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O medo do medo

Dizem os estudiosos em psicanálise que é extremamente difícil admitir nossos pavores e medos ocultos. Pelo menos é o que ouvi de um bom amigo e ex-colega de faculdade. Ele havia feito todos os cursos e seminários disponíveis sobre fenômenos psíquicos.  E que para relaxar das horas debruçado em seus compêndios, frequentava as avant-premiéres de sábado à noite em Porto Alegre para assistir filmes de terror 

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Ele dizia conhecer poucos entre nós com coragem para falar sobre os medos ocultos. E que mesmo eles nunca mencionavam o pior dos medos – o medo de ter medo. Uns diziam que não  conseguiam dormir com as luzes apagadas. Outro, medo de almas penadas e um amigo infância, uma ojeriza por gatos e  que suava frio quando via um cachorro rosnar.  Aquele desfile de confissões me fez refletir sobre mim mesmo. Demorou um pouco até admitir alguns de meus pavores. 

Um deles era de morrer afogado em água rasa. Coisa sem importância, quase tola, desde um episódio antigo, na piscina do clube. Alguém mergulhou do trampolim e caiu ao meu lado. Me assustei, fui ao fundo com ele e engoli um hectolitro de água. 

E quando era guri, quando ia com o pai passear no cais do porto, olhava fascinado as águas do Guaíba correndo para o mar. Então, um dia ele conta do caso do estivador que despencou do alto de um dos guindastes vermelhos e sumiu para sempre nas águas escuras e barrentas. Lembro que apertava forte a mão do pai para me sentir seguro.

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Eu não dava a mínima para presságios e presciências, mas a mãe conhecia algumas pessoas com o dom de pressentir o que estava por acontecer. Ela não tinha paciência para revelar quem eram, mas um dia contou que minha tia Julieta costumava falar do dia de amanhã como se fosse o dia de ontem. 

E que ela uma vez alertou nossa família para evitar o número 2.  Na hora, não ligamos muito para aquela estória, mas dias depois, corre a notícia que um bonde Independência havia descarrilado na curva da Santa Casa e despencado pela Pinto Bandeira abaixo.

No dia seguinte, o Diário de Notícias publicou na capa as fotos do bonde tomba na esquina da Otávio Rocha. Era o bonde de nº 2.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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