoxo é revelador: as empresas sabem que reskilling fracassa. Mesmo assim, não investem em criar papéis onde humanos possam prosperar com IA. Apenas eliminam o antigo e esperam que o novo apareça magicamente.

Quem está realmente em perigo?

A resposta é perturbadora: profissionais que ainda executam seu trabalho como faziam em 2015. O redator UX que gera descrições de produto seguindo templates. O analista que processa dados em relatórios previsíveis.

Esses — sim — estão em perigo real.

Mas há quem prospera: o redator que usa IA para gerar 10 versões e seleciona a melhor, depois reescreve com insights únicos. O analista que questiona por que certos padrões emergem, transformando dados em estratégia.

A diferença? Um faz o trabalho. O outro reinventa o trabalho.

Os números que ninguém quer contar

Segundo um relatório da Challenger, Gray & Christmas, em 2025, empresas citaram IA em 48.414 demissões apenas nos EUA. No Brasil, 31,3 milhões de empregos serão afetados. Desses, 5,5 milhões enfrentam risco de “automatização completa”.

Mas aqui está o detalhe que importa: quantos desses 5,5 milhões desaparecerão porque a função é objetivamente impossível para humanos agora? E quantos desaparecerão porque alguém decidiu que é mais barato demitir do que reimaginar?

A escolha que as empresas estão fazendo

O Mercado Livre não demitiu redatores porque era impossível que eles evoluíssem. Demitiu porque designer com IA é mais barato que designer com redator. Porque o mercado recompensa corte de custos. E porque a narrativa pública é forte o suficiente para ninguém questionar uma “medida pontual”.

Mas essas decisões revelam algo: as empresas estão escolhendo a automação substitutiva em vez da augmentação colaborativa (IA e o humano trabalhando juntos para potencializar o resultado). Porque é mais fácil, mais rápido e mais lucrativo a curto prazo.

A Pergunta Que Deveria Motivar

Deve-se ser claro: você está fazendo trabalho que uma IA consegue fazer? Se sim, prepare-se. Se não, se seu trabalho requer julgamento, contextualização, inovação, empatia, então IA não é seu concorrente. É sua ferramenta. A IA não substitui gente que reinventa. Substitui gente que insiste em fazer o mesmo trabalho padronizado, esperando que ninguém note que máquinas fazem melhor.

O Mercado Livre adotou um discurso que simula uma verdade aceitável, mas que não esconde o risco iminente, não apenas para seus funcionários, mas para qualquer profissional inserido em estruturas que preferem cortar funções a reinventá-las. Essa verdade está sendo sussurrada em cada demissão “pontual”, em cada memorando que vaza, em cada CEO que para de fingir.

A pergunta agora é: você vai esperar que os padrões do seu trabalho sejam substituídos, ou vai reinventá-los antes que alguém, inevitavelmente, o faça por você?

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Autor

Redação Coletiva

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